Destinos de Viagem Para Conhecer no Kuwait

Viajar para o Kuwait é descobrir o segredo mais bem guardado do Oriente Médio, um destino onde a autêntica alma árabe resiste bravamente em meio a arranha-céus futuristas e o luxo silencioso do Golfo Pérsico. Quando pensamos em turismo na Península Arábica, a mente voa direto para os delírios arquitetônicos de Dubai ou para a elegância cultural recém-construída de Doha. O Kuwait, no entanto, corre em uma faixa própria. Não há um esforço desesperado para impressionar o turista ocidental. E, para ser muito sincero, é exatamente aí que mora o charme absoluto desse pequeno e riquíssimo país.

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Organizar roteiros para o Kuwait me ensinou uma lição valiosa sobre expectativas. Quem desembarca no Aeroporto Internacional da Cidade do Kuwait esperando um parque de diversões para adultos acaba frustrado. Mas quem chega buscando entender como a sociedade do Golfo realmente vive, consome, reza e se diverte, encontra um prato cheio. Literal e metaforicamente. O Kuwait tem um ritmo próprio. Ele se revela aos poucos, muitas vezes protegido do sol inclemente do deserto pelo ar-condicionado potentíssimo de suas infraestruturas monumentais, ou à noite, quando a temperatura cai e a cidade inteira parece sair de casa ao mesmo tempo para tomar café.

A primeira vez que você caminha pela Arabian Gulf Street, a avenida costeira que abraça o mar, a brisa salgada bate no rosto trazendo um calor quase palpável. É impossível não ter o olhar imediatamente capturado pelas Torres do Kuwait (Kuwait Towers). Elas são o grande cartão-postal do país, e com justiça. Diferente dos arranha-céus de vidro que você vê espalhados pelo centro financeiro, as torres têm um design que remete aos tradicionais frascos de perfume árabe, com suas esferas cobertas por milhares de discos de aço esmaltado em tons de azul, verde e cinza. A arquitetura é um reflexo dos anos 70, uma época em que o país era o mais moderno da região. Subir na esfera principal de observação é o rito de passagem obrigatório para qualquer viajante. Lá do alto, a 120 metros de altura, a geografia do país faz sentido. Você vê a mancha urbana hiperdesenvolvida de um lado e o azul escuro e denso do Golfo Pérsico do outro. A plataforma gira lentamente. É um pouco nostálgico, quase vintage, e oferece a perspectiva perfeita para entender como uma nação inteira foi erguida das areias por causa do petróleo.

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Mas a verdadeira pulsação do Kuwait não está nas alturas. Está no chão, no meio das vielas barulhentas e perfumadas do Souq Al Mubarakiya. Souqs são comuns no Oriente Médio, mas muitos deles foram tão revitalizados para o turismo que perderam a alma. O Mubarakiya não. Ele é real, caótico na medida certa e frequentado massivamente pelos próprios kuwaitianos. É um dos mercados mais antigos do país, sobrevivendo à invasão e à modernização desenfreada. Quando ando por ali, costumo perder a noção do tempo. O cheiro de cardamomo fresco, açafrão, incenso de oud e carne grelhada forma uma cortina invisível pelo ar.

Caminhar pelo Mubarakiya é um exercício de observação. Você vai ver homens em suas dishdashas brancas impecáveis negociando tâmaras raras, mulheres com abayas pretas elegantíssimas escolhendo perfumes concentrados, e trabalhadores imigrantes tomando chá doce em copos de vidro finos. Minha grande recomendação aqui é esquecer o mapa. Deixe-se perder na área do mercado de peixes, onde o barulho dos leilões matinais é ensurdecedor. Depois, encontre uma das pequenas praças de alimentação abertas, sente-se em uma cadeira de plástico que já viu dias melhores e peça um prato de kebab com pão iraniano recém-assado. A comida de rua no Kuwait é incrivelmente higiênica e saborosa. Comer ali, com o barulho das conversas em árabe ao redor e o chamado para a oração ecoando dos minaretes próximos, é uma das experiências mais imersivas que você pode ter na região.

