Como Escolher o Melhor Assento em Viagem de Avião
Escolher o assento certo no avião pode transformar completamente a sua experiência de vôo — e hoje, com as companhias aéreas cobrando cada vez mais por essa simples escolha, saber o que fazer virou quase uma estratégia de sobrevivência.

Vou ser bem direto: já perdi a conta de quantos vôos fiz sentado num lugar ruim porque achei que “tanto faz, é só um assento”. Não é. A diferença entre uma poltrona na janela com vista livre e uma cadeira espremida no meio da fileira, bem em cima da asa, sem reclinação, é brutal. Principalmente quando o vôo passa de três horas.
E o pior é que a coisa complicou bastante nos últimos anos. Antigamente, bastava fazer o check-in online, escolher o lugar e pronto. Hoje, se você comprou uma tarifa mais barata — e convenhamos, quem não quer pagar menos? — a marcação de assento virou um item cobrado à parte. Isso mudou completamente a dinâmica de como a gente planeja onde vai sentar.
A nova realidade: pagar para escolher onde sentar
Essa é uma tendência que se consolidou de vez no Brasil e no mundo. As companhias aéreas perceberam que podiam desmembrar o serviço em pedacinhos e cobrar por cada um deles — bagagem despachada, alimentação a bordo, e claro, a marcação de assento.
A GOL, por exemplo, passou a cobrar pela escolha de assento nas tarifas Promo e Light a partir de meados de 2025. Na prática, quem compra a passagem mais barata não consegue mais selecionar o lugar nem durante o check-in online. O sistema simplesmente designa um assento automaticamente cerca de 60 horas antes do vôo. Você pode até rezar para cair num lugar decente, mas é loteria.
A Azul seguiu caminho parecido — e talvez mais agressivo. A partir de setembro de 2025, a companhia apertou as regras e passou a cobrar pela marcação até 24 horas antes do vôo em determinadas tarifas. Antes, quem esperava até o check-in conseguia escapar da cobrança. Essa brecha foi fechada. Quem não paga, recebe o que sobrar.
A LATAM já operava com modelo semelhante há mais tempo. Nas tarifas Light, a marcação de assento é paga. E os preços variam: um assento comum pode custar entre R$ 20 e R$ 50 por trecho em vôos domésticos, mas os lugares mais disputados — saída de emergência, primeira fileira — chegam a valores bem mais salgados.
Vale mencionar que, em outubro de 2025, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto que proíbe a cobrança pela marcação de assento em vôos. Mas até agora o texto ainda precisa passar pelo Senado e ser sancionado, então na prática a cobrança segue vigente. Não conte com isso para a sua próxima viagem.
O que eu recomendo? Se o assento importa muito para você — e deveria importar em vôos longos — coloque isso na conta na hora de comparar tarifas. Às vezes, a tarifa intermediária já inclui a marcação e sai mais barata do que a promo + o valor do assento avulso. Faça a soma antes de clicar em “comprar”.
Klook.comJanela, corredor ou meio: a eterna discussão
Parece bobagem, mas essa decisão muda tudo. E a resposta certa depende muito mais do tipo de viajante que você é do que de uma regra universal.
Eu, pessoalmente, sou de janela. Gosto de encostar a cabeça, ter uma parede do lado, ninguém me pedindo licença para ir ao banheiro. Em vôos noturnos então, nem se fala — ter um apoio para dormir faz diferença real. E em vôos diurnos com paisagem bonita, a janela é puro espetáculo. Um vôo para Fernando de Noronha visto de cima, por exemplo, é algo que todo mundo deveria experimentar pelo menos uma vez.
Mas o corredor tem seus méritos, e eu reconheço isso. Quem é mais alto ou tem problema de circulação precisa se levantar com frequência, e no corredor isso é feito sem incomodar ninguém. É também a melhor opção para quem quer desembarcar rápido — em conexões apertadas, cada minuto conta. Em vôos longos internacionais, o corredor na econômica é uma bênção: você estica a perna, levanta quando quer, vai ao banheiro sem passar por cima de dois desconhecidos adormecidos.
