Como é Fazer Turismo em Hakone no Japão

Hakone, o lugar no Japão que vai fazer você repensar tudo o que você acha que sabe sobre viagem.

Foto de Daniel Erlandson: https://www.pexels.com/pt-br/foto/caminho-sereno-atraves-do-portao-hakone-torii-31252456/

Hakone não é simplesmente um destino turístico. É uma experiência que mistura vulcões ativos, águas termais centenárias, arte contemporânea no meio da floresta e a visão do Monte Fuji refletido num lago de caldera — tudo isso a menos de duas horas de Tóquio. Para quem está planejando o primeiro Japão ou já foi e quer ir mais fundo, esse lugar é, sem exagero, um dos mais completos do país.

A região fica na prefeitura de Kanagawa, no sudoeste, e faz parte do Parque Nacional Fuji-Hakone-Izu. O que chama atenção logo de cara é que Hakone não funciona como um destino estático — você não chega, pega um ponto turístico e vai embora. O lugar foi desenhado, quase que naturalmente, para ser percorrido em circuito. Trem de cremalheira, teleférico, bondinho de cabo, barco a vapor num lago vulcânico. Cada modal de transporte é, por si só, parte do passeio. Quem entende isso aproveita muito mais.


Como chegar — e por que o Hakone Free Pass muda tudo

A maioria das pessoas parte de Tóquio, mais especificamente da estação Shinjuku. O trem da linha Odakyu leva até Hakone-Yumoto, que é o ponto de entrada da região. Há duas opções: o trem local, mais barato e mais lento, ou o Romancecar, expresso com assentos reservados e janelas panorâmicas, que faz o trecho em algo entre 75 e 90 minutos. A diferença de preço é de cerca de 1.300 ienes — e vale cada centavo, especialmente se for a primeira vez.

Mas o grande segredo para quem quer otimizar a viagem é o Hakone Free Pass, da Odakyu. Em 2025, o passe de 2 dias está sendo vendido por 6.100 ienes e cobre a viagem de ida e volta a partir de Shinjuku, além de uso ilimitado dos trens internos de Hakone, ônibus, bondinho, teleférico e o cruzeiro no Lago Ashi. Para ter uma ideia, só o teleférico custa 2.000 ienes sozinho. O passe ainda dá desconto em várias atrações. É o tipo de coisa que, se você não souber que existe, acaba gastando bem mais sem precisar.


1. Lago Ashi — onde a fotografia e a espiritualidade se encontram

O Lago Ashi, ou Ashinoko, é o coração geográfico e emocional de Hakone. Formado pela caldera de um vulcão extinto há milares de anos, o lago tem uma cor e uma profundidade que parecem fora do comum — principalmente nas manhãs frias de inverno, quando o ar é cristalino e o Monte Fuji aparece sem nuvens no horizonte, refletido na água.

A imagem mais icônica do lugar é o torii vermelho do Santuário Hakone, em Motohakone, com o Fuji ao fundo. É daquelas fotografias que você vê em guia de viagem, pensa “deve ser editada”, e chega lá e descobre que é exatamente assim. O truque é ir cedo. O sol da manhã bate de frente na parte mais fotogênica e as chances de céu limpo são maiores antes do meio-dia, especialmente entre outubro e fevereiro.

O passeio de barco pelo lago é outra história. Os navios temáticos — galeões de época, réplica de barcos piratas medievais europeus — atravessam o lago de Togendai até Moto-Hakone ou Hakone-machi. Parece brega na descrição, mas na prática é uma maneira preguiçosa e agradável de ver a paisagem enquanto o barco desliza entre as margens cobertas de floresta. Com o Free Pass, isso já está incluído.


2. Ōwakudani — dentro de um vulcão que ainda respira

Se o Lago Ashi tem uma certa leveza quase meditativa, Ōwakudani é o oposto absoluto. A paisagem lá em cima parece pós-apocalíptica de um jeito fascinante: fumarolas de enxofre brotam do chão por todos os lados, a vegetação desaparece, as pedras têm uma coloração estranha entre cinza e amarelo, e o cheiro de ovo cozido toma conta do ar logo que você sai da cabine do teleférico.

