Como é Viajar de Trem Como Turista na Tailândia

Viajar de Trem na Tailândia É Uma das Experiências Mais Marcantes que um Viajante Pode Ter no Sudeste Asiático

Vídeo mostra como é a viagem de trem na Tailândia

Existe um ritual silencioso que acontece toda noite na Estação Krung Thep Aphiwat, em Bangkok. Os funcionários do trem aparecem com lençóis dobrados em perfeita simetria, montam as camas com uma agilidade quase irreal, corridas de travesseiros e cobertores caem no lugar como num passe de mágica — e em questão de minutos, aquele vagão que parecia uma fileira de poltronas comuns vira uma fileira de beliches com cortininhas azuis se fechando uma a uma. É nesse momento que você entende que não está apenas pegando um transporte. Está embarcando em algo diferente.

Já planejei dezenas de viagens pela Tailândia ao longo dos anos, e posso dizer com tranquilidade: viajar de trem por lá é uma daquelas coisas que separa o turista apressado do viajante de verdade. Não porque seja mais confortável do que um avião — claramente não é. Mas porque te coloca dentro do país de um jeito que nenhuma janelinha de aeronave consegue.

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A Rede Ferroviária da Tailândia: Muito Maior do que a Maioria Imagina

A State Railway of Thailand, a SRT, opera uma malha ferroviária de cerca de 4.000 quilômetros. São quatro linhas principais que partem todas de Bangkok e cortam o país em direções distintas:

A Linha Norte é a mais famosa entre turistas — ela conecta Bangkok a Chiang Mai, atravessando Ayutthaya e as regiões montanhosas do interior. A Linha Nordeste vai até Ubon Ratchathani e Nong Khai, onde é possível cruzar para o Laos. A Linha Sul desce em direção a Surat Thani, ponto de acesso às ilhas como Koh Samui e Koh Phangan, e segue até Hat Yai, na fronteira com a Malásia — para quem tem tempo e quer fazer uma travessia de verdade. A Linha Leste vai até Aranyaprathet, cidade na fronteira com o Camboja.

Na prática, é uma cobertura muito boa para quem quer conhecer o país sem depender de vôos domésticos. A maioria dos destinos turísticos clássicos está acessível por trilhos.


A Nova Estação de Bangkok: Um Detalhe Importante que Muita Gente Ignora

Quem pesquisou sobre trens na Tailândia há alguns anos vai encontrar referências à Estação Hua Lamphong como o grande hub ferroviário de Bangkok. Ela existe desde 1916 e é linda, com aquela arquitetura de cúpula e o movimento de décadas impregnado no ar. Mas desde janeiro de 2023, a maior parte dos trens de longa distância passou a operar a partir da nova Estação Krung Thep Aphiwat — às vezes chamada de Bang Sue Grand Station.

Se você programar a viagem sem saber disso, pode chegar na Hua Lamphong e descobrir que o trem que procurava sai de outra estação, a alguns quilômetros dali. É o tipo de detalhe que arruína um início de viagem. Então: atualize seus planos e vá para Bang Sue.


Os Tipos de Trem — e Por Que Isso Importa Mais do que Parece

A SRT opera diferentes categorias de serviço, e entender essa distinção é essencial para não ter uma surpresa desagradável na plataforma.

Os trens comuns — chamados de Ordinary — são os mais lentos e os mais baratos. Param em praticamente toda estação e, em geral, não têm ar-condicionado. Funcionam bem para trajetos curtos e para quem quer uma experiência totalmente local, sem nenhum filtro. Eu já peguei um desses para ir de Bangkok a Ayutthaya, que fica a uns 80 quilômetros. Levou quase duas horas, mas a viagem custou migalhas e o vagão estava cheio de gente comum indo trabalhar, crianças com mochilas, senhoras com sacolas de mercado. Valeu muito.

Os Rapid e Express são um intermediário. Fazem menos paradas, têm um tempo de viagem melhor e geralmente oferecem opções de assentos com ventiladores ou ar-condicionado. Para trajetos médios, são uma boa escolha.

