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Dicas Para Planejar a Viagem no Vietnã

Preparar uma viagem para o Vietnã exige muito mais do que comprar passagens e reservar hotéis; é preciso entender a dinâmica de um país onde o caos no trânsito faz sentido, o café é forte o suficiente para te acordar por dois dias e a cultura te engole da melhor forma possível.

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Eu trabalho montando roteiros pelo Sudeste Asiático há anos. Já mandei dezenas de clientes para lá e, mais importante, já bati muita perna entre Hanói e Ho Chi Minh. E posso te garantir uma coisa: o Vietnã não é um destino para quem gosta de tudo sob controle o tempo todo. É um lugar que exige que você solte um pouco as rédeas e aceite o ritmo deles.

Quando vi a lista de dicas práticas que circulou recentemente com os “dez mandamentos” antes de pisar lá, dei um sorriso. É exatamente o que eu repito exaustivamente nas reuniões de pré-embarque. Só que ler um checklist é uma coisa; viver aquilo na prática, com o suor escorrendo na nuca e o barulho de mil buzinas no ouvido, é outra completamente diferente.

Vou dissecar cada um desses pontos não como um manual frio de instruções, mas com a bagagem de quem já errou, já acertou e aprendeu a amar aquele pedaço caótico e maravilhoso do mundo.

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A burocracia inicial: O e-Visa é o seu único caminho seguro

O primeiro passo para não ter sua viagem arruinada antes mesmo de começar é o visto. O Vietnã exige visto para brasileiros e portugueses, e a melhor forma de conseguir isso é online. O site oficial é o evisa.gov.vn. Decore esse endereço.

A internet está infestada de sites falsos ou agências de fachada que copiam a interface do governo vietnamita. Eles não vão necessariamente roubar seus dados, mas vão te cobrar o triplo do valor oficial (que gira em torno de 25 dólares) por um serviço de “despachante” que você não precisa.

O site oficial parece ter sido programado em 1998. É feio, às vezes trava, as fotos precisam ter um tamanho exato de pixels que vai te fazer xingar o computador algumas vezes. Mas funciona. Preencha tudo com calma, confira o número do passaporte duas vezes e pague a taxa. Leva uns três a cinco dias úteis para aprovarem.

Um conselho de ouro: imprima o PDF do visto aprovado. Sim, em papel. Na imigração, depois de 24 horas de voo, a última coisa que você quer é o policial da alfândega balançando a cabeça negativamente porque você está tentando mostrar o arquivo num celular com a tela trincada e sem bateria. Entregue o passaporte com o papel dobrado dentro. O sorriso deles não é garantido, mas a sua entrada rápida, sim.

Conectividade imediata: A era do eSIM

Você desembarcou, passou pela imigração, pegou a mala. A porta de correr do saguão de desembarque se abre e uma parede de calor úmido te atinge, junto com dezenas de taxistas oferecendo corrida. A primeira coisa que você precisa nesse momento não é água. É internet.

Não caia na tentação de comprar os chips físicos nos primeiros quiosques brilhantes do aeroporto. Os preços ali são inflacionados para pegar o turista desesperado.

Hoje, a melhor estratégia de longe é chegar já conectado usando um eSIM (chip virtual), caso seu celular seja compatível. Você compra por aplicativos antes mesmo de sair de casa, escaneia um QR Code e, quando o avião tocar a pista no Vietnã, o 4G já entra funcionando. É mágico.

Se o seu aparelho for mais antigo e não aceitar eSIM, segure a ansiedade. Peça o Wi-Fi do aeroporto só para pedir um carro e vá até o centro da cidade. Lá, procure lojas oficiais da Viettel ou da Vinaphone. Com o passaporte em mãos, você compra um pacote de dados ilimitado para um mês por uma fração do preço do aeroporto. Sem internet na rua, você não é ninguém no Vietnã. Você precisa do Google Maps para se achar nas ruelas tortuosas e do Google Tradutor para negociar o preço daquela tigela de Pho na calçada.

Institucional - Viaje Conectado

O transporte: Esqueça o carro, abrace o Grab

A dica de não alugar um carro não é uma sugestão leve. É um instinto de sobrevivência. O trânsito vietnamita é uma entidade própria, um organismo vivo formado por milhões de scooters que fluem como água em um rio cheio de pedras. Não há faixas respeitadas, faróis vermelhos são frequentemente interpretados como “sugestões de parada”, e a buzina é usada como sonar.

Você, ocidentalizado, acostumado com regras rígidas de trânsito, bateria um carro alugado em exatos doze minutos. Além disso, as locadoras para estrangeiros quase não existem sem motorista incluído, e se você achar uma, a dor de cabeça em caso de acidente (onde o estrangeiro quase sempre leva a culpa) não vale a pena.

A salvação tem nome e é verde: Grab. É o Uber do Sudeste Asiático.

