Destinos de Viagem Para Conhecer no Vietnã
Planejar um roteiro de viagem para o Vietnã exige entender que os principais destinos do país, de Hanói ao Delta do Mekong, oferecem um choque cultural fascinante que vai muito além das fotos perfeitas que a gente vê na internet. É um país comprido, esguio, espremido entre as montanhas e o Mar do Sul da China, e que exige tempo e uma certa dose de entrega para ser compreendido.

Organizar viagens para o Sudeste Asiático me ensinou uma regra de ouro: você não domina o Vietnã. Você se adapta a ele. Desde a primeira vez em que pisei lá, senti aquela umidade densa no rosto e ouvi a sinfonia caótica de milhares de buzinas de motos, soube que estava em um lugar que não pede licença para existir da sua própria maneira.
A geografia do país praticamente dita o seu roteiro. Ou você vai do norte para o sul, ou do sul para o norte. E para te explicar como esse quebra-cabeça se encaixa, vou te guiar pelas regiões exatamente como faço com quem senta na minha frente cheio de dúvidas sobre por onde começar. Esqueça aquela ideia de tentar ver tudo em dez dias. O Vietnã é intenso demais para ser engolido com pressa.
O Extremo Norte: Onde a Ásia Ainda é Crua
Quando alguém me diz que quer ver o “Vietnã de verdade”, eu imediatamente aponto no mapa para Ha Giang. É a última fronteira antes da China. Muito menos explorada que sua vizinha famosa, Sapa, Ha Giang é onde as montanhas de calcário rasgam o céu e as estradas parecem ter sido desenhadas por alguém com vertigem. A passagem de Ma Pi Leng não é apenas um lugar bonito; é uma daquelas estradas que te faz prender a respiração. Lá embaixo, o rio Nho Que parece uma fita verde-esmeralda cortando a rocha. É o tipo de lugar onde você aluga uma moto (ou contrata um “easy rider”, um guia local que pilota para você, o que eu recomendo muito se você tiver amor à vida) e passa os dias rodando entre os terraços de arroz de Hoang Su Phi e chegando até o mastro da bandeira de Lung Cu, o ponto mais ao norte do país. A infraestrutura é básica. O banho pode ser frio. Mas a autenticidade compensa cada calafrio.
Um pouco mais a oeste, temos Sapa. Provavelmente você já viu imagens de lá. São aqueles terraços de arroz infinitos, frequentemente cobertos por uma névoa espessa que dá um ar místico ao vale de Muong Hoa. Sapa mudou muito ao longo dos anos. Ficou comercial. O centro da cidade tem prédios imitando arquitetura europeia que, honestamente, quebram um pouco a magia. Mas o segredo de Sapa não está no centro. Está em calçar uma bota suja de barro e caminhar em direção às vilas. Cat Cat é a mais famosa e mais próxima, mas costuma estar lotada. O que eu sempre sugiro é ir mais fundo, em direção a Ta Van, para ver como as minorias étnicas Hmong e Dao Vermelho realmente vivem. E se você tiver fôlego, ou se preferir pegar o teleférico gigantesco que construíram lá recentemente, o Monte Fansipan te espera. É o teto da Indochina. Num dia claro, a vista é um absurdo. Num dia nublado, você se sente dentro de um copo de leite. Faz parte do jogo.
O Eixo de Hanói: Caos, Café e Calcário
E então chegamos a Hanói. A capital. Minha cidade favorita na Ásia. Hanói não tenta ser moderna como Saigon. Ela é teimosa com suas tradições. O Old Quarter (Bairro Antigo) é um labirinto de 36 ruas originais, onde cada rua tradicionalmente vendia um produto específico. Rua da prata, rua do bambu, rua das lápides. Atravessar a rua em Hanói é um rito de passagem. A regra? Pise no asfalto, ande devagar, faça contato visual com os motociclistas e, pelo amor de tudo que é sagrado, não pare de supetão e não ande para trás. Eles vão desviar de você como água desviando de uma pedra. É assustador na primeira vez e estranhamente libertador na décima.
