Como é o Trem Fujisan Express no Japão
O Fuji Excursion é o único trem direto que liga Tóquio ao Monte Fuji sem baldeação, e a experiência a bordo vale tanto quanto o destino final.

Quando alguém me pergunta qual é o jeito mais bonito de chegar ao Monte Fuji saindo de Tóquio, eu nem penso duas vezes. Respondo na hora: pega o Fuji Excursion. Não é o mais barato, não é necessariamente o mais rápido se você considerar o ônibus rodoviário, mas é de longe o mais interessante. E no Japão, onde trens são quase uma religião, viajar num desses é parte fundamental da experiência.
Existe uma confusão comum entre viajantes brasileiros — e eu mesmo já caí nessa — que é misturar os nomes dos trens da região do Fuji. Tem o Fuji Excursion (chamado de Fuji Kaiyu em japonês, 富士回遊), tem o Fujisan View Express e tem o antigo Fujisan Express. São trens diferentes, operados em trechos que se sobrepõem, mas com propostas distintas. Vou esclarecer tudo isso aqui porque, quando você está planejando o roteiro, essa diferença importa.
Klook.comComo funciona o Fuji Excursion na prática
O Fuji Excursion é um trem limited express que sai da estação de Shinjuku, em Tóquio, e vai direto até a estação de Kawaguchiko, na base do Monte Fuji, sem precisar trocar de trem em nenhum momento. Esse é o grande diferencial. Antes de esse serviço existir — ele começou a operar em março de 2019 — você precisava pegar um trem JR até Otsuki e ali fazer baldeação para a linha da Fujikyu Railway. Funcionava, mas era um processo a mais, e qualquer pessoa que já andou de trem no Japão carregando mala sabe que cada troca de plataforma pode virar uma pequena aventura.
A viagem toda leva cerca de 1 hora e 53 minutos. É rápido quando você pensa que está saindo de uma das maiores metrópoles do mundo e chegando a 857 metros de altitude, na beira de um dos lagos mais fotogênicos do planeta. O trem faz paradas em Tachikawa, Hachioji, Otsuki, Tsuru-bunkadaigaku-mae, Shimoyoshida, Fujisan (a estação do Monte Fuji), Fujikyu Highland e finalmente Kawaguchiko.
O que acontece na prática é o seguinte: entre Shinjuku e Otsuki, o Fuji Excursion viaja acoplado ao trem limited express Kaiji ou Azusa da JR East. São três vagões (carros 1, 2 e 3) que seguem junto com o restante da composição. Em Otsuki, esses três vagões se desacoplam e continuam sozinhos pela linha da Fujikyu Railway até Kawaguchiko. É fascinante ver essa operação. O trem para, você ouve uns cliques mecânicos, e de repente metade da composição segue em frente enquanto seus vagões tomam outro rumo, subindo a montanha.
Quanto custa e como comprar
O valor do trecho completo Shinjuku–Kawaguchiko é de ¥4.130 (por volta de R$ 140 a R$ 160, dependendo do câmbio). Esse valor inclui a tarifa básica de ¥2.510 e a taxa do expresso limitado de ¥1.620. Se você descer em Shimoyoshida, em vez de ir até o final da linha, paga um pouco menos: ¥3.940.
Agora vem uma parte importante, e que gera muita dúvida: o Japan Rail Pass cobre apenas o trecho operado pela JR, ou seja, de Shinjuku até Otsuki. De Otsuki até Kawaguchiko, que é operado pela Fujikyu Railway, você precisa pagar separadamente. Porém, se você tiver o JR TOKYO Wide Pass, a história muda. Esse passe cobre a rota inteira, de Shinjuku até Kawaguchiko. É uma diferença crucial que muita gente descobre só na hora, já dentro do trem, quando o fiscal passa e pede o bilhete complementar.
A compra dos bilhetes pode ser feita de algumas formas. A mais simples para turistas estrangeiros, atualmente, é pelo sistema de e-ticket da JR East ou por plataformas como a Klook, onde você recebe um QR code e retira o bilhete nas máquinas da estação. Também dá para comprar direto na bilheteria de Shinjuku, mas sinceramente, recomendo comprar antecipado. O Fuji Excursion tem apenas três vagões e todos os assentos são reservados. Em alta temporada — especialmente na primavera com as cerejeiras e no outono com as folhas avermelhadas — os trens esgotam rápido. Já vi gente que chegou cedo na estação achando que ia conseguir lugar e teve que esperar o próximo horário.