Baixe o aplicativo ainda no Brasil, cadastre seu cartão de crédito (de preferência os de contas globais para evitar IOF) e use para tudo. A grande vantagem do Grab é que ele elimina a barreira do idioma e o desgaste da negociação. Os táxis comuns de rua têm o péssimo hábito de adulterar o taxímetro ou dar voltas gigantescas. Com o app, o preço é fixo.

E aqui vai a melhor experiência: peça um GrabBike. É uma moto. O motorista chega, te entrega um capacete (que já viu dias melhores, confesso), você sobe na garupa e vai. Cortar o trânsito de Saigon na garupa de uma moto ao entardecer, sentindo os cheiros da comida de rua, é a experiência vietnamita definitiva.

A arte de atravessar a rua: Caminhe com fé

Já que tocamos no assunto do trânsito, precisamos falar sobre o ato de atravessar a rua. É a primeira grande barreira psicológica do viajante.

Você vai chegar na beira de uma avenida em Hanói, olhar para os dois lados e não vai ver um único espaço vazio entre as motos. Você vai esperar. Vai esperar cinco, dez minutos. Ninguém vai parar. Não existe a cultura da preferência ao pedestre na faixa.

A técnica é contra-intuitiva para nós: você simplesmente pisa na rua e começa a andar. Lentamente. Em um ritmo constante.

A regra de ouro, o segredo que separa os locais dos turistas apavorados é: nunca corra, nunca dê um passo para trás, nunca faça movimentos bruscos. O trânsito não vai parar para você, ele vai desviar de você. Como a água desvia de uma pedra no meio do rio.

Faça contato visual com os motociclistas que estão vindo. Mostre a eles a sua trajetória. É assustador nas primeiras três vezes. Parece que você vai ser atropelado por uma horda de vespas de metal. Mas de repente, as motos passam raspando pela sua frente e por trás de você, num balé perfeitamente coreografado. Quando você chega do outro lado são e salvo, a sensação de poder é indescritível.

O clima bipolar e a capa de chuva de plástico

A não ser que você viaje no curtíssimo período entre março e abril, quando as coisas dão uma secada geral, assuma que vai chover. O clima tropical do Vietnã garante chuvas torrenciais, rápidas e pesadas.

Esqueça o guarda-chuva. Deixe em casa. Ocupa espaço na mala, o vento vai quebrá-lo nas ruas apertadas e você vai acabar batendo as hastes de metal no rosto dos outros pedestres na calçada lotada.

A indumentária oficial do país sob chuva é a capa de plástico. Logo nos primeiros dias, passe em qualquer loja de conveniência e compre um poncho. Não precisa ser daqueles caros e tecnológicos de trilha. As capas baratas, coloridas, que parecem um saco de lixo grande com mangas, são perfeitas. Elas cobrem sua mochila junto.

Quando a tempestade cai, a cidade inteira para por dois minutos, todo mundo saca suas capas do compartimento das motos, veste e a vida continua normalmente. A chuva faz parte da rotina. E vou te dizer: caminhar pelo Bairro Antigo de Hanói com uma capa de chuva amarela, sentindo o cheiro do asfalto quente molhado e o vapor subindo das panelas de sopa, rende memórias muito melhores do que ficar preso no hotel reclamando do tempo.

Água e Gelo: Desmistificando o medo da diarreia

Esse é o ponto onde os clientes mais ficam tensos. O medo da “barriga de viajante”.

A regra clara e inegociável é: não beba água da torneira. Nunca. Em hipótese alguma. Nem para escovar os dentes se o seu estômago for muito sensível. A infraestrutura de saneamento não é a mesma à qual estamos acostumados e os microorganismos ali presentes vão te derrubar na cama por três dias. Compre água engarrafada. Sempre verifique se o lacre não está rompido (é raro, mas acontece de reaproveitarem garrafas).

No entanto, o pânico generalizado em relação ao gelo é, na maioria das vezes, exagerado.

Antigamente, o conselho era fugir de qualquer coisa gelada. Mas hoje, a indústria do gelo no Vietnã é bastante padronizada. Quase todo o gelo usado em cafés, restaurantes e até mesmo nas barraquinhas de rua mais simples vem de fábricas que usam água purificada.

Como saber se o gelo é seguro? Olhe para o formato. Se o gelo for cilíndrico, com um buraco no meio (parecendo um pequeno tubo), ele é industrializado e feito com água tratada. Pode consumir sem medo no seu café ou refrigerante. Se for gelo quebrado de blocos grandes, moído de forma irregular, aí sim é melhor evitar.

Não deixe a paranoia hídrica te impedir de sentar em um banquinho de plástico na calçada e tomar uma bebida gelada. Faz muito calor, você vai precisar se hidratar.