Em Hanói, a vida acontece nas calçadas. É sentado em banquinhos de plástico azul, quase na altura do chão, que você vai comer o melhor Pho da sua vida, temperado com a fumaça do escapamento das motos. Você precisa ver o Mausoléu de Ho Chi Minh para entender a reverência do país ao seu líder, e o Templo da Literatura, a primeira universidade do país, um oásis de paz no meio do caos. E claro, a famosa Train Street. É uma rua tão estreita que os moradores precisam recolher os toldos e as cadeiras quando o trem passa a centímetros das portas. As autoridades vivem fechando e reabrindo o local por questões de segurança, então é sempre uma surpresa se você vai conseguir tomar seu café com ovo (sim, café com gema de ovo batida, é denso, doce e maravilhoso) vendo o trem passar ou não.
A partir de Hanói, todo mundo vai para Ha Long Bay. E não é à toa. Mais de duas mil ilhotas de calcário brotando da água verde do Golfo de Tonkin. É Patrimônio da Humanidade e é espetacular. Mas vou ser muito sincero: está superlotado. A água nem sempre é limpa. Se você fizer o roteiro tradicional, vai parar na Ilha Ti Top para subir centenas de degraus por uma vista panorâmica e vai se espremer na Caverna Sung Sot. É bonito? Demais. Mas se você quer o visual de Ha Long sem a sensação de estar em um parque de diversões aquático, eu sempre direciono as pessoas para Bai Tu Long Bay. É a mesma formação geológica, logo ali do lado, mas com uma fração dos barcos. Você pode visitar vilas flutuantes de pescadores, como Cua Van, e entender como a vida funciona balançando na água, onde as crianças vão para a escola de barco e os cachorros latem de cima de plataformas de madeira.
Se Ha Long é o mar, Ninh Binh é conhecida como “a Ha Long Bay terrestre”. Fica a umas duas horas ao sul de Hanói e é, na minha opinião, um dos lugares mais subestimados por quem faz roteiros curtos. Imagine os mesmos picos de calcário, mas em vez de mar, eles surgem de arrozais verdes e rios tranquilos. A melhor forma de ver Trang An ou Tam Coc é alugar uma bicicleta e se perder pelas estradinhas de terra, parando para desviar de vacas e bodes. Depois, você pega um barquinho a remo. Em Tam Coc, preste atenção nas mulheres que remam: elas usam os pés. É hipnótico de assistir. O esforço físico aqui fica por conta da Caverna Mua (Mua Cave). São quase 500 degraus irregulares até o topo do dragão de pedra. Suas coxas vão queimar. O suor vai escorrer nos seus olhos. Mas quando você chegar lá em cima e vir o rio cortando as montanhas lá embaixo, vai esquecer a dor na mesma hora.
Klook.comO Centro do País: Impérios, Guerras e Lanternas
Conforme descemos para o centro, o clima muda. A comida muda. A história fica mais densa. Hue foi a capital imperial do Vietnã e carrega um peso enorme. É uma cidade cortada pelo poeticamente chamado Rio Perfume. A Cidadela Imperial sofreu danos irreparáveis durante a Guerra do Vietnã (que eles, com total razão, chamam de Guerra Americana). Caminhar por entre os muros destruídos de portas vermelhas e telhados dourados é um exercício de imaginação sobre a opulência da Dinastia Nguyen. Ao redor da cidade estão as tumbas dos imperadores. A tumba de Khai Dinh é a minha favorita, uma mistura bizarra e fascinante de arquitetura oriental com elementos europeus, ferro forjado e mosaicos de vidro quebrado. Hue também é famosa pela gastronomia pimentada. Se você tem estômago forte, sente no mercado local e aponte para o que parecer interessante.
