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Destinos de Viagem Pelo Mundo Fora do Comum

Existe um momento na vida de quem viaja muito em que as listas de “melhores destinos do ano” deixam de ser novidade e viram uma espécie de teste. Você olha, reconhece alguns lugares, estranha outros, e já começa a calcular o que é tendência de verdade e o que é só publicidade embalada em forma de guia. Foi exatamente esse o meu primeiro impulso quando me deparei com uma seleção que circulou nos meios de viagem para 2026 — dividida em seis categorias muito bem pensadas: gastronomia, agito urbano, cultura, aventura, praias e natureza.

Foto de Carl-Emil Jørgensen: https://www.pexels.com/pt-br/foto/cena-gastronomica-animada-nas-ruas-historicas-de-sancerre-33314726/

E sabe o que me surpreendeu? Ela é honesta. Tem escolhas corajosas ali que fogem completamente do óbvio.

Klook.com

Gastronomia que vai além do prato bonito

Quando o assunto é comida de verdade — não a comida instagramável, mas a que você vai buscar de propósito e volta para casa pensando nela — a lista aponta cinco destinos que me fazem muita sentido.

Sancerre, na França, está no topo. E antes que você pense “ah, mas é óbvio colocar a França numa lista de gastronomia”, calma. Sancerre não é Paris. Não é Lyon. É uma pequena cidade no Loire Valley que vive de dois amores: vinho e queijo de cabra. O Sancerre branco, feito de Sauvignon Blanc, é um dos vinhos mais elegantes que já bebi na vida — e o contexto de bebê-lo ali, olhando para os vinhedos em socalcos que descem até o rio, é uma experiência que não tem substituto. Para quem viaja comida como pretexto (e não como complemento), este é um destino que responde a altura.

Carlsbad, na Califórnia, pode soar como escolha de americano rico, mas é mais sutil do que parece. A cena gastronômica de San Diego, da qual Carlsbad faz parte, evoluiu muito na última década. Tem influxo de culinária mexicana de qualidade absurda, frutos do mar fresquíssimos, e uma cultura de farmer’s market que envolve tanto que você passa a tarde sem perceber. Não é o destino mais exótico da lista, mas é consistente.

A Umbria, na Itália, foi para mim a escolha mais feliz da categoria. A Toscana já saturou. Todo mundo conhece, todo mundo foi, os preços subiram, os restaurantes começaram a cobrar pela vista. A Úmbria ainda guarda aquele charme de uma Itália menos performática. Trufas negras, porchetta, lentilhas de Castelluccio, vinhos como o Sagrantino di Montefalco que a maioria das pessoas nem ouviu falar. E Perugia, a capital regional, tem uma das melhores escolas de chocolate do mundo. Não é exagero.

Taipei, em Taiwan, e a Malásia fecham a lista com uma proposta clara: a Ásia como destino gastronômico de primeiro mundo. Taipei tem a densidade de noodle shops, dumplings, tofu fedorento e night markets suficiente para ocupar uma semana inteira só comendo. A Malásia, por sua vez, é talvez o país com a culinária mais injustamente subestimada do sudeste asiático — mistura de influências malaias, chinesas e indianas que resulta numa riqueza de sabores que te faz rever toda sua hierarquia pessoal de “melhores comidas do mundo”.


A cidade que te move: agito urbano em 2026

Esta categoria é onde as surpresas ficam mais interessantes. Santa Fé, no Novo México, encabeça a lista de destinos urbanos — e se você não esperava isso, é porque nunca foi lá. Santa Fé tem uma das cenas de arte contemporânea mais vivas dos Estados Unidos, uma arquitetura Adobe que parece saída de outro tempo, e uma mistura cultural indígena e hispânica que dá à cidade uma identidade completamente única. O centro histórico é compacto o suficiente para explorar a pé, mas denso o suficiente para te surpreender em cada esquina.

