Como Viajar de Trem Entre Tóquio e Fujikawaguchiko
Guia Completo com Rotas, Horários e Dicas Práticas
Chegar de trem até Fujikawaguchiko saindo de Tóquio é uma das experiências mais bonitas que o Japão oferece — e ao mesmo tempo uma das que mais gera confusão na hora de planejar. Eu entendo. A primeira vez que tentei montar esse trajeto, fiquei perdido entre nomes de linhas, companhias ferroviárias diferentes e aquela dúvida eterna: vale a pena pagar mais caro pelo trem direto ou é melhor fazer baldeação? Depois de ter percorrido esse caminho mais de uma vez, posso dizer que existem formas diferentes de fazer o trajeto, e a melhor depende do seu perfil de viajante, do quanto quer gastar e, honestamente, de quanto tempo você tem de paciência naquele dia específico.

Vou detalhar aqui tudo o que você precisa saber para fazer essa viagem de trem com segurança, sem depender de tour guiado e sem aquela ansiedade de não saber se está na plataforma certa.
Klook.comA geografia ajuda a entender o trajeto
Antes de falar de trens, vale entender onde Fujikawaguchiko fica em relação a Tóquio. Estamos falando de uma cidadezinha na província de Yamanashi, no sopé norte do Monte Fuji, a cerca de 120 quilômetros a oeste da capital. A estação principal é Kawaguchiko, que fica ali pertinho do Lago Kawaguchi, um dos cinco lagos do Fuji. A altitude da estação já é de 857 metros — mais alta que a Tokyo Skytree, se isso serve de referência.
O problema é que não existe uma linha de trem que vá diretamente do centro de Tóquio até Kawaguchiko de ponta a ponta. O trecho é dividido entre duas operadoras: a JR East (Japan Railways) cuida da parte entre Tóquio e Otsuki, e a Fujikyu Railway opera de Otsuki até Kawaguchiko. Isso cria uma dinâmica um pouco diferente do que estamos acostumados. E é justamente nessa transição entre companhias que mora a maior parte da confusão.
Opção 1: O Fuji Excursion — o trem direto que simplifica tudo
Se eu pudesse recomendar apenas uma forma de fazer o trajeto, seria o Fuji Excursion. Esse trem limited express foi lançado em março de 2019 pela JR East em parceria com a Fujikyu Railway, e é, até hoje, o único trem direto entre Shinjuku e Kawaguchiko. Sem baldeação. Você senta, relaxa e desce na estação final.
A viagem dura cerca de 1 hora e 53 minutos no trajeto mais rápido. O trem parte da estação de Shinjuku, que é um dos maiores hubs de transporte de Tóquio — e do mundo, diga-se. Se você está hospedado em qualquer lugar razoavelmente central em Tóquio, chegar até Shinjuku é simples. Metrô, Yamanote Line, o que for.
O Fuji Excursion opera quatro viagens de ida por dia nos dias úteis, com partidas de Shinjuku às 7h30, 8h30, 9h30 e 10h30. Nos fins de semana e feriados, geralmente há trens extras. Os horários de volta de Kawaguchiko costumam começar por volta das 14h e o último trem sai às 17h40. Ou seja, dá para fazer um bate-volta tranquilo se você pegar o trem das 7h30 ou 8h30 pela manhã.
As paradas intermediárias incluem Tachikawa, Hachioji e Otsuki — onde o trem “transita” entre a operação da JR e a da Fujikyu. Depois de Otsuki, ele segue por Tsuru-bunkadaigaku-mae, Shimoyoshida, estação Mt. Fuji, Fujikyu Highland e finalmente Kawaguchiko.
O custo do trecho Shinjuku–Kawaguchiko fica em ¥4.130 por trecho (algo em torno de R$ 160 a R$ 180, dependendo do câmbio). Esse valor inclui a tarifa básica de ¥2.510 mais a taxa expressa de ¥1.620. Não é o mais barato dos meios de transporte, mas a comodidade de não fazer baldeação e a pontualidade japonesa justificam. O trem tem poltronas confortáveis, espaço para bagagem e janelas amplas — e é nessa janela que a mágica acontece, porque conforme você se afasta de Tóquio e entra na região montanhosa, a paisagem muda completamente.
Uma coisa importante: o Fuji Excursion é muito disputado. Muito mesmo. Em temporadas de alta, como a primavera (época das cerejeiras) e o outono (folhagens), os assentos esgotam rápido. A reserva de lugar é obrigatória, e eu recomendo fazer isso com antecedência.