E o meio? O meio é a Sibéria dos assentos. Ninguém escolhe o meio voluntariamente. É o lugar que sobra quando você não pagou pela marcação ou deixou tudo para a última hora. A única “vantagem”, se é que podemos chamar assim, é ter os dois apoios de braço — existe até uma regra não escrita de etiqueta aérea que diz que o passageiro do meio tem direito aos dois apoios. Na prática, ninguém respeita isso.
Frente, meio ou fundo do avião?
Aqui tem outro debate que vale a pena. A posição no avião — não só na fileira, mas na seção — influencia em vários aspectos.
Sentar na frente da aeronave costuma significar menos turbulência percebida. As primeiras fileiras da econômica geralmente ficam mais perto das portas de embarque e desembarque, então você sai mais rápido. Mas atenção: a primeira fileira da econômica (chamada de bulkhead) tem vantagens e desvantagens. Você ganha mais espaço para as pernas em algumas aeronaves, mas perde a possibilidade de guardar uma mochila embaixo do assento da frente — tudo precisa ir no bagageiro durante decolagem e pouso. Além disso, é ali que costumam instalar os berços de bebê. Se você prefere silêncio, pode ser uma armadilha.
O meio do avião, sobre a asa, é onde a turbulência é menos sentida. Isso é física básica — o centro de gravidade fica ali. Para quem tem medo de voar ou enjoa com facilidade, essa região é a mais estável. O problema é que, dependendo da aeronave, a asa bloqueia boa parte da vista pela janela. Vai de cada um decidir o que importa mais.
O fundo do avião é o lugar que ninguém quer. É mais barulhento por causa dos motores (em jatos com motores na cauda, especialmente), o embarque demora mais, o desembarque também. Mas tem um detalhe que pouca gente sabe: nas fileiras do fundo, especialmente em vôos que não estão lotados, é mais comum que o assento do meio fique vazio. Os sistemas de alocação automática costumam preencher de frente para trás. Então, se o vôo estiver com ocupação de 70%, 80%, é no fundo que você tem mais chance de ter uma fileira só para você. Já aconteceu comigo mais de uma vez — peguei três assentos vazios no fundo de um vôo da madrugada e dormi deitado. Não é a regra, mas acontece.
Assentos na saída de emergência: o ouro da econômica
Se existe um assento que todo viajante frequente conhece e deseja, é o da fileira da saída de emergência. O espaço para as pernas é absurdamente maior, às vezes comparável ao de uma classe executiva em termos de distância até o assento da frente. Em aeronaves como o Boeing 737 ou o Airbus A320 — os cavalos de batalha das rotas domésticas brasileiras — a diferença é gritante.
Mas, claro, tem pegadinha. Primeiro: esses assentos são os mais caros para marcação. As companhias sabem que é o filé mignon da econômica e cobram por isso. Valores de R$ 80 a R$ 200 por trecho em vôos domésticos não são incomuns. Segundo: existem restrições. Você precisa ter mais de 18 anos, ter mobilidade para ajudar numa evacuação, entender as instruções do comissário. Gestantes e pessoas com crianças de colo não podem sentar ali. Terceiro: em muitas configurações, os assentos da saída de emergência não reclinam. Parece detalhe, mas em vôo de quatro horas faz diferença.
E tem outro ponto que já me pegou de surpresa: nem toda saída de emergência tem o mesmo espaço. Em alguns aviões, a fileira logo antes da saída é a pior de todas — o assento não reclina (para não bloquear a saída) e o espaço é o padrão. Quem ganha é a fileira de trás da saída. Então, se for pagar por esse assento, verifique exatamente qual fileira é. Use sites como o SeatGuru (agora integrado ao TripAdvisor) para checar o mapa de assentos da aeronave específica do seu vôo.
A estratégia para quando você não quer (ou não pode) pagar pelo assento
Esse é o cenário real da maioria dos viajantes. Você comprou a tarifa promocional, não quer gastar mais R$ 40, R$ 60 com marcação de assento, mas também não quer cair num lugar horrível. E agora?
