Emmental: Um Clássico do Mundo dos Queijos na Suíça

Quando você pensa em queijo suíço, provavelmente a primeira imagem que vem à cabeça são aqueles furos enormes, bem redondos, que parecem ter sido feitos de propósito com uma ferramenta qualquer. É o Emmental, e não tem como negar: ele é provavelmente o queijo mais icônico e reconhecível do planeta. Não importa se você está numa mercearia em Belo Horizonte, num supermercado em Tóquio ou numa feira em Paris – quando você vê aqueles buracos característicos, você sabe exatamente o que está vendo.

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Eu tive a chance de visitar a Suíça algumas vezes, e uma das experiências mais marcantes foi conhecer de perto a produção do Emmental no vale do Emme, no cantão de Berna. Aquilo mudou completamente minha percepção sobre este queijo que, confesso, eu antes via apenas como “o queijo de buraco” que aparecia em desenhos animados e filmes. Quando você entende a tradição, o cuidado e a ciência por trás de cada roda gigante de Emmental, começa a ver esse produto com outros olhos.

A região do vale Emme é linda. Não é aquela Suíça de montanhas nevadas que todo mundo imagina – embora montanhas não faltem por lá –, mas sim uma paisagem de colinas suaves, pastos verdíssimos onde vacas pastam tranquilamente, e pequenas aldeias espalhadas aqui e ali. É uma Suíça mais bucólica, mais rural, que te faz entender por que a qualidade do leite ali é tão excepcional. As vacas comem capim fresco de verdade, respiram ar puro, e isso se reflete no sabor do queijo. Não é papo furado de marketing, não. Quando você prova um Emmental feito na origem, com leite cru e seguindo as tradições centenárias, a diferença é gritante.

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A História que Poucos Conhecem

O Emmental começou a ser produzido lá pelo século XIII, o que significa que estamos falando de mais de 700 anos de tradição queijeira. Pensa bem: enquanto no Brasil a história escrita começava com a chegada dos portugueses, os suíços já estavam ali, no vale do Emme, aperfeiçoando suas técnicas de fabricação de queijo. Isso é impressionante quando você para pra pensar.

No início, a produção era bem mais modesta. Os queijeiros faziam o Emmental nos meses de verão, nas regiões alpinas, onde as vacas subiam para pastar nos pastos de altitude. Era uma forma de preservar o leite – afinal, naquela época não tinha geladeira, e transformar leite em queijo era uma das melhores maneiras de conservar aquele alimento tão valioso. Por volta de 1815, começaram a aparecer as primeiras queijarias no vale propriamente dito, e a produção se expandiu para além das áreas alpinas.

O que me fascina na história do Emmental é como ele se tornou um símbolo não só da Suíça, mas do conceito de “queijo” em si. Em muitos países, especialmente nos Estados Unidos, quando alguém fala “Swiss cheese”, está se referindo especificamente ao Emmental. É quase como se ele fosse o embaixador oficial dos queijos suíços, mesmo a Suíça produzindo centenas de variedades diferentes – muitas delas igualmente deliciosas e interessantes.

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Os Famosos Buracos: Desvendando o Mistério

Agora vamos falar da parte que todo mundo quer saber: como diabos aqueles buracos aparecem no queijo? Durante muito tempo, a explicação científica era que o gás carbônico produzido pela bactéria Propionibacter shermani durante a fermentação criava bolhas que ficavam presas na massa do queijo, formando os famosos “olhos” ou “olhaduras”, como chamamos tecnicamente.

Mas em 2015 aconteceu algo interessante. Pesquisadores do Agroscope, que é o instituto de ciências alimentares da Suíça, chegaram a uma conclusão diferente depois de anos investigando por que os buracos do Emmental estavam ficando cada vez menores – ou até desaparecendo em alguns casos. Descobriram que as partículas microscópicas de feno que caíam no leite durante a ordenha tradicional eram na verdade fundamentais para a formação dos buracos. Essas partículas serviam como pontos de nucleação onde o gás produzido durante a fermentação se acumulava.