Seattle, Washington, faz sentido no cenário de 2026 por razões práticas: a cidade evoluiu muito além do estereótipo de café e chuva. A cena musical ainda pulsa, mas hoje divide espaço com um mercado de tecnologia que atrai talentos do mundo inteiro e, por consequência, criou uma cena gastronômica e cultural de altíssimo nível. Pike Place Market continua sendo uma das experiências urbanas mais genuínas que você pode ter numa cidade americana.

Melbourne, na Austrália, é a escolha mais previsível aqui — mas previsível por boas razões. Melbourne é consistentemente apontada como uma das cidades mais habitáveis do planeta, e para quem viaja, isso se traduz em infraestrutura, diversidade gastronômica brutal, museus sérios e uma vida noturna que sabe o que está fazendo. A cidade tem aquele ritmo que não te atropela. Você consegue respira, e mesmo assim nunca falta coisa para fazer.

Washington, D.C. e Singapura completam a categoria. D.C. em 2026 tem um calendário cultural rico e museus que ainda são, em sua maioria, gratuitos — o que é quase um milagre no contexto americano. Singapura, por outro lado, é o destino urbano mais eficiente que existe. Você chega, a cidade funciona, o transporte é perfeito, e em três dias consegue entender por que o país virou referência de planejamento urbano para o mundo inteiro.


Cultura que não precisa de legenda

A categoria de cultura me surpreendeu na primeira entrada: Bentonville, Arkansas. Sim, aquele Arkansas que a maioria das pessoas associa a pouca coisa. Mas é em Bentonville que fica o Crystal Bridges Museum of American Art, um dos museus de arte mais bem curados e financiados dos Estados Unidos — bancado pela família Walton, dos supermercados Walmart. A coleção vai de pintores coloniais americanos até Warhol e Koons, num espaço arquitetônico integrado à natureza que vale o deslocamento por si só. É daqueles lugares que te faz pensar “quem sabia disso antes de mim?”

Colonial Williamsburg entra como destino de imersão histórica. É um lugar que divide opiniões — alguns acham kitsch demais, outros adoram. Minha visão depois de ter ido: funciona melhor do que você imagina. A reconstituição da vida no século XVIII americano é feita com rigor, e há algo poderoso em andar pelas ruas e ver artesãos trabalhando da mesma forma que faziam 250 anos atrás.

Hamburgo, na Alemanha, é uma escolha urbana e cultural ao mesmo tempo. O bairro HafenCity, que revitalizou os antigos armazéns portuários, é um dos projetos de regeneração urbana mais bem-sucedidos da Europa. A Elbphilharmonie, a sala de concertos inaugurada em 2017, já se tornou um ícone arquitetônico que justifica uma viagem sozinha. E a Reeperbahn tem uma história que vai muito além do que o senso comum costuma associar a ela.

Brisbane, na Austrália, ganhou musculatura cultural depois dos investimentos para as Olimpíadas de 2032 — sim, a cidade já está em modo de preparação, e o resultado é visível em novos museus, espaços culturais e uma renovação urbana significativa. Doha, no Catar, fecha a categoria com o peso do pós-Copa do Mundo: os museus construídos para o evento (o Museu Nacional do Catar e o MIA — Museu de Arte Islâmica) ficaram, e são genuinamente bons.


Aventura para quem tem comprometimento

Aqui a lista para de brincar. Dakar, no Senegal, abre a categoria de aventura e é a escolha que mais me empolgou em todo o guia. A África Ocidental ainda é muito subestimada como destino de viagem, e o Senegal em específico tem uma combinação de hospitalidade, cultura rica (a influência islâmica, o wrestling como esporte nacional, a música mbalax), culinária surpreendente e acesso a ecossistemas que vão de dunas no deserto até reservas naturais costeiras. Dakar em si é uma cidade vibrante, caótica no bom sentido, e com uma cena artística que ganhou reconhecimento internacional nos últimos anos.

Chipre é daquelas ilhas que ficam no limbo — nem tão badalada quanto a Grécia, nem tão distante quanto o Líbano. O que ela tem é uma mistura de história absurda (Afrodite nasceu aqui, segundo a mitologia grega), mergulho de altíssimo nível, trilhas na cordilheira de Troodos e uma cozinha mediterrânea com influências levantinas que te surpreende a cada refeição.