Primeira coisa: faça o check-in no exato momento em que ele abrir. A maioria das companhias abre o check-in online entre 72 e 48 horas antes do vôo. No caso de vôos domésticos da GOL, por exemplo, são 72 horas. Da LATAM, 48 horas. Da Azul, 48 horas também. O horário exato importa — os primeiros a fazer check-in têm mais opções de assentos gratuitos (nos casos em que ainda existe essa possibilidade).
Mas como falei, essa brecha está se fechando. A tendência é que as tarifas mais baratas simplesmente não permitam escolha nenhuma, e o sistema faça a alocação automática. Quando isso acontece, uma alternativa é ligar para a central de atendimento ou ir ao balcão no aeroporto e pedir para trocar de assento. Não é garantido, mas funcionários de check-in têm certa flexibilidade. Educação e gentileza ajudam mais do que qualquer reclamação.
Outra dica: se você está viajando em casal ou com família e cada um caiu num canto diferente do avião, chegue cedo ao portão de embarque e peça ao agente de embarque para tentar juntar vocês. Com crianças pequenas, especialmente, as companhias costumam fazer esse esforço. Mas não deixe para pedir dentro do avião, porque aí depende da boa vontade de outro passageiro que talvez tenha pago pela marcação daquele assento específico.
Vôos internacionais: o assento importa ainda mais
Em vôos longos, a escolha do assento ganha outra dimensão. Um vôo de São Paulo para Paris dura onze, doze horas. De Guarulhos para Nova York, dez horas. Nessas condições, estar num assento ruim não é desconforto — é sofrimento.
Na classe econômica de vôos internacionais, a configuração mais comum em wide-bodies (aviões de corredor duplo, como o Boeing 777 ou o Airbus A350) é de 3-3-3 ou 3-4-3. Isso significa que existem assentos de meio que estão, literalmente, cercados por dois vizinhos de cada lado. É a versão extrema do “assento do meio” que mencionei antes.
Para vôos desse tipo, minha recomendação é clara: invista na marcação. A diferença de conforto justifica o valor na imensa maioria dos casos. Se não puder investir, ao menos tente garantir corredor ou janela. E se estiver em casal, busque as fileiras de duas poltronas — muitos wide-bodies têm configuração 2-4-2 ou 2-3-2, onde os pares de assentos nas laterais são perfeitos para casais.
E falando em vôos longos, tem algo que muita gente ignora: a proximidade com o banheiro e com a cozinha (galley). Sentar ao lado do banheiro significa cheiro, fila de pessoas do seu lado, e aquela luzinha que acende toda vez que alguém abre a porta. Sentar perto da galley significa barulho de comissários preparando o serviço de bordo, às vezes durante a madrugada inteira. Evite as últimas fileiras e as fileiras imediatamente atrás das divisórias de classe, que é onde normalmente ficam esses serviços.
Ferramentas que ajudam (de verdade)
Além do já citado SeatGuru, que mostra o mapa detalhado de assentos com avaliações de cada posição, existem outras ferramentas úteis.
O Google Flights permite, em muitas companhias, visualizar o mapa de assentos antes mesmo de comprar a passagem. Isso é ouro. Você consegue ver quais assentos estão livres, quais são pagos e ter uma noção de como estará a ocupação do vôo.
Os aplicativos das próprias companhias aéreas às vezes mostram o mapa com a ocupação em tempo real. Se você está na dúvida entre dois vôos no mesmo horário, compare os mapas: o vôo mais vazio provavelmente vai te dar mais conforto, mesmo que o assento não seja o ideal.
E uma dica que pouca gente fala: o ExpertFlyer (que é pago, mas tem versão de teste) mostra a disponibilidade de assentos com nível de detalhe que nenhuma outra ferramenta oferece. Para viajantes frequentes, vale o investimento.
Situações específicas que fazem diferença
Viajando com criança pequena? Peça a poltrona da janela e coloque a criança no meio. Ela fica “protegida” entre você e a parede do avião, sem risco de escapar para o corredor quando o carrinho de serviço estiver passando. E se o bebê ainda estiver no colo, muitas companhias permitem solicitar o berço de bordo — que fica preso na parede da fileira bulkhead. Mas é por ordem de solicitação, então peça com antecedência.
