Campo del Moro: O Jardim Secreto que Oferece a Vista Mais Majestosa do Palácio Real de Madrid

Aos pés da imponente fachada oeste do Palácio Real de Madri, estende-se um oásis de 20 hectares que parece saído de um conto de fadas. Longe do burburinho dos Jardins de Sabatini ou da formalidade da Plaza de Oriente, os Jardins do Campo del Moro são um dos segredos mais bem guardados da capital espanhola. Este espetacular jardim de estilo romântico, declarado de Interesse Histórico-Artístico em 1931, oferece não apenas um refúgio de paz e natureza, mas também a perspectiva mais grandiosa e cinematográfica da residência oficial dos reis da Espanha.

Jardins do Campo del Moro

Descer por suas encostas sinuosas é embarcar em uma viagem no tempo, um percurso que revela fontes monumentais, chalés de madeira dignos da realeza e uma fauna surpreendente que inclui pavões e faisões. Diferente dos outros espaços verdes que cercam o palácio, o Campo del Moro não é apenas um jardim; é uma paisagem cuidadosamente construída para evocar a grandiosidade, o drama e o romantismo, um cenário perfeito que enquadra o palácio como a joia de uma coroa verde.


A Origem de um Nome de Batalha

Para entender a essência do Campo del Moro, é preciso voltar quase mil anos na história. O nome do jardim remonta a 1109, um século após a fundação da fortaleza muçulmana original de Mayrit (a futura Madri). Naquele ano, após a morte do rei Afonso VI, o líder almorávida Ali ben Yusuf tentou reconquistar a cidade. Suas tropas acamparam nesta mesma encosta a oeste do alcázar, preparando-se para o assalto. O ataque fracassou, mas o local ficou para sempre marcado na memória da cidade como o “Campo do Mouro”.

Durante séculos, a área permaneceu como um terreno baldio e íngreme, servindo como campo de caça para a realeza e local para justas e torneios. Foi apenas no reinado de Filipe IV, no século XVII, que os primeiros projetos de ajardinamento começaram, com a construção de fontes e a plantação de árvores. No entanto, a grande transformação só viria no século XIX, sob o reinado de Isabel II.


O Romantismo Inglês em Pleno Coração de Madri

Abandonando a rigidez e a simetria dos jardins formais franceses, que caracterizam os vizinhos Jardins de Sabatini, o projeto do Campo del Moro, concebido pelo arquiteto Narciso Pascual y Colomer em 1844, abraçou o estilo paisagístico inglês. Este estilo, que estava em voga na Europa, buscava criar uma visão idealizada e “natural” da paisagem, com caminhos sinuosos, vegetação aparentemente selvagem e a criação de diferentes cenários que surpreendem o visitante a cada curva.

O terreno acidentado, antes um problema, tornou-se o maior trunfo do projeto. O grande declive entre o palácio e as margens do rio Manzanares permitiu a criação de uma perspectiva monumental. Do ponto mais baixo do jardim, no Paseo de la Virgen del Puerto, o visitante tem a sensação de estar diante de uma montanha verde coroada pelo imenso e majestoso Palácio Real. É, sem dúvida, a vista mais impressionante e fotogênica do edifício, uma imagem que transmite poder e grandeza.

O jardim foi concluído durante a regência de Maria Cristina de Habsburgo, no final do século XIX, que adicionou elementos românticos e um toque de fantasia ao conjunto.


Fontes e Tesouros Arquitetônicos: Arte em Meio à Natureza

Passear pelo Campo del Moro é também descobrir um museu de esculturas e arquitetura ao ar livre. Duas fontes monumentais dominam os eixos principais do jardim:

  • Fonte das Conchas (Fuente de las Conchas): Projetada por Ventura Rodríguez no século XVIII, esta fonte de mármore branco originalmente ficava em outro palácio, mas foi transferida para cá no século XIX. Com seu design elegante e figuras mitológicas, ela serve como um belo ponto focal no início do percurso.
  • Fonte dos Tritões (Fuente de los Tritones): Localizada no centro da grande alameda que leva ao palácio, esta espetacular fonte de inspiração italiana do século XVII é uma das joias do jardim. Representando tritões que seguram uma bacia sobre suas cabeças, ela foi trazida de um jardim de Aranjuez e adiciona um toque de drama e movimento à paisagem.

Destaque: Os Chalés da Rainha e do Corcho
Escondidos entre a vegetação, encontram-se dois pequenos edifícios que parecem saídos de um conto de fadas. O Chalé da Rainha e o Chalé do Corcho (Chalé da Cortiça) foram construídos no final do século XIX como caprichos arquitetônicos para o lazer da família real. O Chalé da Rainha, um pavilhão de madeira em estilo tirolês, era usado para pequenas recepções e lanches. O Chalé do Corcho, ainda mais curioso, é um pequeno pavilhão rústico revestido com cortiça, refletindo o gosto romântico pela natureza e por construções exóticas.


Um Santuário para Pavões e Outras Aves

Uma das características mais encantadoras e inesperadas do Campo del Moro é a sua fauna. O jardim é o lar de uma grande população de pavões, que passeiam livremente pelos gramados e caminhos, exibindo suas caudas espetaculares sem se importarem com a presença dos visitantes. O som característico dos pavões ecoa pelo parque, adicionando um toque exótico e mágico à atmosfera.

Além dos pavões, é comum encontrar faisões, pombos, periquitos e outras espécies de aves que encontraram neste oásis urbano um santuário seguro. A presença desses animais reforça a sensação de estar em um lugar especial, um mundo à parte do tráfego e da agitação da cidade que pulsa a poucos metros dali.


O Museu de Carruagens: Uma Viagem pela História da Monarquia

Anexo ao jardim, encontra-se o Museu de Carruagens Reais (atualmente parte da Galeria das Coleções Reais). Este espaço exibe uma das coleções de carruagens e arreios mais importantes do mundo, um testemunho do luxo e da pompa da corte espanhola ao longo dos séculos.

A coleção inclui desde coches barrocos suntuosamente decorados até berlindas usadas em casamentos reais e carros fúnebres. Cada veículo é uma obra de arte, um exemplo primoroso de artesanato que conta uma parte da história da monarquia espanhola. A visita ao museu complementa perfeitamente o passeio pelo jardim, conectando a paisagem exterior com a vida que acontecia dentro e fora dos muros do palácio.

Visitar o Campo del Moro é, portanto, uma experiência multifacetada. É um exercício de história, uma aula de paisagismo e uma oportunidade de se reconectar com a natureza em pleno centro de Madri. É o lugar perfeito para uma caminhada tranquila, um piquenique à sombra de árvores centenárias ou simplesmente para encontrar o ângulo perfeito para fotografar o Palácio Real em toda a sua glória. Para quem busca ir além do óbvio e descobrir a alma verde e majestosa de Madri, este jardim secreto é, sem dúvida, uma parada obrigatória.

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