O soco no estômago (no bom sentido) do Café Vietnamita

O Vietnã é o segundo maior produtor de café do mundo, perdendo apenas para o Brasil. Mas a semelhança acaba aí. A cultura cafeeira deles é brutal, no melhor dos sentidos.

Eles usam predominantemente o grão Robusta, que tem quase o dobro de cafeína do Arábica que costumamos tomar. E a torra é escura, quase queimada, muitas vezes feita com manteiga no processo. O resultado é um café espesso, amargo, com notas de chocolate amargo e uma potência que te faz piscar rápido.

Por ser tão forte, raramente é bebido puro. A estrela nacional é o Cà phê sữa đá (café gelado com leite condensado). É preparado na mesa, usando um filtro de metal chamado phin, que goteja lentamente um licor negro e espesso sobre uma generosa camada de leite condensado açucarado. Quando termina de pingar, você mistura tudo e joga num copo cheio daquele gelo cilíndrico que mencionei antes.

É ridiculamente doce e absurdamente forte. É um choque cultural no paladar.

A dica para “começar devagar” é real. Se você pedir um café desse no meio da tarde, existe uma grande chance de você passar a noite com os olhos arregalados encarando o teto do hotel.

E vá além: em Hanói, prove o Egg Coffee (café com gema de ovo batida com leite condensado, que parece uma sobremesa líquida quente). Em Hue, o Salt Coffee (com creme salgado). Sentar nos cafés na beira do asfalto, ver a vida passar enquanto a cafeína entra na corrente sanguínea, é talvez a atividade turística mais genuína que você fará por lá.

O banheiro e o lixo: Questão de encanamento

Vamos falar de um tema pouco glamoroso, mas essencial. O sistema de esgoto em grande parte da Ásia, incluindo o Vietnã, tem tubulações muito mais estreitas do que as americanas ou europeias.

O papel higiênico, mesmo aquele de folha simples, não se desintegra rápido o suficiente. Se você jogar o papel no vaso, ele vai entupir. Ponto. E você não quer ser o hóspede que alagou o banheiro da pousada boutique em Hoi An.

Jogue tudo no lixinho que fica ao lado do vaso. Sim, é igual ao que fazemos em muitas partes do Brasil, então o choque para nós não é tão grande quanto para um europeu.

Mas a grande revelação dos banheiros asiáticos é a “mangueirinha” (ou bum gun, como os mochileiros apelidaram). Aquela ducha higiênica de alta pressão ao lado do vaso é a principal forma de limpeza deles. Use-a. Acostume-se. O papel higiênico serve apenas para secar no final. Depois de duas semanas usando a mangueirinha, você vai voltar para casa achando o método ocidental bárbaro e pouco higiênico.

Protetores auriculares: O silêncio é um luxo inexistente

O Vietnã é alto. As cores são intensas, a comida é uma explosão de sabores, e o som ambiente é constante.

Cidades como Hanói e Ho Chi Minh nunca ficam realmente em silêncio. Como já expliquei, a buzina é a linguagem oficial do trânsito. Ela começa às 5 da manhã e vai até a meia-noite. Além disso, a vida no Vietnã acontece na rua. Os comerciantes anunciam seus produtos, tem música saindo das lojas, galos cantando no quintal do vizinho, e o som característico de metal contra metal das panelas wok nos carrinhos de comida.

Se você tem o sono leve, comprar protetores auriculares de boa qualidade (daqueles de silicone macio ou cera que moldam no ouvido) não é um luxo, é sobrevivência.

Eu já tive clientes que perderam noites inteiras de sono nas primeiras 48 horas porque o quarto do hotel dava para uma rua principal e eles achavam que a qualquer momento uma moto ia invadir pela janela. Leve também tampões na bolsa do dia a dia. Às vezes, sentar num ônibus intermunicipal significa aguentar o motorista buzinando freneticamente por três horas seguidas na rodovia ou ouvindo pop vietnamita no volume máximo. O fone de ouvido com cancelamento de ruído também é um excelente investimento.

A beleza está na adaptação

Ler tudo isso pode fazer parecer que viajar para o Vietnã é uma prova de resistência. Mas é aí que mora a mágica.

Nenhum destino que tenta emular o conforto estéril do nosso mundo ocidental deixa marcas duradouras. O Vietnã te tira da zona de conforto a cada esquina. Ele te obriga a negociar, a confiar, a experimentar sabores fortes e a caminhar no meio do caos acreditando que nada vai te atingir.

Não vá despreparado, claro. Use o visto oficial, compre seu eSIM, baixe o Grab e lembre do lixo do banheiro. Mas vá com o coração aberto.

Quando você finalmente parar de lutar contra o fluxo daquele país, quando aprender a atravessar a rua sem piscar e der o primeiro gole no café gelado suado numa tarde de 35 graus, você vai entender. O Vietnã não é um lugar para ser visitado; é um lugar para ser absorvido. E essa adaptação é, de longe, a melhor parte da viagem.

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