Com a modernização das técnicas de ordenha, o leite passou a chegar muito mais limpo nas queijarias – o que, em tese, seria ótimo, certo? Mas para o Emmental, essa limpeza excessiva estava eliminando justamente aquilo que criava sua característica mais icônica. Foi uma descoberta que meio que virou a ciência queijeira de cabeça pra baixo. Hoje, alguns produtores de Emmental AOP (Appellation d’Origine Protégée, a denominação de origem protegida) adicionam propositalmente pequenas quantidades de partículas de feno ao leite para garantir a formação adequada dos buracos.

Quando visitei uma queijaria tradicional no vale do Emme, o queijeiro me explicou que o tamanho e a distribuição dos buracos são indicadores importantes da qualidade e maturação do queijo. Buracos muito pequenos ou muito grandes podem indicar problemas no processo. O ideal é que sejam do tamanho de uma noz, mais ou menos, bem distribuídos pela massa do queijo. É quase uma arte conseguir esse equilíbrio perfeito.

O Processo de Fabricação: Uma Dança de Tempo e Temperatura

Ver a produção do Emmental ao vivo é presenciar uma espécie de ballet coreografado com extrema precisão. Tudo começa com o leite cru de vaca, que não pode ser pasteurizado se você quer fazer um Emmental AOP autêntico. Esse é um ponto polêmico, porque muita gente tem medo de produtos feitos com leite cru, mas na Suíça os controles de qualidade são tão rigorosos que o risco é mínimo. E o sabor que o leite cru confere ao queijo simplesmente não tem comparação.

O leite é aquecido em enormes caldeiras de cobre – e sim, tem que ser de cobre, porque esse metal contribui para as características organolépticas do queijo. É adicionado coalho e culturas lácteas específicas, incluindo aquela bactéria Propionibacter shermani que mencionei antes. A massa coagula, é cortada em grãos minúsculos, e então vem uma parte crucial: o cozimento.

A massa é aquecida a temperaturas que podem chegar a 53°C, o que classifica o Emmental como um queijo de massa cozida. Esse processo é fundamental para a textura final do queijo. Depois, a massa é colocada em formas gigantescas – e quando digo gigantescas, não estou exagerando. Uma roda de Emmental AOP tradicional pesa entre 75 e 120 quilos. Sim, você leu certo: mais de cem quilos de queijo em uma única peça. É o maior queijo do mundo em termos de tamanho de roda individual, até maior que o Parmigiano-Reggiano.

As rodas são prensadas por algumas horas e depois vão para um banho de salmoura que pode durar de um a dois dias. Depois desse banho salgado, começa a parte mais demorada: a maturação. As rodas ficam primeiro em uma adega de fermentação a cerca de 20-25°C por algumas semanas. É nesse período que acontece a “fermentação propiônica”, quando as bactérias produzem o gás que forma os buracos característicos.

Depois dessa primeira fase, os queijos são transferidos para adegas mais frias, onde continuam maturando por um período mínimo de quatro meses para o Emmental clássico, mas que pode chegar a 12 meses ou mais para versões mais envelhecidas. Durante todo esse tempo, as rodas precisam ser viradas regularmente e têm a casca escovada. É trabalho manual, físico, que demanda dedicação.

O Sabor que Vale a Viagem

Descrever o sabor do Emmental é um desafio, porque ele varia bastante dependendo da idade do queijo. Um Emmental jovem, com quatro ou cinco meses de maturação, tem um sabor relativamente suave, levemente adocicado, com notas de manteiga e castanhas. A textura é firme mas ainda cremosa, e aqueles buracos grandes fazem com que o queijo quase se desmanche na boca de uma forma bem agradável.

À medida que o queijo envelhece, o sabor se intensifica. Um Emmental de dez ou doze meses desenvolve notas mais complexas – você começa a perceber toques frutados, às vezes quase cítricos, com um final levemente picante que fica na língua. A textura fica mais firme, mais cristalina em alguns pontos, e o sabor ganha aquela característica que os franceses chamam de “longueur en bouche”, aquela persistência que fica no paladar por um bom tempo depois que você engoliu.