Falando em religião, a Grande Mesquita do Kuwait é outro ponto que exige uma parada sem pressa. Mesmo que você já tenha visitado mesquitas gigantescas na Turquia ou nos Emirados, a arquitetura islâmica aqui tem um peso diferente. É a maior mesquita do país, capaz de abrigar dez mil fiéis apenas no salão principal. Eles oferecem tours guiados gratuitos (em inglês), geralmente conduzidos por voluntários locais apaixonados por explicar sua cultura. E isso faz toda a diferença. Uma coisa é olhar para um tapete persa colossal ou para os detalhes em folha de ouro no teto; outra é ter um kuwaitiano explicando como aquele espaço se transforma durante o mês do Ramadã. As mulheres recebem uma abaya com capuz na entrada, e todos devem tirar os sapatos. Caminhar descalço pelos tapetes macios da mesquita, sentindo o silêncio monumental do lugar enquanto a luz do sol é filtrada pelos vitrais, oferece um momento de pausa que contrasta violentamente com o trânsito quase sempre agressivo de fora.

E já que toquei no assunto do trânsito e da vida urbana, precisamos falar sobre a cultura dos shoppings. Para o olhar de um ocidental desavisado, passar as férias dentro de um shopping center soa como um desperdício de viagem. No Kuwait, ignorar os shoppings é ignorar a espinha dorsal da vida social moderna do país. Como as temperaturas no verão podem facilmente ultrapassar os 50 graus Celsius, o espaço público ao ar livre se torna inabitável durante metade do ano. A solução que eles encontraram foi construir cidades inteiras com clima controlado. O The Avenues não é apenas o maior shopping do Kuwait, é uma maravilha da engenharia de comportamento.

Eu já vi pessoas entrarem no The Avenues pela manhã e saírem de noite sem repetir o caminho. Ele é dividido em distritos. O “Grand Avenue” imita uma rua europeia sofisticada, com um teto translúcido que simula a luz do dia de uma forma tão perfeita que o cérebro realmente acredita que você está caminhando ao ar livre. Tem o “The Souk”, que recria de forma higienizada a arquitetura tradicional árabe, e áreas que parecem ter saído de um filme de ficção científica. Os kuwaitianos vão ao The Avenues para caminhar, encontrar amigos, fechar negócios e, claro, consumir. Sente-se em um café no meio do Grand Avenue. Você verá um desfile de moda velada, bolsas de grife de edições limitadas e uma ostentação silenciosa que é muito particular do Kuwait.

A ausência de álcool no país (o Kuwait é estritamente seco, não há bebidas alcoólicas nem em hotéis internacionais) gerou um fenômeno cultural fascinante: a obsessão absoluta por café e doces. A vida noturna do Kuwait acontece nas cafeterias. Esqueça o café árabe tradicional por um momento, embora ele exista e seja delicioso. Estou falando de uma cultura de “specialty coffee” que rivaliza com Melbourne ou Londres. Bairros inteiros, como a região em torno de Shuwaikh Industrial, que antes era apenas uma área de galpões empoeirados, foram tomados por torrefações artesanais de design industrial, com máquinas La Marzocco brilhantes e baristas que tratam cada extração de espresso como um experimento de física quântica. É muito comum ver grupos de jovens em seus carros esportivos, por volta de uma da manhã de uma terça-feira, parando em cafeterias para tomar um flat white e comer sobremesas impossivelmente elaboradas.