Os Special Express são os trens mais rápidos e confortáveis da SRT — pelo menos dentro do sistema convencional. São eles que operam as rotas noturnas mais procuradas, como Bangkok–Chiang Mai e Bangkok–Surat Thani. Quando se fala em pegar o “trem sleeper” na Tailândia, é quase sempre esses que estão em pauta.


As Classes: Onde Você Vai Dormir (ou Tentar)

Aqui está outro ponto que confunde bastante quem está planejando pela primeira vez.

A terceira classe é assento fixo, sem ar-condicionado na maioria dos casos, banco duro. Para viagens longas e noturnas, não é onde você quer estar. Mas para deslocamentos curtos durante o dia, funciona perfeitamente e é baratíssima — menos de 300 baht, em muitos casos menos de R$ 50.

A segunda classe é onde mora a melhor relação custo-benefício da rede tailandesa. Nos trens noturnos, o assento se transforma em beliche. Você escolhe entre superior e inferior — o de baixo é mais caro, mais largo, e não bate a cabeça no teto. Para quem tem mais de 1,70 m de altura, eu recomendo fortemente o inferior. Já testei o superior sendo alto e é um exercício de contorcionismo para entrar e sair sem acordar o vizinho do lado. Uma segunda classe com ar-condicionado e sleeper custa entre 700 e 1.000 baht — algo entre R$ 100 e R$ 150, na faixa atual de câmbio.

A primeira classe tem cabines privativas com duas camas, porta, tomada, e em algumas rotas banheiro privativo. É um salto de conforto significativo. O preço vai de 1.200 a 2.000 baht por pessoa. Para quem viaja em casal e quer uma noite mais tranquila, vale a pena dividir o custo da cabine — sai próximo ao preço de segunda classe por pessoa, com muito mais privacidade.


Bangkok a Chiang Mai: A Rota Mais Icônica

São 680 quilômetros entre as duas cidades. De avião, menos de 1h30. De trem, entre 10 e 13 horas, dependendo do serviço que você pegar.

E por que alguém escolheria o trem? Porque a viagem em si é parte da experiência.

Existem atualmente cinco trens por dia na rota. O Trem 7 sai às 09h05 e é o mais rápido, chegando a Chiang Mai às 19h30 — perfeito para quem quer aproveitar a paisagem durante o dia inteiro. O Trem 9 sai às 18h40 e chega às 07h15 — o favorito de quem quer otimizar o tempo, dormindo e economizando uma noite de hospedagem. O Trem 13 sai às 20h05 e chega às 08h40, outro bom noturno.

O trajeto passa por Ayutthaya, antiga capital do reino tailandês e um dos pontos históricos mais importantes do Sudeste Asiático. Depois vem Lopburi, com seus macacos famosos. Mais ao norte, a paisagem muda. As planícies cedem lugar a morros, a vegetação fica mais densa, e quando você acorda no trem noturno e espia pela janela, já está em território completamente diferente do caos urbano de Bangkok.

Tem algo de mágico em acordar com o trem desacelerando, ver o sol nascer sobre campos de arroz pelo vidro embaçado e perceber que você está chegando numa cidade que nunca conheceu. É um tipo de chegada que um aeroporto jamais vai proporcionar.


A Rota Sul: Para Quem Quer Praias Sem Pressa

Pegar o trem noturno até Surat Thani e depois pegar o ferry para Koh Samui ou Koh Phangan é um clássico. A viagem de Bangkok a Surat Thani dura em torno de 12 a 13 horas. Você embarca à noite, dorme no trem, e acorda na cidade costeira pronto para pegar o barco.

É o roteiro perfeito para quem quer economizar dinheiro e ao mesmo tempo não perder tempo útil de viagem. Sem pagar diária de hotel para dormir, sem stresse de aeroporto. Você simplesmente acorda na praia.

A linha sul também conecta Bangkok a Hat Yai, perto da fronteira com a Malásia. Alguns viajantes fazem a travessia até Penang por essa rota — são cerca de 18 horas de viagem, incluindo a parada na imigração. Não é para qualquer um, mas é uma aventura e tanto para quem gosta de viagem terrestre de verdade.