Uma coisa que me surpreendeu foi provar diferentes Emmentais lado a lado. Mesmo sendo todos produzidos na mesma região, seguindo as mesmas regras da denominação de origem, cada queijaria tem suas particularidades. A alimentação das vacas, o terroir específico de cada fazenda, pequenas variações no processo de fabricação – tudo isso cria sutis diferenças que um paladar atento consegue perceber. É fascinante.

Emmental na Cozinha: Muito Além do Sanduíche

Todo mundo conhece o Emmental como aquele queijo que vai no sanduíche ou na tábua de frios, mas ele tem muito mais potencial culinário do que isso. Na própria Suíça, o Emmental é um dos queijos tradicionais do fondue, junto com o Gruyère. A combinação dos dois cria aquela textura perfeita, cremosa mas não muito pesada, com um sabor complexo que equilibra as características de ambos.

A capacidade de derretimento do Emmental é excepcional. Ele derrete de forma uniforme, sem ficar emborrachado ou separar óleo como alguns queijos fazem. Por isso funciona tão bem em gratinados, tortas salgadas, e até mesmo em sopas. Já fiz uma sopa de cebola gratinada com Emmental que ficou absolutamente espetacular – aquele sabor levemente adocicado do queijo combina perfeitamente com a doçura caramelizada das cebolas.

Na França, especialmente na região da Alsácia que faz fronteira com a Suíça, o Emmental é ingrediente essencial da tradicional “tarte flambée” ou “flammkuchen” – uma espécie de pizza de massa bem fina coberta com creme de leite, bacon e cebola, geralmente finalizada com Emmental ralado. É de comer ajoelhado.

Mas onde o Emmental realmente brilha, na minha opinião, é quando você o come puro, em temperatura ambiente, apreciando suas características. Eu gosto de cortar fatias generosas, deixar fora da geladeira por uns vinte minutos antes de servir, e acompanhar com pão de fermentação natural levemente tostado e talvez algumas castanhas. Uma taça de vinho branco suíço, tipo um Chasselas bem fresco, e você tem uma experiência sensorial completa.

A Importância da Denominação de Origem

O Emmental AOP não é apenas um selo bonito na embalagem. É uma garantia de que aquele queijo foi produzido seguindo regras estritas que preservam a tradição e a qualidade. Para ter direito à denominação AOP, o queijo precisa ser feito exclusivamente com leite cru de vacas alimentadas com ração livre de silagem (forragem fermentada), na região específica que compreende várias áreas da Suíça central.

O leite não pode ter sido submetido a nenhum tratamento térmico antes da produção do queijo. As rodas devem ter aquele tamanho gigante que mencionei, o processo de fabricação precisa seguir métodos tradicionais, e a maturação tem que respeitar os períodos mínimos estabelecidos. Cada roda recebe uma marcação que permite rastreá-la até a queijaria específica que a produziu.

Essa rastreabilidade é algo que me impressiona. Numa época em que tanta coisa é produzida em escala industrial sem qualquer conexão com a origem, poder olhar para uma roda de queijo e saber exatamente de qual fazenda veio o leite, quem foi o queijeiro que a produziu, em que dia foi feita e como foi maturada… isso tem um valor imenso.

Claro que existem versões industrializadas do Emmental produzidas em vários países – Brasil incluído. Algumas até são razoáveis, mas não têm comparação com o produto original. É como comparar um vinho do Porto verdadeiro com uma imitação feita do outro lado do mundo. Pode até ser gostoso, mas não é a mesma coisa.

A Experiência de Visitar a Emmental Schaukäserei

Se você tiver oportunidade de ir à Suíça e quiser realmente entender o Emmental, recomendo fortemente visitar a Emmental Schaukäserei, que fica em Affoltern im Emmental. É uma queijaria-museu onde você pode ver o processo completo de fabricação do queijo, desde a chegada do leite até as adegas de maturação.