Klook.comComo reservar o Fuji Excursion
Esse era um ponto problemático até pouco tempo atrás, mas melhorou bastante. Existem basicamente três caminhos:
O primeiro e mais prático, especialmente para quem está fora do Japão, é pelo sistema de e-ticket da JR East. Desde agosto de 2025, o Express Train e-ticket permite reservar o trecho completo de Shinjuku a Kawaguchiko pelo site, sem complicações. Antes, o sistema da JR só vendia até Otsuki, e o trecho da Fujikyu precisava ser comprado separadamente — uma confusão que gerava filas e frustração. Agora está integrado.
O segundo caminho é comprar na bilheteria ou nas máquinas de venda de passagem nas estações JR. As máquinas com opção em inglês estão em praticamente todas as grandes estações. É uma opção viável, mas em alta temporada você corre o risco de não encontrar assentos disponíveis.
O terceiro caminho é pelo JR TOKYO Wide Pass. Esse passe custa ¥15.000, vale por três dias consecutivos e cobre todo o trecho do Fuji Excursion, incluindo a parte da Fujikyu Railway. Se você pretende fazer outros passeios na região — como Karuizawa, Nikko ou a linha Izu — o pass se paga fácil. O detalhe é que, mesmo com o passe, você precisa reservar o assento no Fuji Excursion separadamente. Não basta ter o passe e embarcar; o trem exige reserva de lugar.
Outra possibilidade que vale mencionar: plataformas como Klook também vendem passagens do Fuji Excursion com facilidade, e a interface é toda em português. Para quem não se sente confortável navegando sites japoneses, é uma mão na roda.
Opção 2: JR Chuo Line até Otsuki + Fujikyu Railway até Kawaguchiko
Se o Fuji Excursion estiver esgotado ou se você quiser economizar um pouco, a alternativa clássica é pegar um trem da JR Chuo Line até a estação de Otsuki e, de lá, fazer a baldeação para a Fujikyu Railway até Kawaguchiko.
A JR Chuo Line sai de Shinjuku e tem opções de trens rápidos (limited express Kaiji ou Azusa) e trens locais. O limited express até Otsuki leva cerca de uma hora, enquanto o trem local pode demorar 1h30 a 1h40. O preço do limited express é parecido com o trecho JR do Fuji Excursion. O trem local sai mais barato, em torno de ¥1.340 até Otsuki.
Chegando em Otsuki, você precisa trocar para a Fujikyu Railway. A boa notícia é que a conexão é na mesma estação — basta trocar de plataforma. A Fujikyu Railway opera trens locais e também o Fujisan View Express (um trem mais charmoso, com design moderno e janelas panorâmicas). O trecho Otsuki–Kawaguchiko na Fujikyu custa ¥1.170 no trem local e leva cerca de 55 minutos.
Então, somando tudo, o trajeto por essa rota fica entre ¥2.500 e ¥3.500, dependendo se você opta pelo limited express ou pelo trem local na parte da JR. É mais barato que o Fuji Excursion, mas envolve uma baldeação que, em dias de muito movimento, pode ser estressante. A plataforma em Otsuki fica cheia, e os trens da Fujikyu às vezes saem lotados.
Uma dica que aprendi na prática: se pegar o trem local da JR até Otsuki, tente embarcar no vagão da frente. A conexão com a plataforma da Fujikyu fica mais perto da saída dianteira, e esses poucos segundos podem fazer diferença na hora de garantir um assento no trem seguinte.
Klook.comO Fujisan View Express e o trem retro
A Fujikyu Railway tem personalidade. Não é apenas uma linha de transporte — é quase uma atração turística em si. Além do trem local convencional, existem dois trens especiais que operam no trecho Otsuki–Kawaguchiko.
O Fujisan View Express é um trem desenhado pelo famoso designer Eiji Mitooka (o mesmo que criou vários trens de luxo no Japão). Ele tem três vagões com interior em madeira, poltronas espaçosas e janelas amplas voltadas para o Monte Fuji. É uma experiência estética. O bilhete especial custa um pouco mais que o trem regular, mas vale a pena pelo menos em um dos sentidos.
Já o Thomas Land Train é… exatamente o que o nome sugere. Um trem temático do Thomas & Friends. Se você está viajando com crianças, é um show. Para adultos sem crianças, é no mínimo curioso.
Opção 3: Partindo da Tokyo Station
Nem todo mundo está hospedado perto de Shinjuku, e às vezes sair de Tokyo Station é mais conveniente. O problema é que não existe trem direto de Tokyo Station para Kawaguchiko. A rota mais eficiente, nesse caso, envolve pegar o JR Chuo Line até Shinjuku (menos de 15 minutos) e de lá embarcar no Fuji Excursion. Ou, se preferir, ir de Shinkansen (Tokaido Shinkansen) até Mishima ou Shin-Fuji e de lá pegar um ônibus até Kawaguchiko — mas aí já não estamos mais falando de trem para o trajeto todo, e esse percurso sai significativamente mais caro.