Klook.comOs horários que você precisa conhecer
Atualmente, o Fuji Excursion opera quatro viagens de ida e quatro de volta nos dias de semana, com um trem extra em períodos de alta demanda. As saídas de Shinjuku acontecem às 7h30, 8h30, 9h30 e 10h30. O trem das 7h30 é o mais disputado entre os turistas que querem um dia inteiro na região do Fuji.
No sentido inverso, as saídas de Kawaguchiko são às 14h09, 15h00, 16h49 e 17h40. Esse último trem, o das 17h40, é o que eu sempre pego. Dá tempo de curtir o pôr do sol no lago e ainda voltar para Tóquio num horário civilizado. Chega a Shinjuku por volta das 19h47.
A combinação ideal, na minha experiência, é sair no trem das 8h30 e voltar no das 17h40. Isso te dá praticamente um dia inteiro na região, com tempo de sobra para visitar o lago Kawaguchi, tomar um café com vista para o Fuji, e talvez até dar um pulo no Chureito Pagoda se você for rápido.
A diferença entre Fuji Excursion, Fujisan View Express e o antigo Fujisan Express
Aqui está o ponto que confunde muita gente. O Fuji Excursion é o trem direto de Shinjuku a Kawaguchiko. Ele usa composições E353 da JR East, que são modernas, confortáveis, com ar-condicionado impecável e poltronas reclináveis.
Já o Fujisan View Express é outra coisa. Esse trem opera exclusivamente na linha da Fujikyu Railway, entre Otsuki e Kawaguchiko. Ele foi desenhado pelo famoso designer Eiji Mitooka — o mesmo que projetou o luxuoso Seven Stars em Kyushu — e tem um interior todo em madeira, com janelas panorâmicas enormes. É lindo. Parece que você entrou num café europeu sobre trilhos. A viagem é mais curta, cerca de 45 minutos, mas é uma experiência estética diferente.
O antigo Fujisan Express (フジサン特急) era outro trem temático da Fujikyu Railway, com decoração que remetia ao Monte Fuji, incluindo vagões coloridos com ilustrações da montanha. Ele foi descontinuado e substituído justamente pelo Fujisan View Express. Se você encontrar referências ao “Fujisan Express” em blogs mais antigos, saiba que esse serviço não existe mais na forma original.
Então, para resumir: se você está saindo de Tóquio e quer o caminho mais prático, vai de Fuji Excursion. Se já está em Otsuki ou quer uma experiência mais contemplativa no trecho final, o Fujisan View Express é imperdível. E dá para combinar os dois — ir de Fuji Excursion e voltar fazendo o trecho Kawaguchiko–Otsuki no Fujisan View Express, e de Otsuki pegar um trem JR normal de volta a Tóquio. Já fiz isso e recomendo.
Klook.comA bordo: o que esperar durante a viagem
O Fuji Excursion não é um trem turístico no sentido clássico. Não tem vagão-restaurante, não tem janelas panorâmicas de teto a chão. Mas é extremamente confortável. As poltronas são espaçosas — coisa rara para quem vem acostumado com os trens apertados do metrô de Tóquio —, os encostos reclinam, e há tomadas nos assentos, o que é uma bênção depois de um dia fotografando tudo.
O trecho entre Shinjuku e Otsuki é urbano e suburbano. Você vê a cidade de Tóquio se diluir em bairros residenciais, depois em montanhas. A paisagem muda de forma gradual. Quando o trem entra na linha da Fujikyu Railway, depois de Otsuki, é que a coisa fica interessante. A vegetação fecha, os túneis aparecem, e de repente, entre uma curva e outra, o Monte Fuji aparece pela janela. Não é todo dia que isso acontece — nuvens são frequentes, especialmente à tarde — mas quando a montanha está limpa, é daqueles momentos em que todo mundo no vagão para o que está fazendo e pega o celular.
Uma dica que poucos mencionam: sente do lado esquerdo do trem na ida (sentido Shinjuku → Kawaguchiko). É desse lado que você tem as melhores vistas do Monte Fuji quando o trem faz as curvas na subida. Na volta, o lado direito.
Chegando em Kawaguchiko: e agora?