Descendo pela costa, a passagem de Hai Van nos leva a Danang. Até pouco tempo atrás, Danang era só um aeroporto de passagem. Hoje é uma metrópole moderna, vibrante, com pontes iluminadas à noite (uma delas tem formato de dragão e cospe fogo de verdade nos fins de semana). Danang tem a praia de My Khe, com areia branca e mar convidativo, e a Península de Son Tra, onde macacos passeiam livres nas estradas tortuosas. Mas o que colocou Danang no radar do turismo de massa recentemente foi a Ponte Dourada (Golden Bridge) em Ba Na Hills. Sabe aquela ponte segurada por duas mãos gigantes de pedra que viralizou no mundo todo? Fica aqui. O que muita gente não sabe é que ela fica dentro de um parque temático construído no topo de uma montanha, com ares de vila francesa de mentira. É um pouco kitsch? Bastante. Mas a engenharia do teleférico e a ponte em si valem a visita se o tempo estiver limpo.
E então chegamos a Hoi An. Ah, Hoi An. Fica a menos de uma hora de Danang, mas parece estar em outro século. A Cidade Antiga é um porto comercial excepcionalmente preservado, com influência chinesa, japonesa e francesa em suas paredes invariavelmente pintadas de um tom mostarda amarelado. Durante o dia, é quente e abafada. As pessoas alugam bicicletas e pedalam até a Praia de An Bang ou pegam aqueles barcos redondos em formato de cesto (uma invenção genial para não pagar imposto de embarcação no passado) na vila de Cam Thanh. Mas é quando o sol se põe que Hoi An se revela. As ruas do centro histórico fecham para motos. Milhares de lanternas coloridas de seda são acesas. O rio Thu Bon fica coberto de barquinhos a remo levando turistas que soltam velas na água. Sim, é extremamente turístico. Você vai tropeçar em coreanos tirando selfies e australianos bebendo cerveja. Mas a beleza do lugar sobrevive ao turismo. E é aqui que você faz roupas sob medida. Em 24 horas, alfaiates talentosíssimos fazem um terno completo de linho ou um vestido de seda por uma fração do preço que você pagaria em casa.
O Sul Vibrante: O Motor Econômico e o Delta
Aterrissar em Ho Chi Minh City (e você logo percebe que quase todo mundo lá ainda a chama de Saigon) é tomar um soco de energia pura. Se Hanói guarda o passado, Saigon corre para o futuro. Prédios de vidro, arranha-céus gigantescos, marcas de luxo e um calor que parece ter peso. É o motor econômico do país. O mercado Ben Thanh é um labirinto onde você negocia o preço de absolutamente tudo, desde café com cheiro de chocolate até imitações de tênis. A herança colonial francesa está bem ali no centro, com a Catedral de Notre Dame (feita com tijolos vermelhos importados de Marselha) e a Estação Central dos Correios, desenhada por Gustave Eiffel.
Mas o que pega forte aqui é a história recente. Você precisa descer nos Túneis de Cu Chi. É a apenas algumas horas da cidade. É uma rede subterrânea com centenas de quilômetros onde os guerrilheiros vietcongues viviam, cozinhavam, operavam feridos e montavam emboscadas contra as tropas americanas. As entradas originais no chão da floresta são do tamanho de uma caixa de sapatos. Você pode rastejar por trechos alargados para turistas, e mesmo esses dão claustrofobia em quem não tem o hábito. É uma aula brutal sobre resiliência humana e táticas de guerrilha. A poucos metros de você, o barulho de tiros de um estande de tiro local (onde pagando, os turistas disparam armas da época) cria uma atmosfera que arrepia a nuca.