Mongólia. Vou ser honesto: este é o destino da lista que exige mais preparo, mais disposição e mais abertura. A infraestrutura é limitada. Os percursos a cavalo pelo deserto de Gobi ou pelas estepes do interior são fisicamente exigentes. Mas poucos lugares do mundo ainda oferecem aquela sensação de escala, de vazio, de estar em algum lugar que a modernidade ainda não dominou completamente. Se você tem espírito de aventura de verdade, a Mongólia está esperando.

Peru do Sul — não Cusco e Machu Picchu, mas o sul mesmo: o Cânion do Colca, duas vezes mais fundo que o Grand Canyon, as linhas de Nazca, o Lago Titicaca do lado peruano. É outra camada do país que a maioria dos turistas nunca descobre porque para na rota padrão.

Sri Lanka fecha a categoria com uma ilha que passou por anos de turbulência política e econômica, mas que está se reerguendo com force — e para quem viaja, isso significa preços ainda acessíveis, menos turistas do que devia ter, e uma cultura, fauna e culinária que rivalizava antes de tudo isso com os melhores do sudeste asiático.


Praias que merecem o avião

Anguilla no topo da categoria de praias é uma escolha absolutamente defensável. Shoal Bay é uma das praias mais bonitas do Caribe — areia branca fina, mar transparente, sem o excesso de infraestrutura turística que acabou com a autenticidade de outros destinos caribenhos. É uma ilha pequena, sem cassinos, sem cruzeiros enormes atracando. Quem vai, quer praia de verdade.

Okinawa, no Japão, já aparecia no radar antes dessa lista. O arquipélago tem praias tropicais que nada devem ao sudeste asiático, uma cultura completamente distinta do Japão continental (herdada do antigo Reino Ryukyu), e a fama de ter uma das maiores concentrações de centenários do mundo. É Japão, mas diferente.

Bodrum, na Turquia, é a Riviera turca sem a artificialidade de Marmaris. A cidade velha tem charme, os iateiros europeus que por lá circulam dão um tom cosmopolita, e as praias nas enseadas próximas são genuinamente bonitas. Miami dispensa apresentações, mas merece menção por estar se reinventando constantemente — Wynwood, Brickell, a cena gastronômica latinx que só cresceu. Grand Cayman fecha com o melhor mergulho do Caribe.


Natureza que ainda existe

Guatemala abre esta categoria e é, talvez, o destino mais subestimado de toda a lista. Vulcões ativos para escalar, o Lago Atitlán que é literalmente um dos lugares mais bonitos que eu já vi na vida, florestas de Petén com ruínas maias, e uma cultura indígena que ainda se manifesta no cotidiano de mercados coloridos e texturas vibrantes. A Cidade da Guatemala evoluiu e tem hoje uma cena gastronômica que surpreende.

Nova Zelândia está aqui por razões óbvias e legítimas: é um dos países com maior proporção de natureza preservada no mundo. Oulu, na Finlândia, é uma escolha para quem quer aurora boreal sem pagar os preços de Rovaniemi ou da Noruega — a cidade é universitária, jovem, e tem uma relação com a natureza que é parte do DNA finlandês. Alberta, no Canadá, com Banff e Lake Louise, é aquele tipo de paisagem que parece edição de foto mesmo sendo completamente real. Reykjavik, na Islândia, fecha com o argumento de sempre: nenhum lugar no mundo combina cidade pequena e acessível com acesso imediato a cascatas, geleiras, vulcões e a possibilidade de ver aurora boreal a 40 minutos do aeroporto.

O que essa lista toda diz, no fundo, é que 2026 é um ano para diversificar. Para sair do circuito repetido. Senegal em vez de safári convencional. Umbria em vez de Toscana. Okinawa em vez de Tóquio pela quarta vez. Anguilla em vez de Cancún. Não é esnobismo — é curiosidade mesmo. E a diferença entre uma viagem inesquecível e uma viagem boa está, quase sempre, nessa escolha de seguir a lista menos óbvia.

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