Como é a Experiência do Ano Novo Chinês na China
Quem nunca viveu o Ano Novo Chinês dentro da China dificilmente consegue imaginar a dimensão dessa festa — e eu falo isso porque pisei pela primeira vez em solo chinês justamente uma semana antes do Festival da Primavera, sem ter a menor noção do que estava por vir.

A primeira coisa que percebi foi o movimento nas ruas. Não aquele movimento comum de uma metrópole asiática, mas algo diferente, quase caótico, com um senso de urgência no ar. Estava em Pequim e as pessoas carregavam sacolas enormes, caixas, presentes embrulhados em vermelho. Os mercados transbordavam, as estações de trem pareciam formigueiros humanos. Foi quando entendi que estava prestes a testemunhar a maior migração humana do planeta.
O Ano Novo Chinês não acontece em 1º de janeiro como estamos acostumados. Ele segue o calendário lunar e pode cair entre o final de janeiro e meados de fevereiro. Em 2026, por exemplo, a virada acontece no dia 29 de janeiro, marcando a entrada do Ano do Cavalo de Fogo. Mas a celebração não dura apenas uma noite. São quinze dias de festividades que começam na véspera e culminam no Festival das Lanternas.
Quando cheguei ao hostel onde estava hospedado, a recepcionista me alertou: “Se você quer viajar durante o Festival da Primavera, compre suas passagens agora. Depois será impossível.” Ela não estava exagerando. Centenas de milhões de chineses deixam as grandes cidades para voltar às suas cidades natais, encontrar a família, celebrar juntos. É o momento mais importante do ano para eles, algo equivalente ao nosso Natal, só que multiplicado por dez.
Nos dias que antecederam a virada, Pequim começou a se transformar. As lojas penduraram lanternas vermelhas gigantes, os caracteres 福 (fu, que significa “boa sorte” ou “felicidade”) apareciam colados em todas as portas, muitas vezes de cabeça para baixo — uma tradição que joga com as palavras, porque “de cabeça para baixo” soa como “chegou” em mandarim. Então, 福 invertido significa que a sorte chegou.
As ruas ganharam decorações elaboradas, dragões dourados, luzes que piscavam ao ritmo de músicas tradicionais que tocavam em loop nas lojas. O vermelho dominava tudo. Vermelho nos envelopes que as pessoas trocavam (os famosos hongbao, recheados de dinheiro), vermelho nas roupas, nos cartazes, nos enfeites. Vermelho porque é a cor da sorte, da prosperidade, capaz de afastar os maus espíritos.
Decidi ficar em Pequim durante a virada mesmo, em vez de viajar para outra cidade. Queria sentir a atmosfera da capital nesse momento tão específico. E foi surreal. A cidade esvaziou. As avenidas largas, normalmente congestionadas, ficaram desertas. Lojas fecharam. Restaurantes também. Apenas alguns poucos estabelecimentos permaneceram abertos, geralmente administrados por famílias que não tinham para onde ir ou por migrantes que optaram por não viajar.
Na véspera do Ano Novo, fui convidado por um colega chinês que conheci num tour para jantar com sua família. Ele morava com os pais, os avós e uma tia num apartamento modesto no distrito de Chaoyang. Foi uma das experiências mais reveladoras que tive na China.
A preparação do jantar de Ano Novo é um ritual em si. A família inteira se envolve. Eles prepararam jiaozi, os bolinhos tradicionais que não podem faltar nessa data. A avó comandava a operação com precisão militar, ensinando a todos como dobrar a massa do jeito certo. Alguns jiaozi levavam uma moeda dentro, e quem encontrasse teria sorte extra no ano que estava começando.
A mesa estava absurdamente farta. Peixe inteiro (porque a palavra “peixe” soa como “abundância”), frango, pato assado, legumes refogados, sopas, bolinhos fritos e cozidos, tofu preparado de três formas diferentes, arroz grudento com tâmaras. A ideia é que nada falte, que sobre comida, simbolizando prosperidade para o ano todo.
O jantar começou por volta das sete da noite e se estendeu por horas. Não era só comer. Era conversar, brindar com baijiu (uma bebida alcoólica fortíssima que queima a garganta), assistir à gala do Ano Novo na TV — um programa gigantesco transmitido pela CCTV que praticamente toda a China assiste simultaneamente. São horas de apresentações musicais, danças, acrobacias, esquetes de comédia. Pode parecer careta para um estrangeiro, mas faz parte da tradição, e a família comentava cada número, ria junto, cantarolava as músicas.