Deixando o asfalto de Saigon, a paisagem se dissolve no Delta do Mekong. É o “prato de arroz” do Vietnã. Um labirinto de rios, pântanos e ilhas que desembocam no mar. A vida aqui segue o ritmo da maré e das chuvas. O Mercado Flutuante de Cai Rang é a imagem de cartão postal do Delta, mas um aviso prático: você tem que acordar de madrugada. O mercado atinge seu pico ao nascer do sol, com barcos grandes cheios de abacaxis, melancias e cocos, onde os vendedores amarram a fruta que estão vendendo no topo de uma vara de bambu para que os compradores saibam o que eles têm. O Delta é denso. Em Ben Tre, o “Reino do Coco”, você vê como eles aproveitam 100% da fruta, da água à casca, em pequenos barcos navegando por canais estreitos sombreados por palmeiras de nipa. A floresta de cajeput de Tra Su é surreal, um pântano coberto por lentilhas d’água verdes tão grossas que você jura que dá para caminhar em cima da água. E, se tiver curiosidade industrial, os fornos de tijolos em Vinh Long, que parecem colmeias gigantes de barro vermelho fumegando nas margens do rio, mostram um lado menos romantizado e mais duro do trabalho manual vietnamita.
O Refúgio Tropical e Uma Nota de Geografia
Depois de toda essa maratona de templos, motos, calor, suor, história de guerra e negociações em mercados, quase todo roteiro que eu fecho precisa terminar com o pé na areia para descansar. E aí entra Phu Quoc.
A maior ilha do Vietnã fica lá no Golfo da Tailândia, curiosamente mais perto da costa do Camboja do que do próprio Vietnã. Anos atrás, era um segredo de mochileiros com estradinhas de terra. Hoje, é um polo de resorts gigantescos, parques de diversão (como o complexo Vinwonders & Safari) e o teleférico mais longo do mundo sobre o mar, que te leva até a ilha de Hon Thom. Ainda dá para encontrar o paraíso lá? Dá. A Praia de Sao (Sao Beach) tem aquela areia tão branca e fina que parece talco, e o mar calmo e quente é o antídoto perfeito para as dores musculares acumuladas no resto da viagem. O Parque Nacional ainda preserva uma parte considerável da ilha verde e selvagem. É um encerramento preguiçoso e necessário para a viagem.
Um pequeno parêntese como consultor: olhando mapas oficiais vietnamitas (como o da imagem que serve de base para este artigo), você sempre verá os arquipélagos de Hoang Sa e Truong Sa. Conhecidos internacionalmente como Ilhas Paracel e Spratly, eles são mencionados por uma questão de soberania nacional fortíssima do Vietnã. Mas em termos de turismo, não se engane: você não vai para lá. São territórios de alta tensão geopolítica disputados com a China. Ficam ali no mapa como um lembrete do orgulho territorial de um país que lutou muito pelas suas fronteiras.
O Que Você Leva na Bagagem
Escrever sobre o Vietnã é difícil porque palavras parecem pálidas perto da realidade de estar lá. Eu poderia falar horas sobre a logística complicada, sobre como o clima te prega peças (quando faz sol em Hanói, chove em Hoi An; quando as praias do centro estão ótimas, o sul está debaixo de tempestades de monções). Poderia falar sobre o desafio de cruzar a rua, a barreira do idioma ou como as cadeirinhas de plástico dos restaurantes acabam com as suas costas depois de uma semana.
Mas nada disso resume o país. O que acontece na prática, e eu vejo isso com cliente após cliente, é que o Vietnã te desmonta. A gentileza genuína de um vendedor de rua no Bairro Antigo, o silêncio de uma montanha em Ha Giang, o cheiro de incenso numa pagoda de Hue. É um país que exige muito fisicamente do viajante, sim. Você vai transpirar, vai se sujar, vai ter dor de barriga pelo menos uma vez, e vai se perder.
Porém, quando você estiver no avião de volta, encostar a cabeça na janela e tentar processar tudo o que viu, a vontade de voltar para a Europa ou para destinos formatados em caixinhas perfeitas vai desaparecer por um bom tempo. O Vietnã entra na corrente sanguínea. É cru, é pungente e, exatamente por isso, inesquecível. Organize o roteiro com calma, mas deixe espaço para que o caos do país encontre você. Garanto que é a melhor parte da viagem.