A estação de Kawaguchiko é pequena, charmosa e funcional. Saindo dela, você está literalmente na porta de uma das regiões mais bonitas do Japão. O Lago Kawaguchi fica a poucos minutos a pé, e há ônibus locais que levam para pontos como o Tenjozan Park (de onde se avista o famoso Chureito Pagoda com o Fuji ao fundo), o Music Forest Museum e os diversos onsen (termas) da região.
Eu sempre sugiro que quem vai até lá reserve pelo menos uma noite. Um bate-volta é possível e muita gente faz, mas a mágica da região do Fuji está nos horários extremos. De madrugada, quando o lago está parado e o reflexo da montanha na água parece uma pintura. Ou no final da tarde, quando o sol pinta o cume de laranja. Esses momentos não cabem num bate-volta apertado.
Se for ficar, a região de Kawaguchiko tem opções que vão de hostels econômicos a ryokans (pousadas tradicionais japonesas) com onsen privativos e vista para o Fuji. Já me hospedei num ryokan onde a banheira do quarto ficava de frente para a montanha. Caro? Sim. Inesquecível? Completamente.
Quando ir: a questão das estações
Cada estação do ano oferece algo diferente na região do Fuji, e isso impacta diretamente sua experiência no trem também.
A primavera (março a maio) é a mais procurada. As cerejeiras ao redor do Lago Kawaguchi florescem e criam aquelas molduras cor-de-rosa que parecem irreais. O Fuji Excursion lota nessa época. Reserve com a maior antecedência possível.
O verão (junho a agosto) é a temporada de escalada do Monte Fuji. A visibilidade da montanha diminui bastante por causa da umidade e das nuvens, mas a região fica vibrante de atividades. Julho e agosto têm trens extras no horário.
O outono (setembro a novembro) é, na minha opinião, a melhor época. As folhagens vermelhas e douradas ao redor do lago são de tirar o fôlego, e a visibilidade do Fuji melhora consideravelmente conforme o ar seca. O chamado Momiji (紅葉) na região de Kawaguchiko é um dos mais bonitos do Japão.
O inverno (dezembro a fevereiro) tem a vantagem do céu limpo. É quando a montanha aparece com mais frequência, coberta de neve, contrastando com o azul do céu. O frio é sério — temperaturas podem cair abaixo de zero —, mas a clareza das vistas compensa.
Dicas práticas que fazem diferença
Algumas coisas que aprendi na prática e que acho importante compartilhar:
Compre um ekiben. Ekiben são as marmitas vendidas nas estações de trem do Japão, e as de Shinjuku são excelentes. Não há vagão-restaurante no Fuji Excursion, então leve sua comida. É perfeitamente aceitável — e esperado — comer dentro do trem. Uma boa ekiben, uma latinha de chá verde e a paisagem passando pela janela. Isso é Japão.
Carregue seu IC card. Se você tem um Suica ou Pasmo, ele vai ser útil nos ônibus locais em Kawaguchiko. O sistema de transporte lá aceita cartões IC, o que facilita muito a vida.
Não conte com internet no trem. O Wi-Fi a bordo é instável. Se você precisa de mapas ou informações, baixe tudo offline antes de embarcar. O Google Maps permite baixar mapas da região para uso offline, e isso me salvou mais de uma vez.
Preste atenção ao embarque. Em Shinjuku, o Fuji Excursion sai da plataforma de trens limited express, não das plataformas do metrô ou dos trens locais. Chegue com pelo menos 15 minutos de antecedência. A estação de Shinjuku é um universo próprio — são mais de 50 plataformas — e se perder ali é quase um rito de passagem para qualquer viajante.
Sobre o Fujikyu Highland. O trem para no Fujikyu Highland, que é um parque de diversões famoso pelas montanhas-russas radicais. Se você viaja com crianças ou adolescentes, pode valer a parada. O parque fica literalmente ao lado da estação. Pessoalmente, prefiro ir direto para Kawaguchiko, mas é uma opção.
Vale a pena comparado ao ônibus?
Essa é uma pergunta que recebo sempre. O ônibus highway de Shinjuku até Kawaguchiko custa cerca de ¥2.200, quase metade do preço do trem. O tempo de viagem é similar: por volta de 1h45 a 2h15, dependendo do trânsito. Então, em termos puramente econômicos, o ônibus ganha.