À meia-noite, os fogos de artifício começaram. Não alguns fogos tímidos aqui e ali. Foi uma explosão ensurdecedora. A cidade inteira parecia estar soltando fogos ao mesmo tempo. Saímos para a rua e o céu estava completamente iluminado, vermelho, dourado, prateado. O barulho era tão intenso que mal conseguíamos conversar. As pessoas abraçavam umas às outras, desejavam felicidades, tiravam fotos. Crianças corriam com rodinhas de fogos na mão, idosos sorriam nas janelas.
Aquilo durou mais de meia hora sem parar. E não foi só na virada. Nos dias seguintes, os fogos continuaram, especialmente ao anoitecer. É uma forma de espantar os maus espíritos, de anunciar o novo ciclo com força e energia.
No primeiro dia do ano, as ruas ainda estavam vazias, mas as casas ferviam de atividade. As famílias visitam templos para rezar, fazer oferendas, pedir prosperidade. Fui ao Templo de Lama, um dos mais importantes de Pequim, e estava lotado. Filas quilométricas de pessoas com incensos na mão, esperando a vez de entrar, fazer suas preces, depositar suas esperanças no ano que se iniciava.
O cheiro de incenso era tão forte que ficava impregnado na roupa. As pessoas se curvavam diante das estátuas de Buda, batiam a testa no chão, murmuravam orações. Havia uma seriedade, uma devoção palpável. Não era turismo. Era fé genuína.
Durante os dias seguintes, fui conhecendo outras facetas da celebração. As famílias se visitam, sempre levando presentes. Os mais velhos distribuem os hongbao para as crianças e para os solteiros, uma tradição que agora também migrou para o digital através de aplicativos como o WeChat, onde as pessoas enviam “envelopes vermelhos virtuais” com dinheiro.
Tem uma etiqueta complexa em torno disso. Você não pode abrir o envelope na frente de quem te deu. Deve agradecer, guardar, abrir depois. E o valor importa menos que o gesto, embora existam convenções sobre quanto dar dependendo do grau de parentesco e da situação financeira.
Visitei o distrito de Nanluoguxiang, uma área tradicional com hutongs (becos antigos), e lá a atmosfera era diferente. Menos moderna, mais enraizada nas tradições. Havia apresentações de dança do dragão e do leão nas ruas. Grupos de performers vestidos com trajes elaborados manipulavam estruturas gigantes de dragões, fazendo-as dançar ao som de tambores e pratos. As crianças corriam atrás, maravilhadas. Comerciantes colocavam alfaces penduradas nas portas, e o leão “comia” a alface, cuspindo as folhas — um ritual para trazer boa sorte aos negócios.
A comida, durante esses dias, é um capítulo à parte. Além dos jiaozi onipresentes, experimentei niangao, um bolo de arroz pegajoso e adocicado cujo nome soa como “ano mais alto”, simbolizando progresso. Provei tangyuan, bolinhas de arroz glutinoso recheadas com pasta de gergelim preto ou amendoim, servidas em caldo doce, especialmente populares no Festival das Lanternas que encerra a celebração.
Cada região da China tem suas próprias tradições culinárias para o Ano Novo. No sul, comem mais niangao e tangyuan. No norte, os jiaozi reinam absolutos. Em algumas províncias, preparam peixes específicos. Em outras, porco assado é indispensável. Mas o princípio é o mesmo: fartura, sabor, simbolismo.
Uma das coisas que mais me surpreendeu foi a importância dos caracteres e das palavras. Os chineses jogam constantemente com homófonos e trocadilhos para atrair boa sorte. Por isso o peixe, por isso certos números, por isso determinadas cores. É uma cultura onde a linguagem transcende a comunicação e se torna ferramenta de proteção espiritual.
Durante o festival, evita-se varrer a casa nos primeiros dias do ano para não “varrer a sorte para fora”. Não se deve cortar o cabelo no primeiro mês lunar. Evitam-se palavras relacionadas à morte, ao azar, à doença. É impressionante como essas crenças permeiam o comportamento cotidiano, mesmo entre pessoas que se consideram modernas e urbanas.