Se você gosta de mergulhar na história, o Kuwait guarda cicatrizes abertas e bem preservadas. A invasão iraquiana de 1990 deixou marcas profundas na psique da nação. Para entender essa parte da história sem filtros, a Ilha de Failaka é o destino mais instigante, embora não seja o mais fácil de encaixar em um roteiro rápido. Pegar o ferry boat a partir de Salmiya e cruzar até a ilha é uma viagem no tempo. Failaka foi habitada desde a época de Alexandre, o Grande (os gregos a chamavam de Ikaros), e possui sítios arqueológicos riquíssimos. No entanto, o que atrai a maioria dos visitantes são as ruínas recentes. A ilha foi intensamente bombardeada durante a Guerra do Golfo e grande parte de sua infraestrutura residencial foi abandonada exatamente como estava. Caminhar pelas ruas onde casas esburacadas por tiros de metralhadora ainda estão de pé, lendo pichações da época da guerra, é uma experiência pesada, fantasmagórica e absolutamente inesquecível. É o tipo de turismo obscuro que exige respeito, mas que oferece uma perspectiva real sobre a resiliência do país.

De volta à parte continental, a cena cultural kuwaitiana passou por um renascimento impressionante nos últimos anos. O Sheikh Abdullah Al Salem Cultural Centre é um complexo de museus que me deixou boquiaberto na primeira vez que visitei. Não estou exagerando. O investimento governamental aqui foi astronômico, e o resultado é um dos maiores centros culturais do mundo. Seis museus distintos englobam história natural, espaço, ciência e ciência árabe-islâmica. Você caminha sob esqueletos de dinossauros suspensos em grandes átrios de vidro e mergulha em recriações imersivas de ecossistemas. A arquitetura do lugar por si só, inspirada nos padrões geométricos islâmicos, já valeria a visita.

Mas se você procura algo mais íntimo, mais humano, longe das megaproduções do governo, o Museu Tareq Rajab é a grande pérola escondida. Localizado no porão de uma villa no bairro residencial de Jabriya, esse museu particular abriga a coleção de um antigo ministro kuwaitiano e sua esposa britânica. O cheiro de papel antigo e madeira velha permeia o ar. Eles reuniram uma das coleções de arte islâmica, manuscritos, cerâmicas e, especialmente, joias de prata do Oriente Médio mais impressionantes que já vi. A iluminação é meio precária, as vitrines são abarrotadas, e isso tudo dá ao lugar a sensação de que você acabou de descobrir o tesouro de um colecionador excêntrico. É íntimo, pessoal e profundamente fascinante.

Uma coisa que sempre aconselho aos viajantes é observar como as cidades do Oriente Médio lidam com o pouco verde que têm. O Al Shaheed Park, localizado na periferia da Cidade do Kuwait, é uma aula de paisagismo e planejamento urbano. Construído sobre o que antes era um anel viário, o parque é o “pulmão verde” da capital. Diferente de parques ocidentais onde você simplesmente deita na grama, o Al Shaheed é estruturado com passarelas impecáveis, lagos artificiais, jardins botânicos e dois pequenos museus muito bem feitos (o Museu do Habitat e o Museu da Memória). O melhor horário para visitar é no final da tarde. O calor começa a ceder, os moradores locais saem para caminhar ou correr pelas pistas emborrachadas, e o sol se põe atrás do skyline de arranha-céus, banhando a cidade inteira em uma luz dourada espetacular.

E, inevitavelmente, sua viagem precisará passar por Salmiya, a área mais cosmopolita e vibrante junto ao mar. O calçadão costeiro, ou Corniche, é onde o Kuwait relaxa de frente para o mar. A marina é cheia de iates que fariam bilionários europeus corarem, mas o calçadão é totalmente democrático. Famílias inteiras fazem piqueniques no chão, crianças andam de patinete, e o cheiro de churrasco invade o ar nas noites de fim de semana (que no Kuwait caem na sexta-feira e no sábado). Perto dali fica o The Scientific Center, facilmente reconhecível pelo prédio em formato de vela de dhow (o barco tradicional do Golfo). O aquário lá dentro é notável por recriar ecossistemas marinhos específicos da região, mas, para mim, o mais interessante é caminhar ao redor da estrutura ao anoitecer, vendo os barcos antigos de madeira iluminados na doca seca, um contraste perfeito com os prédios modernos logo atrás.