Mas o trem oferece coisas que o ônibus não oferece. Pontualidade japonesa — o Fuji Excursion não atrasa. Nunca. Espaço para se movimentar. A possibilidade de ir ao banheiro sem pedir para o motorista parar. E a experiência em si, que é diferente. Andar de trem no Japão é cultural. É algo que se faz não apenas para chegar a um lugar, mas como parte da viagem.
Eu já fui de ônibus também, e é perfeitamente funcional. Mas quando posso escolher, escolho o trem. A não ser que eu esteja com o orçamento muito apertado — e nesse caso, o ônibus é a escolha inteligente sem culpa nenhuma.
O Fujisan View Express: a cereja do bolo
Se você quer transformar sua viagem de trem ao Monte Fuji em algo realmente especial, reserve um trecho no Fujisan View Express. Esse trem, desenhado por Eiji Mitooka, opera apenas entre Otsuki e Kawaguchiko, e é uma obra de arte sobre trilhos. O interior todo em madeira clara, com janelas amplas, cria uma atmosfera que mistura modernidade e tradição japonesa.
Ele faz duas viagens de ida e volta nos dias de semana e três nos finais de semana. O trecho de 26,6 quilômetros leva cerca de 45 minutos. A tarifa é de ¥1.540 para o bilhete simples.
O que torna o Fujisan View Express especial não é velocidade nem praticidade — é a contemplação. As janelas são posicionadas para maximizar a vista. Os assentos são confortáveis e voltados para as paisagens. E quando o Monte Fuji aparece, parece que o trem foi projetado exatamente para aquele momento.
Uma combinação que eu gosto muito: ir de Fuji Excursion de manhã (direto de Shinjuku), passar o dia em Kawaguchiko, e no final da tarde pegar o Fujisan View Express de volta até Otsuki, onde você conecta com um trem JR para Tóquio. São duas experiências ferroviárias diferentes no mesmo dia, cada uma com seu charme.
O trecho Otsuki–Kawaguchiko pela janela
Independentemente de qual trem você pegue, o trecho entre Otsuki e Kawaguchiko é o que realmente importa em termos de paisagem. A linha da Fujikyu Railway serpenteia por vales estreitos, cruza pontes sobre rios de montanha, entra e sai de túneis curtos. A vegetação muda conforme a altitude sobe. E quando o trem finalmente sai de um último trecho arborizado e o Fuji aparece inteiro, ocupando metade do horizonte, é impossível não sentir algo.
Eu já fiz esse trecho umas sete ou oito vezes. Nunca cansa. Em parte porque a montanha nunca é a mesma — muda com a luz, com as nuvens, com a estação. Em parte porque a própria viagem tem um ritmo que acalma. O trem sobe devagar, as curvas são suaves, e há algo de meditativo naquele balanço.
Para quem está montando roteiro
Se você está planejando uma viagem ao Japão e quer incluir o Monte Fuji, aqui vai uma sugestão de como encaixar o Fuji Excursion no roteiro:
Separe um dia inteiro — ou, melhor ainda, uma noite — para a região. Saia de Tóquio pela manhã no trem das 8h30. Chegue a Kawaguchiko por volta das 10h27. Explore o lago, almoce num restaurante com vista para o Fuji (hoto — uma espécie de udon grosso cozido em panela de ferro — é a especialidade local e é reconfortante demais). À tarde, visite o Chureito Pagoda ou faça um passeio de barco pelo lago. Se for ficar, aproveite o onsen do seu hotel ao final do dia. Se for voltar, pegue o trem das 17h40 e esteja em Shinjuku às 19h47, a tempo de jantar em Shinjuku ou Shibuya.
Essa viagem funciona tanto para quem está numa primeira ida ao Japão quanto para quem já conhece Tóquio e Kyoto e quer algo diferente. O Monte Fuji é daqueles lugares que todo mundo reconhece em foto, mas estar lá, de verdade, com o ar frio da montanha no rosto e a água do lago refletindo o cume nevado — isso não se reproduz em tela nenhuma.
E chegar lá de trem, vendo a cidade virar campo e o campo virar montanha, é a introdução perfeita para essa experiência. O Fuji Excursion não é só um meio de transporte. É o primeiro capítulo de uma história que o Monte Fuji vai contar para você.