Nos dias seguintes, conforme a cidade voltava lentamente à vida, percebi algo interessante. Havia uma energia renovada nas pessoas. Como se o festival funcionasse como um reset coletivo, uma pausa obrigatória que permitia recalibrar, reconectar com as raízes, com a família, com o que realmente importa.
Conversei com um taxista que voltara de sua cidade natal em Anhui. Ele me contou que viajara 18 horas de trem só para passar três dias com os pais idosos. “É o único momento do ano em que consigo vê-los”, disse. Aquilo me fez refletir sobre a velocidade da vida moderna chinesa, sobre os sacrifícios que milhões fazem para trabalhar nas grandes cidades, longe de casa.
O Festival das Lanternas, que fecha o ciclo no décimo quinto dia, é outro espetáculo. Fui ao Parque Beihai para ver as lanternas tradicionais. Milhares delas, de todos os tamanhos e formas, flutuando na água, penduradas nas árvores, formando túneis iluminados. Lanternas em forma de dragões, fênixes, flores de lótus, personagens históricos. Famílias passeavam lentamente, tiravam fotos, comiam tangyuan comprado nos vendedores ambulantes.
À noite, em algumas áreas, as pessoas soltam lanternas voadoras, aquelas de papel de seda com uma pequena vela dentro que as faz subir ao céu. É lindo e meio melancólico ver centenas delas subindo juntas, carregando os desejos das pessoas para o céu escuro.
Estar na China durante o Ano Novo Chinês é testemunhar uma das últimas grandes celebrações coletivas autênticas do mundo. Não é algo comercializado para turistas, embora turistas possam participar. É genuinamente chinês, profundamente enraizado em milênios de história e tradição.
Claro que a modernidade deixou suas marcas. Agora as pessoas enviam mensagens de felicitações pelo WeChat em vez de cartas. Os hongbao viraram digitais. Jovens em Xangai e Shenzhen celebram de forma diferente de seus avós no interior. Mas a essência permanece: família, renovação, gratidão, esperança.
Se você pretende viajar para a China durante esse período, precisa estar preparado. Os preços disparam. Hotéis, passagens aéreas, trens, tudo fica mais caro e lotado. Muitos estabelecimentos fecham, o que pode complicar a logística. Mas se conseguir se planejar, se aceitar os inconvenientes, a experiência compensa largamente.
Recomendo ficar numa cidade específica em vez de tentar viajar muito durante o festival. Escolha um lugar, mergulhe na atmosfera local, aceite convites se aparecerem. Os chineses, especialmente fora das grandes metrópoles turísticas, tendem a ser incrivelmente hospitaleiros com estrangeiros durante o Ano Novo. Vi isso em Pequim, vi isso depois em cidades menores que visitei.
Outra dica: aprenda pelo menos algumas frases básicas em mandarim relacionadas ao Ano Novo. “Xin nian kuai le” (feliz ano novo) e “gong xi fa cai” (desejo de prosperidade) abrem portas e sorrisos. As pessoas ficam genuinamente felizes quando um estrangeiro se esforça para participar das tradições.
É interessante também prestar atenção aos doze animais do zodíaco chinês, que se alternam a cada ano. Em 2026, é o Ano do Cavalo de Fogo, considerado um ano de energia intensa, movimento, coragem. Os chineses levam isso a sério. Muitos consultam astrólogos para saber como o ano afetará suas vidas, que precauções tomar, que oportunidades buscar.
Durante minha estadia, visitei uma velha senhora que lia a sorte numa ruazinha próxima ao Templo do Céu. Ela analisou minha data de nascimento, desenhou alguns caracteres, consultou um livro antigo e me deu conselhos sobre o ano. Não sei se acredito naquilo, mas a seriedade com que ela tratava o assunto me impressionou. Era conhecimento transmitido por gerações, uma forma de entender o mundo que persiste mesmo na era digital.
Outro aspecto fascinante é a Gala de Ano Novo da CCTV que mencionei antes. É assistida por mais de 700 milhões de pessoas simultaneamente, tornando-se provavelmente o programa de TV mais assistido do planeta. Pode parecer exagerado, mas faz parte do tecido cultural chinês. Famílias se reúnem em torno da TV, comentam os números, criticam ou elogiam os performers. É um ritual compartilhado nacionalmente.