A gastronomia do país merece um planejamento à parte. A comida no Kuwait é um espelho de sua história como porto de comércio marítimo: uma mistura de influências árabes, indianas e persas. O prato nacional é o Machboos, que pode ser feito com carne de carneiro, frango ou peixe. É um arroz basmati cozido lentamente no caldo da carne, altamente temperado com açafrão, cardamomo, cravo e limão preto seco (loomi). Encontrar um restaurante local autêntico, como o Freej Swaileh, onde a decoração imita as casas de barro antigas e você se senta em cabines fechadas por cortinas, é a chave para a experiência completa. A carne se desfaz ao toque do garfo. Você derrama o “daqqoos” (um molho de tomate denso e apimentado com alho) sobre o arroz, e cada garfada é uma explosão de especiarias. Eles sempre servem uma pequena salada verde com hortelã fresca para limpar o paladar. E, no final, é impossível escapar da hospitalidade: sempre haverá um pequeno bule de chá preto com cardamomo sendo colocado na sua mesa.

Estar no Kuwait requer uma pequena adaptação comportamental. Embora seja um dos países mais abertos do Golfo em relação à liberdade de imprensa e ao debate político (eles se orgulham muito de seu parlamento ativo), ainda é uma sociedade conservadora. Mulheres estrangeiras não precisam usar lenço na cabeça, nem abaya nas ruas, mas roupas modestas que cubram ombros e joelhos são a regra básica de respeito, tanto para homens quanto para mulheres. A demonstração de afeto em público é mal vista. Ao mesmo tempo, a hospitalidade individual é quase esmagadora. Se você começar a conversar com um vendedor em uma loja ou pedir informação a alguém na rua, as chances de acabar sendo convidado para tomar um chá, ou receber uma longa e detalhada explicação sobre a cultura deles, são enormes. Eles adoram quando o viajante faz o esforço de entender o país, justamente porque não estão tão acostumados com o turismo de massa quanto seus vizinhos.

Outra vivência imperdível, especialmente se a sua viagem ocorrer entre novembro e março (e este é o único período que eu realmente recomendo para colocar os pés no país, caso contrário você sofrerá com o calor absurdo), é a cultura do “Kashta”, os acampamentos no deserto. Assim que o clima esfria, os kuwaitianos migram para áreas como Mutla Ridge ou Subiya. Eles montam grandes tendas brancas e pretas no meio das dunas, levam geradores, televisões, sofás pesados e fogões. Passar uma noite no deserto aqui não é a experiência de sobrevivência rústica que se tem em outros lugares do mundo; é uma transferência da sala de estar para as areias. O céu noturno longe da poluição luminosa da cidade é cortante de tão estrelado. Sentar ao redor de uma fogueira, bebendo leite de camela quente ou chá fervendo, conversando sobre as complexidades da vida no Golfo enquanto o vento frio levanta poeira, é quando o Kuwait finalmente mostra sua identidade mais antiga, aquela que existia muito antes dos poços de petróleo brotarem da terra.

Para quem se aventura a incluir o Kuwait em um roteiro internacional, a sensação geral que fica na hora do embarque de volta não é a de ter visto paisagens naturais de tirar o fôlego ou de ter aproveitado uma festa sem fim. A recompensa aqui é muito mais intelectual e sensorial. É um mergulho em uma modernidade repleta de contradições. É ver o mundo luxuoso do Golfo sem o filtro excessivo de uma agência de marketing governamental. A arquitetura imponente, o cheiro de incenso que gruda na memória, as conversas profundas regadas a café artesanal e o barulho dos leilões de peixe no velho mercado formam um mosaico de um lugar que insiste em ser moderno sem perder o peso profundo do seu próprio passado. Quem descobre o Kuwait de verdade, não o esquece facilmente.

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