Há quem tente a rota por Mishima pensando que é mais rápida, mas na prática o tempo de espera pelo ônibus e o trajeto rodoviário acabam nivelando ou até ultrapassando o tempo do Fuji Excursion. A menos que você já esteja em Mishima por outro motivo, não vejo muita vantagem.
O Japan Rail Pass funciona nessa rota?
Essa é uma pergunta que aparece sempre. O Japan Rail Pass nacional cobre o trecho JR — ou seja, de Shinjuku até Otsuki, incluindo o limited express Kaiji ou Azusa. Porém, ele não cobre o trecho da Fujikyu Railway (de Otsuki a Kawaguchiko). Então, se você tem o JR Pass, vai economizar na metade do caminho, mas precisará comprar separadamente o bilhete da Fujikyu para o trecho final.
Já o JR TOKYO Wide Pass, como mencionei, cobre o trajeto inteiro, incluindo a Fujikyu Railway e o Fuji Excursion. Para quem vai fazer um bate-volta ao Monte Fuji e ainda explorar outros destinos cobertos pelo passe, é sem dúvida o melhor custo-benefício.
Dicas práticas que fazem diferença
Depois de fazer esse trajeto algumas vezes, acumulei uma série de observações que não aparecem nos guias convencionais. Coisas pequenas, mas que mudam a experiência.
A primeira é sobre o horário. Se o seu objetivo é ver o Monte Fuji sem nuvens, vá cedo. De manhã, especialmente no outono e no inverno, as chances de céu limpo são muito maiores. A partir do meio da tarde, as nuvens costumam se fechar ao redor do pico. Eu já cheguei em Kawaguchiko ao meio-dia com o céu perfeito e, duas horas depois, a montanha tinha sumido. Então, o trem das 7h30 de Shinjuku não é exagero — é estratégia.
A segunda dica é sobre qual lado do trem sentar. No Fuji Excursion, na ida (Shinjuku → Kawaguchiko), sente-se do lado esquerdo. Quando o trem se aproxima da região de Shimoyoshida e da estação Mt. Fuji, o Fujisan aparece pela janela esquerda de forma espetacular. Na volta, a lógica se inverte: sente-se do lado direito. Essa diferença pode parecer bobagem até você ver a montanha surgindo entre os prédios e perceber que está do lado errado.
A terceira observação é sobre alimentação. Não há vagão-restaurante no Fuji Excursion, e a viagem dura quase duas horas. Compre algo para comer antes de embarcar. As lojas de conveniência dentro da estação de Shinjuku — e olha que são muitas — vendem ekiben (bentôs de estação) excelentes. Onigiri, sanduíches, doces. A experiência de comer um bentô japonês olhando a paisagem pela janela do trem é um dos pequenos prazeres da viagem.
O que esperar ao chegar em Kawaguchiko
A estação de Kawaguchiko é simpática e organizada, mas pequena. Não espere uma mega estrutura. Há um centro de informações turísticas logo na saída, onde você pode pegar mapas, horários de ônibus locais e tirar dúvidas. O inglês dos atendentes é básico, mas funcional.
De Kawaguchiko, o Lago Kawaguchi e vários mirantes do Monte Fuji ficam acessíveis a pé ou por ônibus retro (o Kawaguchiko Sightseeing Bus, que faz um circuito ao redor do lago). O bilhete do ônibus pode ser comprado ali mesmo na estação.
Se você planeja visitar outros lagos da região — como Saiko, Shojiko ou Motosuko — vai precisar de ônibus ou carro. A infraestrutura de transporte público existe, mas é menos frequente do que em Tóquio, claro. Planeje-se com os horários.
Outra opção popular é o Fuji-Q Highland, o parque de diversões que fica literalmente ao lado da estação homônima — uma parada antes de Kawaguchiko. Se a ideia é ir ao parque, desça ali em vez de seguir até o final da linha.
Comparando com o ônibus rodoviário
Não dá para falar de trem sem mencionar a alternativa mais popular: o highway bus. Ônibus expressos saem da Shinjuku Expressway Bus Terminal (Busta Shinjuku) e chegam a Kawaguchiko em cerca de 1h45 a 2h, dependendo do trânsito. O preço é significativamente mais baixo — por volta de ¥2.200 (cerca de R$ 85 a R$ 95). Há dezenas de horários por dia, o que dá uma flexibilidade que o trem não tem.