Comprar a Passagem: Como Funciona na Prática

O jeito mais direto é acessar o site da SRT ou usar plataformas como o 12Go Asia, que é em português e facilita muito a vida de quem não quer lidar com o site oficial em tailandês. O 12Go cobra uma taxa extra em relação ao preço de balcão — às vezes uns 50 a 300 baht a mais — mas a praticidade compensa, especialmente para quem está planejando com antecedência de fora do país.

Comprar com antecedência é importante, principalmente nos trens noturnos. As sleeper de segunda classe na rota Bangkok–Chiang Mai esgotam rápido em alta temporada, especialmente nos finais de semana. Já vi pessoas ficarem sem lugar por terem deixado para última hora e acabarem pagando mais caro num vôo ou esperando um dia inteiro pela próxima saída.

Na chegada a Bangkok, dá pra comprar na bilheteria da estação sem muito drama, especialmente para trajetos curtos como Bangkok–Ayutthaya. Mas para as rotas longas, vale não arriscar.

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Alimentação a Bordo: Melhor do que Você Espera

Os trens noturnos têm vagão-restaurante com cardápio básico de comida tailandesa — macarrão, arroz frito, frango — com preços um pouco acima do normal, mas nada absurdo. O serviço de jantar e café da manhã é servido no próprio vagão para quem está nos sleepers. A comida é razoável. Não é o melhor pad thai da sua vida, mas é quente e te sustenta bem.

A dica que sempre dou: leve sua própria água e alguns lanchinhos. As lojas de conveniência 7-Eleven são onipresentes em Bangkok e em qualquer estação maior — abasteça antes de embarcar. Não por necessidade extrema, mas por conforto. Nas longas horas noturnas, ter um petisco na mão enquanto você lê ou ouve música com o trem balançando é um prazer pequeno, mas real.


O que Ninguém Conta Sobre Viajar de Trem na Tailândia

Os trens atrasam. Com frequência. Às vezes 30 minutos, às vezes duas horas. Isso é um fato aceito por quem viaja por lá regularmente. Se você tem uma conexão apertada — um vôo, um ferry com horário fixo — calcule uma margem generosa. Ou melhor, não dependa do trem para conexões críticas.

O ar-condicionado dos vagões de segunda classe às vezes exagera no frio. Pode parecer piada, mas num país onde a temperatura externa fica entre 28 e 35 graus, a sensação dentro de alguns vagões é de câmara fria. Leve um casaco ou uma manta leve. Sério.

E tem o balançar. Os trilhos são antigos em muitos trechos, e o trem balança com uma regularidade que muitos acham hipnótica e outros acham nauseante. Se você tem tendência a enjoar, tome uma precaução antes de embarcar.

Mas há algo de muito bom nessa imperfeição toda. Você não está numa máquina eficiente e asséptica que te transporta de ponto A a ponto B sem nenhuma fricção. Você está num trem de verdade, no interior de um país fascinante, e o trajeto em si já é parte do que você veio buscar.


O Trem Noturno Como Filosofia de Viagem

Tem um tipo de viajante que eu admiro — aquele que entende que chegar não é o único objetivo. Que o meio de transporte pode ser a própria atração. Que uma noite no trem sleeper entre Bangkok e Chiang Mai, com a cortininha balançando e as luzes das cidades pequenas passando pela janela, vale tanto quanto qualquer templo ou mercado noturno.

O trem tailandês não vai ser o mais pontual. Vai atrasar, vai balançar, o ar-condicionado vai ser excessivo, o café da manhã servido no seu beliche às 6h da manhã vai ter um sabor duvidoso. Mas quando você espia pela janela e vê as montanhas do norte despontando no horizonte enquanto o sol nasce, nenhum aeroporto do mundo teria te dado isso.

É barato. É seguro. É autêntico. E é, ao mesmo tempo, uma das experiências mais tailandesas que você pode ter — sem precisar ir a nenhum show de elefantes nem pagar ingresso para nada. Só comprar a passagem, jogar a mochila no bagageiro, e deixar o país passar pela janela enquanto você dorme.

Se a Tailândia está no seu roteiro, o trem merece estar também. Não como plano B. Como escolha deliberada.

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