Nos dias que passei com a família do meu colega, aprendi também sobre as limpezas rituais que precedem o Ano Novo. A casa precisa estar impecável antes da virada. É uma forma de varrer os azar es do ano velho, preparar o espaço para as energias positivas do ano novo. Eles limparam cada canto, lavaram cortinas, organizaram armários. Tudo precisava estar em ordem.
E tem os tabus. Descobri que não se deve usar roupa preta ou branca no primeiro dia do ano, porque são cores associadas a luto. O vermelho, o dourado, o rosa são preferíveis. Facas e tesouras devem ficar guardadas para não “cortar” a sorte. Não se empresta dinheiro. Não se quebra nada — e se algo quebrar acidentalmente, deve-se dizer imediatamente uma frase específica para neutralizar o mau agouro.
Essas superstições, que poderiam parecer antiquadas, convivem naturalmente com a China ultramoderna dos arranha-céus, dos pagamentos digitais, dos trens-bala. É uma dualidade fascinante. O país que mais rápido se moderniza no planeta ainda mantém tradições milenares vivas e pulsantes.
Depois de participar desse Ano Novo Chinês em Pequim, voltei à China mais duas vezes durante o Festival da Primavera, uma em Xangai e outra em Chengdu. Cada experiência foi diferente, mas todas igualmente intensas.
Em Xangai, a celebração tinha um verniz mais internacional, mais cosmopolita. Os arranha-céus do Bund ganhavam projeções elaboradas, shows de luzes sincronizados com fogos. Mas mesmo ali, ao se afastar das áreas turísticas, encontrava-se a mesma essência: famílias reunidas, templos lotados, mercados tradicionais vendendo decorações e comidas típicas.
Chengdu foi talvez a mais autêntica. Menor, menos exposta internacionalmente, a cidade vivia o Ano Novo com uma intensidade provincial encantadora. Os parques de chá ficavam lotados de famílias jogando mahjong, conversando, comendo sementes de girassol. As apresentações de ópera sichuanesa aconteciam nas ruas. O dialeto local dominava as conversas, dando um sabor ainda mais particular à experiência.
Uma coisa é certa: vivenciar o Ano Novo Chinês na China muda a perspectiva que se tem do país. É fácil ficar preso à narrativa da China como potência econômica, como gigante industrial, como rival geopolítico. Mas durante o Festival da Primavera, o que se vê é um país profundamente humano, ligado à família, às tradições, aos ciclos da natureza que o calendário lunar representa.
É emocionante ver avós ensinando netos a dobrarem jiaozi, usando as mesmas técnicas que aprenderam com seus avós. É bonito observar jovens executivos, que passam o ano inteiro em reuniões e aeroportos, curvando-se respeitosamente diante dos pais para receber bênçãos. É tocante notar a gratidão genuína nos rostros das pessoas enquanto agradecem pelo ano que passou e pedem proteção para o que chega.
Se eu tivesse que dar um único conselho para quem quer realmente entender a China, seria: visite durante o Ano Novo Chinês. Sim, será desafiador. Sim, será cansativo. Sim, vai exigir paciência e flexibilidade. Mas será autêntico, profundo, transformador.
Prepare-se para multidões nos templos, para fogos de artifício ensurdecedores, para restaurantes fechados quando você estiver com fome. Mas prepare-se também para sorrisos espontâneos, para convites inesperados, para provar comidas que nunca imaginaria, para testemunhar uma das expressões culturais mais antigas e vibrantes da humanidade.
O Ano Novo Chinês não é apenas uma festa. É um elo entre passado e presente, entre ancestralidade e futuro, entre o indivíduo e o coletivo. É a China se olhando no espelho, reconhecendo de onde veio e reafirmando sua identidade cultural diante das vertiginosas transformações que vive.
Quando voltei daquela primeira experiência em Pequim, passei meses processando tudo que havia vivido. As imagens, os sons, os cheiros, os sabores ficaram gravados com uma nitidez rara. E sempre que ouço falar do Ano Novo Chinês, mesmo de longe, no Brasil, sinto um friozinho na espinha, uma vontade de estar lá novamente, mergulhado naquele mar vermelho de lanternas, fogos e esperança renovada.