Tem medo de voar? Asa. Vá para a asa. Janela sobre a asa, inclusive, porque ver a asa estável durante a turbulência tem um efeito psicológico de ancoragem que ajuda muita gente. Parece contraintuitivo — “não vou querer olhar!” —, mas ver que o avião está estável, que a asa está firme, acalma.
Precisa trabalhar durante o vôo? Corredor na parte da frente, de preferência do lado esquerdo do avião. Por quê? O embarque costuma ser pela esquerda, então você já sai mais rápido. E no corredor, você consegue usar o notebook sem ficar espremido. Muitos aviões mais modernos têm tomadas USB ou de energia em todos os assentos, mas em aeronaves mais antigas, as tomadas ficam só em certas fileiras. Pesquise antes.
O que as milhas e programas de fidelidade mudam no jogo
Se você é membro de um programa de fidelidade com status — Smiles da GOL, TudoAzul da Azul, LATAM Pass —, a marcação gratuita de assento costuma estar entre os benefícios, mesmo nas tarifas mais baratas. Clientes ouro e diamante da GOL, por exemplo, mantêm a marcação gratuita independente da tarifa comprada. Na Azul, clientes com status a partir do Safira também têm essa vantagem.
Isso muda muito o cálculo. Se você viaja com frequência, concentrar seus vôos numa companhia e subir de categoria no programa de fidelidade pode poupar um bom dinheiro em marcação de assento ao longo do ano — sem falar nos outros benefícios como sala VIP, bagagem extra e prioridade de embarque.
Para quem não tem status mas tem milhas sobrando, algumas companhias permitem usar pontos para pagar a marcação de assento. Não é o melhor uso das milhas, na minha opinião, mas em certos casos faz sentido.
O elefante na sala: a experiência está piorando
Não dá para escrever sobre assentos de avião sem tocar nesse ponto. A experiência de voar na classe econômica piorou. E não é impressão. O espaço entre os assentos (o famoso pitch) diminuiu nas últimas duas décadas. Onde antes tínhamos 32 ou 33 polegadas de distância entre fileiras, hoje muitas aeronaves operam com 28, 29 polegadas. Isso é pouco. Para alguém com mais de 1,80m, é desconfortável.
E é justamente essa compressão do espaço que torna a escolha do assento tão relevante. Quando todo assento era razoável, tanto fazia onde você sentava. Agora que a diferença entre um assento bom e um ruim pode ser de quatro, cinco polegadas de espaço para as pernas, escolher bem virou necessidade.
As companhias sabem disso. É por isso que a cobrança pela marcação funciona tão bem como modelo de negócio. Elas criaram o problema — reduziram o espaço — e agora vendem a solução — pague mais pelo assento com mais espaço. É um ciclo que incomoda, mas que a gente precisa aprender a navegar.
Na prática: meu checklist antes de cada vôo
Depois de tantos vôos, criei um hábito que compartilho aqui:
Quando compro a passagem, verifico qual aeronave opera aquele vôo. Vou ao SeatGuru e olho o mapa. Identifico os melhores assentos e os piores. Se a tarifa permite marcação gratuita, escolho na hora. Se não permite, calculo se vale pagar pela marcação ou se vou arriscar a alocação automática. Na véspera, confiro se houve mudança de aeronave — isso acontece mais do que a gente imagina — e, se mudou, reavaliação total. No dia do vôo, faço o check-in no minuto em que abre. E no aeroporto, se o assento que recebi não me agrada, vou ao balcão e peço troca com educação. Funciona em boa parte das vezes.
Não é ciência. É atenção. É não tratar o assento como um detalhe menor quando, na verdade, ele define a qualidade de horas da sua vida dentro de um tubo metálico a dez mil metros de altitude. E com as companhias transformando cada pedaço da experiência em receita extra, quem se informa viaja melhor — e muitas vezes gasta menos do que quem simplesmente aceita o que aparece na tela.
Boa viagem. E que o assento do meio nunca seja o seu.