A área fica numa das partes mais ativas geologicamente de Hakone, e há monitoramento constante dos níveis de atividade vulcânica. Em alguns períodos, quando os índices sobem, o acesso à área de observação mais próxima fica restrito — o que significa que planejar com antecedência e checar as condições antes de ir faz diferença.

O que mais atrai turistas por lá são os kuro-tamago, os ovos cozidos pretos. A casca escurece por reação química com os minerais do vapor de enxofre durante o cozimento. A lenda local diz que cada ovo que você come adiciona sete anos à sua vida. Eles vêm embalados em grupos de cinco e têm um gosto completamente normal de ovo cozido. Mas a experiência de comer um ali, no meio da névoa sulfurosa, com vista para as montanhas — isso é outra coisa.

Também fica ali o Hakone Geomuseum, visível nas fotos com sua fachada escura e discreta. Quem se interessa por geologia vai gostar; quem não se interessa vai achar razoável. Mas o grande museu de Hakone é o próprio terreno lá fora.


3. Hakone-Yumoto — a cidade das águas termais e dos ryokan

Hakone-Yumoto é o ponto de chegada da maioria dos visitantes e, por isso, costuma ser subestimada. As pessoas chegam, trocam de trem e seguem em frente sem dar muita atenção à cidade. É um erro. Principalmente para quem está num roteiro de pernoite.

A cidade existe há séculos como destino de onsen — as fontes termais naturais que são talvez o elemento mais profundamente japonês de toda a cultura do país. Ficar numa ryokan em Hakone-Yumoto é mergulhar nessa tradição de uma forma que nenhum hotel convencional consegue replicar: quarto com tatame, refeição kaiseki servida no quarto, yukata para circular pelo corredor, e o banho termal coletivo ou privativo com água que sobe direto do subsolo vulcânico.

As tinas de madeira de hinoki — um cedro japonês de aroma inconfundível — são a imagem mais reconhecível desse universo. A água tem temperatura elevada, geralmente entre 40°C e 43°C, e a recomendação é entrar devagar. O ritual do banho termal japonês tem suas regras: corpo limpo antes de entrar, nada de roupas de banho nas banheiras comunitárias, silêncio e calma. Parece muita coisa quando você lê. Na prática, você entra na água quente, olha para a floresta verde e a montanha do lado de fora, e em cinco minutos entende exatamente por que os japoneses constroem toda uma filosofia em torno disso.

Além dos ryokan, a rua principal de Hakone-Yumoto tem lojas de souvenirs, doces locais e uma loja oficial de Evangelion — o anime tem uma relação específica com Hakone, que serve de inspiração para parte do enredo. Para os fãs da série, há referências espalhadas pela cidade toda.


4. Hakone Ropeway — o teleférico com vista para o fim do mundo

O teleférico de Hakone — o Hakone Ropeway — faz o trecho entre Sounzan e Togendai, passando por Ōwakudani. São aproximadamente 30 minutos de percurso total, com cabines que partem a cada minuto e comportam cerca de dez pessoas cada.

A primeira parte, entre Sounzan e Ōwakudani, oferece a visão das fumarolas lá embaixo — um cenário que causa genuína estranheza. A segunda metade, de Ōwakudani até Togendai, abre para uma vista completamente diferente: o Lago Ashi aparece lá embaixo, e em dias claros o Monte Fuji surge ao fundo com aquela silhueta cônica e coberta de neve que você reconhece mesmo sem nunca ter visto ao vivo.

O teleférico tem horário de operação das 9h às 16h45 (com fechamento mais cedo em dezembro e janeiro), e está sujeito a suspensões por condições climáticas ou manutenção periódica — o site oficial do Hakone Ropeway publica calendários de manutenção com antecedência, então vale checar antes de montar o roteiro. Em períodos de manutenção, ônibus substitutos cobrem o trecho, mas evidentemente a experiência não é a mesma.

Um detalhe que viajantes frequentemente ignoram: a direção que você faz o percurso importa. Fazer de Sounzan para Togendai (ou seja, no sentido Tóquio → lago) é o percurso mais natural dentro do circuito clássico de Hakone. Ir na direção contrária funciona, mas você chega ao teleférico vindo do barco — o que também tem sua lógica se você estiver construindo o roteiro de trás para frente.