O que mais me marcou nessa visita não foram nem as caldeiras de cobre enormes ou as rodas gigantes de queijo – embora sejam impressionantes. O que realmente ficou foi a paixão das pessoas que trabalham ali. O mestre queijeiro que acompanhei falava do Emmental como se estivesse falando de um filho. Ele conhecia cada etapa do processo de memória, claro, mas mais do que isso: ele entendia o porquê de cada detalhe, conseguia explicar como pequenas variações podiam afetar o resultado final.

Ele me mostrou como avaliar a qualidade de uma roda de Emmental apenas batendo nela com os nós dos dedos e ouvindo o som. Dependendo do som que produz, dá pra saber se os buracos estão bem formados, se a maturação está no ponto, se há alguma falha interna. É um conhecimento que vem de gerações, passado de mestre para aprendiz, e que nenhuma máquina ou algoritmo consegue replicar completamente.

A região também oferece a possibilidade de fazer a chamada “rota do queijo”, um percurso que conecta várias queijarias tradicionais e permite provar Emmentais de diferentes produtores. Cada queijaria vende direto ao consumidor, então você pode comprar peças inteiras ou pedaços para levar. Já aviso: controlar-se para não comprar demais é quase impossível.

Diferenças Regionais que Poucos Notam

Embora o Emmental AOP seja rigidamente regulamentado, existem diferenças sutis entre os queijos produzidos em diferentes sub-regiões da zona de produção. O terroir – aquele conjunto de fatores ambientais que incluem solo, clima, altitude, vegetação – influencia o sabor final do queijo de maneiras que às vezes são quase imperceptíveis, mas estão lá.

Queijos produzidos em áreas de maior altitude, onde as vacas pastam em prados alpinos durante o verão, tendem a ter sabores mais intensos e complexos. A diversidade botânica desses pastos de montanha é incrível – não é só capim, mas centenas de espécies diferentes de plantas, flores, ervas. As vacas comem essa variedade toda, e de alguma forma isso se traduz em nuances no leite e, consequentemente, no queijo.

Já os Emmentals produzidos no vale propriamente dito, onde os pastos são mais manejados e a vegetação menos diversa, tendem a ter perfis de sabor um pouco mais consistentes e previsíveis. Não é necessariamente melhor ou pior – é diferente. Alguns apreciadores preferem a intensidade e a complexidade dos queijos de montanha; outros gostam mais da suavidade e previsibilidade dos queijos de vale.

Conservação e Como Aproveitar ao Máximo

Se você conseguir trazer um pedaço de Emmental autêntico da Suíça – ou encontrar um bom importado aqui no Brasil – é importante saber como conservá-lo adequadamente. Queijo é um produto vivo, especialmente quando feito com leite cru, e merece ser tratado com respeito.

Nunca, mas nunca mesmo, embrulhe queijo em filme plástico comum. Aquilo sufoca o queijo e pode desenvolver sabores desagradáveis. O ideal é usar papel próprio para queijo, que permite que ele respire mas mantém a umidade adequada. Se não tiver esse papel específico, papel manteiga funciona razoavelmente bem. Alguns puristas juram que guardar queijo embrulhado em um pano de algúmido levemente umedecido é o melhor método.

O Emmental deve ser armazenado na parte menos fria da geladeira – geralmente a gaveta de legumes é um bom lugar. E sempre, sempre mesmo, tire o queijo da geladeira pelo menos meia hora antes de servir. Queijo frio não tem sabor. À temperatura ambiente, os aromas se abrem, a textura fica mais agradável, e você consegue realmente apreciar todas as nuances que o queijo tem a oferecer.

Se você notar um pouco de mofo branco na superfície cortada do queijo, não entre em pânico. É normal, especialmente em queijos feitos com leite cru. Basta raspar a parte mofada com uma faca e o restante está perfeitamente bom para consumo. Obviamente, estou falando daquele mofo superficial branco ou azulado claro, não de algo preto, viscoso ou com cheiro ruim – nesse caso, descarte.