Então por que alguém escolheria o trem? Primeiro, pela confiabilidade. O ônibus depende do trânsito, e a saída de Tóquio em horário de pico pode transformar 1h45 em 3 horas facilmente. Já o trem é pontual ao segundo — literalmente. Segundo, pelo conforto. O Fuji Excursion tem poltronas amplas, espaço para as pernas e uma suavidade no trajeto que o ônibus, por melhor que seja, não reproduz. Terceiro, pela experiência. Tem algo no ato de viajar de trem pelo interior do Japão que é quase meditativo. A paisagem mudando gradualmente, os túneis curtos, os vales que se abrem de repente. Não é o mesmo que olhar a traseira de um caminhão na autoestrada.
Dito isso, se o orçamento é apertado e o horário é flexível, o ônibus é uma alternativa perfeitamente válida. Eu já fui e voltei de ônibus sem nenhum problema.
Quanto tempo ficar em Fujikawaguchiko
Essa é uma decisão muito pessoal, mas acho que um bate-volta de Tóquio, embora possível, deixa a experiência um pouco corrida. Se você puder, pernoite pelo menos uma noite. A região tem ryokans (pousadas tradicionais) com banhos termais de onde dá para ver o Fuji, e o pôr do sol refletido no lago é um daqueles momentos que ficam gravados.
Acordar cedo em Kawaguchiko e ver o Fuji com as primeiras luzes do dia, antes dos ônibus de turismo chegarem, é uma experiência de outro nível. A cidade fica silenciosa, o ar é gelado (especialmente no inverno e início da primavera), e a montanha parece estar ali só para você.
Se for pernoitar, o último trem de volta para Tóquio sai por volta das 17h40 de Kawaguchiko. Perder esse trem significa ter que voltar de ônibus ou — se não houver mais ônibus — improvisar uma hospedagem. Fique atento aos horários.
Sobre o cartão IC (Suica, Pasmo) na rota
Seu Suica ou Pasmo funciona nos trens locais da JR Chuo Line e da Fujikyu Railway. Então, se você está fazendo o trajeto com baldeação em Otsuki usando trens locais, basta encostar o cartão nos gates normalmente. Porém, no Fuji Excursion, o cartão IC não substitui a reserva de assento. Você pode usar o IC para a tarifa básica, mas a taxa expressa e a reserva precisam ser adquiridas separadamente.
Desde outubro de 2025, o Welcome Suica Mobile se integrou ao sistema de reservas da JR East, o que facilita bastante o processo para turistas. Mas, na dúvida, sempre confirme na estação antes de embarcar.
Montando seu plano
Para facilitar, aqui vai um resumo prático do que eu considero o melhor fluxo para quem está indo pela primeira vez:
Saia de Shinjuku no Fuji Excursion das 7h30 ou 8h30. Chegue em Kawaguchiko por volta das 9h28 ou 10h27. Explore o lago, os mirantes e a região durante o dia. Almoce algo local — o houtou, um macarrão grosso cozido em missô com legumes, é prato típico da região e ótimo especialmente em dias frios. Pegue o trem de volta das 15h ou 16h49, dependendo do quanto quer ficar.
Se preferir economizar, vá de ônibus na ida (quando o trânsito da manhã tende a ser mais tranquilo) e volte de trem (quando o trânsito da tarde é imprevisível). É o melhor dos dois mundos.
Se tiver JR TOKYO Wide Pass e três dias para explorar, use um dia para Kawaguchiko, outro para Nikko e outro para Karuizawa ou a península de Izu. O passe se paga já no segundo dia.
O imponderável chamado clima
Não posso encerrar sem falar do elefante na sala: o Monte Fuji se esconde. Muito. Não importa o quanto você planejou, não importa se o aplicativo de previsão do tempo mostra céu limpo. O Fuji tem suas próprias regras meteorológicas. A melhor época para vê-lo com clareza é entre novembro e fevereiro, quando o ar é mais seco e frio. Na primavera e no verão, a visibilidade diminui bastante, especialmente à tarde.
Se você chegar em Kawaguchiko e o Fuji estiver encoberto, não se desespere. Aproveite a cidade, os museus, o lago, a gastronomia. E quem sabe, no fim da tarde, ele resolve aparecer por dez minutos. Esses dez minutos valem a viagem inteira.
Já fiz esse trajeto com céu aberto e com chuva. Nos dois casos, o percurso de trem por si só já valeu. A paisagem montanhosa entre Otsuki e Kawaguchiko, com os vales cobertos de floresta e os rios estreitos cortando os vilarejos, tem uma beleza discreta que não depende da presença do vulcão mais famoso do mundo. Mas quando ele aparece, é difícil não parar de respirar por um segundo.
Ir de trem até Fujikawaguchiko é mais do que um deslocamento. É o tipo de trajeto em que o caminho é tão bom quanto o destino — e isso, no Japão, não é exceção. É regra.