5. Hakone Open-Air Museum — arte contemporânea no meio da floresta

O Hakone Open-Air Museum, localizado em Ninotaira, foi o primeiro museu ao ar livre do Japão, inaugurado em 1969. Mais de cinquenta anos depois, continua sendo um dos mais visitados do país — e com razão.

O conceito é aparentemente simples: esculturas modernas e contemporâneas distribuídas num jardim de 70.000 m² com as montanhas de Hakone como cenário natural. Ao todo são cerca de 120 obras permanentes, assinadas por artistas do calibre de Henry Moore, Auguste Rodin e Fumio Asakura. Mas o que transforma o museu numa experiência de verdade é a relação entre as obras e o espaço — você caminha entre árvores, sobe uma leve elevação, dobra uma curva e de repente está diante de uma escultura de bronze que dialoga com a névoa e as montanhas ao fundo de um jeito que nenhum museu fechado conseguiria replicar.

A instalação mais instagramável — e inevitável de mencionar — é a Symphonic Sculpture, uma torre recoberta de vitrais coloridos que você pode subir por dentro. A luz filtrada pelo vidro colorido muda dependendo da hora do dia e do tempo lá fora. É bonito de verdade, não só para foto. Tem também o Woods of Net, uma rede suspensa e estruturada onde crianças sobem e adultos relutantemente admitem que também querem subir.

Há ainda o Pavilhão Picasso, com mais de 300 obras do artista — incluindo pinturas, cerâmicas e esculturas — numa coleção que é, por si só, justificativa de visita. E um banho de pés termal no meio do jardim, porque Hakone sendo Hakone, a água quente natural aparece até no museu.

O ingresso custa 2.000 ienes para adultos (1.800 ienes se comprado online com antecedência). O museu funciona todos os dias do ano, das 9h às 17h. O acesso mais fácil é pela estação Chokoku-no-Mori, da Hakone Tozan Railway — são dois minutos a pé.


Quanto tempo ficar e quando ir

Hakone pode ser feita em um dia, se o roteiro for bem planejado e a sorte com o clima estiver do lado. Mas uma ou duas noites transformam a experiência de forma significativa. A diferença entre cruzar o lugar em ritmo acelerado e acordar numa ryokan de madrugada para um banho termal sob as estrelas é simplesmente incomensurável.

Em termos de época, o outono japonês — entre outubro e novembro — é o período mais disputado, com as folhagens vermelhas e douradas cobrindo as encostas. A primavera tem as cerejeiras. O inverno, que vai de dezembro a fevereiro, tem dias frios mas é quando o céu está mais limpo e as chances de ver o Monte Fuji sem nuvens são maiores. O verão tem um charme diferente, com o calor amenizando na altitude, mas a névoa é frequente e esconde o Fuji boa parte do tempo.

Uma dica prática: os fins de semana são consideravelmente mais movimentados do que os dias de semana. Se houver flexibilidade de agenda, ir de segunda a quinta faz diferença visível nas filas do teleférico, no cruzeiro e nos principais pontos.


O detalhe que faz toda a diferença

Existe uma lógica geográfica em Hakone que, quando você entende, tudo se encaixa. O circuito clássico começa em Hakone-Yumoto, sobe de trem até Gora, pega o bondinho até Sounzan, faz o teleférico sobre Ōwakudani até Togendai, embarca no barco pelo Lago Ashi até Moto-Hakone, e de lá pega ônibus de volta. Cada conexão foi pensada para ser feita em sequência, como capítulos de uma história.

Quem tenta fazer tudo fora dessa ordem, improvisando no meio do caminho, tende a perder tempo — ou acaba viajando de ônibus por 90 minutos em pé enquanto tenta não esbarrar nos outros passageiros com a mochila. A história dos que erraram o circuito é quase um ritual de passagem entre os viajantes que já foram a Hakone.

Hakone é o tipo de lugar que parece pequenonos mapas e enorme quando você está dentro dele. Tem natureza, tem cultura, tem arte, tem gastronomia, tem espiritualidade e tem aquela estranheza geológica que te faz lembrar que você está num arquipélago vulcânico do outro lado do mundo. Não é um destino para quem quer ver muita coisa. É para quem quer sentir uma coisa de verdade.

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