O Emmental no Brasil e Outras Partes do Mundo

No Brasil, o Emmental nunca teve a mesma popularidade que tem na Europa ou Estados Unidos, talvez porque nosso paladar seja mais acostumado a queijos mais intensos como o parmesão, ou mais suaves como a muçarela. Mas nos últimos anos tenho visto um interesse crescente por queijos europeus tradicionais, e o Emmental está começando a aparecer mais em lojas especializadas.

O problema é que a maioria do Emmental disponível aqui é produzido na França ou na própria Alemanha, não na Suíça. E olha, a diferença é perceptível. Não que sejam ruins – alguns são até bastante decentes –, mas não têm aquela complexidade, aquele equilíbrio perfeito entre doce e salgado, entre cremoso e firme, que o Emmental suíço autêntico tem.

Importadores estão começando a trazer Emmental AOP verdadeiro, mas o preço acaba sendo bastante salgado por causa dos impostos e da logística. Vale a pena? Se você é um apreciador de queijos e quer realmente conhecer o sabor autêntico, eu diria que sim, pelo menos uma vez na vida vale o investimento. É uma experiência educativa para o paladar.

Curiosamente, em alguns países asiáticos o Emmental se tornou extremamente popular. No Japão, por exemplo, é visto como um queijo premium e usado em tudo, desde sanduíches gourmet até pratos fusion que misturam elementos da culinária japonesa com europeia. Ver a forma como diferentes culturas se apropriam e reinterpretam ingredientes tradicionais europeus é fascinante.

Sustentabilidade e Futuro da Produção

Uma coisa que me chamou atenção nas conversas com produtores de Emmental foi a preocupação genuína com sustentabilidade e preservação dos métodos tradicionais. A Suíça é um país pequeno, com terras caras, e manter a produção artesanal de queijo é um desafio econômico constante, especialmente competindo com indústrias queijeiras gigantescas de outros países.

O sistema de denominação de origem protegida ajuda, porque permite que os produtores cobrem um preço premium pelo produto autêntico. Mas mesmo assim, muitas queijarias pequenas fecharam nas últimas décadas, não conseguindo se manter viáveis economicamente. As que sobreviveram geralmente são aquelas que conseguiram diversificar – oferecendo visitas turísticas, vendendo direto ao consumidor, criando produtos derivados.

A questão ambiental também está presente. As vacas leiteiras produzem metano, um gás de efeito estufa potente. Os suíços estão na vanguarda de pesquisas sobre como reduzir essas emissões através de mudanças na dieta dos animais, sem comprometer a qualidade do leite. É um equilíbrio delicado entre tradição e inovação.

Outra preocupação é a sucessão geracional. Ser queijeiro artesanal é um trabalho duro, que exige levantar cedo todos os dias do ano, trabalho físico pesado, e anos de aprendizado. Convencer jovens a seguir essa profissão não é fácil num mundo onde carreiras em tecnologia ou serviços parecem muito mais atrativas. Algumas queijarias estão investindo em modernizar as condições de trabalho e oferecer melhores salários para atrair nova geração de queijeiros.

Harmonizações que Funcionam Maravilhosamente

Vinho e queijo são uma combinação clássica, mas nem todo vinho funciona bem com Emmental. Pela minha experiência, vinhos brancos suíços – especialmente Chasselas ou Fendant – são absolutamente perfeitos. Esses vinhos têm uma acidez refrescante e notas minerais que cortam a gordura do queijo sem competir com seu sabor.

Se você prefere vinho tinto, escolha algo leve e frutado, não muito tânico. Um Pinot Noir suíço ou francês da Borgonha pode funcionar muito bem. Tintos muito encorpados ou tânicos tendem a brigar com o Emmental em vez de complementá-lo.

Cerveja também é uma ótima opção. Cervejas suíças lagers ou pilsners limpas e refrescantes são harmonizações tradicionais. Mas já experimentei Emmental com cervejas artesanais brasileiras mais lupuladas e funcionou surpreendentemente bem – o amargor dos lúpulos cria um contraste interessante com a suavidade do queijo.

Para acompanhamentos sólidos, pães de fermentação natural são sempre uma escolha segura. Frutas frescas como maçãs, peras ou uvas também funcionam muito bem. Frutas secas como figos ou damascos adicionam uma doçura concentrada que contrasta lindamente com o sabor levemente salgado do queijo. Nozes e castanhas são parceiros clássicos – a textura crocante e os sabores terrosos complementam perfeitamente o Emmental.

Uma combinação menos óbvia mas que descobri e adorei é Emmental com mel de montanha. Aquele contraste entre o salgado do queijo e o doce do mel, especialmente méis mais escuros e intensos, cria uma experiência de sabor quase viciante.

Mitos e Verdades sobre o Queijo

Existe uma série de mitos sobre o Emmental que vale a pena desmistificar. Primeiro: nem todo queijo com buracos é Emmental. Existem vários outros queijos que também desenvolvem olhaduras durante a maturação, cada um com suas características próprias. O Emmental se distingue não apenas pelos buracos, mas pelo tamanho das rodas, pela textura, pelo sabor característico.

Segundo mito: buracos maiores significam melhor qualidade. Não necessariamente. O ideal é que os buracos sejam uniformes e bem distribuídos, não muito grandes nem muito pequenos. Buracos excessivamente grandes podem indicar que a fermentação foi muito intensa, o que às vezes resulta em sabores mais fortes que nem todo mundo aprecia.

Terceiro: Emmental precisa ser consumido logo. Na verdade, se bem armazenado, um pedaço de Emmental pode durar várias semanas na geladeira. Ele continua maturando lentamente, desenvolvendo sabores mais complexos com o tempo. Claro que não vai durar meses, mas também não precisa comer tudo em dois dias.

E finalmente: todo queijo suíço é Emmental. Definitivamente não. A Suíça produz centenas de variedades diferentes de queijo – Gruyère, Appenzeller, Raclette, Sbrinz, Tête de Moine, e por aí vai. Cada um com suas características únicas e tradições próprias. O Emmental é apenas o mais famoso internacionalmente.

Por Que o Emmental Merece Seu Lugar no Panteão dos Queijos

Depois de tudo que aprendi e experimentei com o Emmental, posso dizer com convicção que sua fama é totalmente merecida. Não é apenas um queijo bonito ou curioso por causa dos buracos. É um produto que representa séculos de conhecimento acumulado, de refinamento de técnicas, de respeito pela matéria-prima e pelo processo.

Quando você come um Emmental autêntico, está provando história. Está provando a paisagem do vale Emme, o trabalho de gerações de queijeiros, a qualidade do leite de vacas que pastam em prados alpinos. Está provando ciência – aquela interação complexa entre bactérias, temperatura, tempo e técnica que resulta naquele sabor único.

Mais do que isso, o Emmental representa uma filosofia de produção alimentar que está se tornando cada vez mais rara: produção em pequena escala, respeito pelas tradições, valorização do saber fazer artesanal, conexão com o território. Num mundo dominado por alimentos industrializados e padronizados, produtos como o Emmental AOP são quase uma forma de resistência cultural.

Claro que nem todo mundo precisa se tornar um fanático por Emmental como eu meio que me tornei. Mas acho que todo apreciador de boa comida deveria, pelo menos uma vez, provar um Emmental autêntico bem maturado, servido na temperatura certa, e realmente prestar atenção nas sensações que ele produz. É uma das experiências gastronômicas fundamentais, na minha opinião.

E se um dia você tiver a chance de visitar a Suíça, separe um tempo para ir ao vale Emme. Converse com os queijeiros, visite as adegas de maturação, prove diferentes versões do queijo. Você vai voltar com uma apreciação completamente nova não só pelo Emmental, mas por queijos artesanais de forma geral. Pelo menos foi o que aconteceu comigo, e foi uma transformação que enriqueceu enormemente minha relação com comida.

O Emmental não é apenas um queijo. É um patrimônio cultural, um exemplo de excelência artesanal, e sim, também é delicioso para caramba. E aqueles buracos famosos? São só a cereja do bolo – ou melhor dizendo, o buraco do queijo.

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