Bodega Salentein x Bodega La Azul em Mendoza na Argentina

No coração pulsante da Argentina vinícola, o Vale de Uco se estende como um tapete de vinhedos aos pés da imponente Cordilheira dos Andes. Este terroir de altitude, com seus dias ensolarados e noites frias, tornou-se o epicentro dos vinhos mais celebrados do país. E para o viajante enófilo, a região apresenta um dilema delicioso: qual porta bater? De um lado, a Bodega Salentein, um colosso de arquitetura, arte e produção em larga escala. Do outro, a Bodega La Azul, uma joia familiar, íntima e com uma das experiências gastronômicas mais aclamadas de Mendoza. Este não é apenas um comparativo entre duas vinícolas, mas um mergulho em duas filosofias distintas que definem a alma do vinho argentino. Qual delas oferece a experiência definitiva? A resposta está no tipo de viajante que você é.

Fonte: Viator

Viajar pelo Vale de Uco é uma experiência cênica por si só. A Rota 89, que serpenteia pela região, revela a cada curva paisagens de tirar o fôlego, com os picos nevados dos Andes servindo como um guardião silencioso. É neste cenário que encontramos nossas duas protagonistas, ambas em Tunuyán, mas representando mundos opostos. A escolha entre Salentein e La Azul é, em essência, uma decisão entre a grandiosidade e o aconchego, entre a sofisticação internacional e a autenticidade local.


Bodega Salentein: Um Templo ao Vinho, à Arte e à Arquitetura

Ao se aproximar da Salentein, a primeira impressão é de assombro. Fundada em 1996 pelo empresário holandês Mijndert Pon, a vinícola foi uma das pioneiras a desbravar e a apostar no potencial do Vale de Uco, transformando a região para sempre. A arquitetura é um espetáculo à parte. O edifício principal, projetado em formato de cruz, não é apenas funcional, mas simbólico, integrando-se à paisagem andina e permitindo um inovador sistema de produção por gravidade.

A experiência na Salentein é estruturada, profissional e grandiosa. Os tours, que devem ser agendados com antecedência, levam os visitantes por um complexo que parece mais um centro cultural do que uma simples vinícola. O passeio inclui uma visita ao Espacio Killka, uma impressionante galeria de arte com obras de artistas argentinos e europeus contemporâneos, e à Capela da Gratidão, um local de serenidade e contemplação.

A adega subterrânea é o clímax da visita arquitetônica. Disposta em formato de anfiteatro, com barricas de carvalho francês perfeitamente alinhadas, o local tem uma acústica impecável, sendo frequentemente palco de concertos de música clássica. No centro, uma rosa dos ventos metálica aponta para os quatro cantos do mundo, simbolizando a vocação exportadora da vinícola, que hoje é uma das maiores da Argentina.

A degustação segue o mesmo padrão de excelência e profissionalismo. Guias bilíngues explicam detalhadamente sobre os diferentes terroirs da propriedade, que se estendem por altitudes que variam de 1.050 a 1.700 metros, e como isso se reflete na complexidade de seus vinhos. São provados rótulos das linhas Salentein Reserve, Numina e, por vezes, os icônicos Primus.

Gastronomia e Hospedagem: A Salentein oferece múltiplas opções gastronômicas, desde um Wine Bar para refeições mais casuais até o restaurante principal, que serve menus harmonizados de vários passos com pratos da culinária regional e internacional. Para uma imersão completa, a Posada Salentein, uma pousada boutique cercada por vinhedos, oferece luxo e tranquilidade.

Para quem é a Salentein?
A visita é ideal para o viajante que aprecia arquitetura monumental, arte e uma abordagem mais formal e educativa sobre o vinho. É perfeita para quem busca entender o funcionamento de uma operação de grande escala que alcançou reconhecimento global sem abrir mão da qualidade. A experiência é polida, impressionante e reflete a ambição de colocar os vinhos de altitude no mapa mundial.


Bodega La Azul: O Calor de um Abraço em Forma de Vinho

A poucos quilômetros de distância, mas a um universo de conceito, encontra-se a Bodega La Azul. Se Salentein é um templo, La Azul é uma casa. Uma casa com um jardim convidativo, sofás espalhados pela grama e a sensação de que você chegou para um almoço na casa de amigos. Trata-se de uma vinícola familiar, pequena e apaixonada, que representa a terceira geração da família Hinojosa, pioneira no cultivo de uvas na região há mais de 60 anos. A vinícola em si só nasceu em 2003, com o sonho de engarrafar a própria história.

O nome “La Azul” tem uma origem charmosa: quando as terras da família foram divididas, as ferramentas de cada ramo foram pintadas de uma cor para identificação. As ferramentas que deram origem à bodega eram azuis, e a cor hoje decora detalhes da propriedade, dos móveis aos rótulos.

A experiência na La Azul é centrada em sua hospitalidade e, principalmente, em seu aclamado restaurante. A visita à pequena área de produção é quase um prelúdio para o evento principal: o almoço. Conduzida muitas vezes pelo próprio dono e enólogo, Ezequiel Fadel, a visita é informal e cheia de paixão.

O almoço harmonizado de cinco passos é a verdadeira estrela. Servido em mesas ao ar livre, com a Cordilheira dos Andes como pano de fundo, o menu celebra a comida “criolla” com um toque de sofisticação. Empanadas suculentas, a famosa “bondiola” (copa lombo de porco) braseada e o clássico assado argentino são alguns dos pratos que desfilam pela mesa. O grande diferencial é que os vinhos são servidos à vontade. As garrafas das linhas La Azul e La Azul Reserva são deixadas na mesa para que os visitantes se sirvam livremente, criando uma atmosfera de festa e descontração.

Após a refeição, o convite é para relaxar. Os sofás e pufes no jardim convidam a uma “siesta” ao sol, com uma taça na mão, absorvendo a paisagem e a tranquilidade do lugar. É comum ver os visitantes estendendo sua permanência por horas, simplesmente aproveitando o momento.

Para quem é a La Azul?
É a escolha perfeita para quem busca uma experiência autêntica, descontraída e focada na gastronomia e na hospitalidade. É para o viajante que valoriza o contato pessoal, a história de uma família e a sensação de ser recebido em casa. A La Azul não impressiona pela escala, mas conquista pelo coração, pelo sabor e pela atmosfera inesquecível.


O Veredito: Um Duelo sem Perdedores

CaracterísticaBodega SalenteinBodega La Azul
AtmosferaGrandiosa, formal, culturalÍntima, descontraída, familiar
ArquiteturaMonumental, moderna, icônicaRústica, charmosa, acolhedora
Foco da VisitaArquitetura, arte, processo de produçãoAlmoço harmonizado, hospitalidade
DegustaçãoTécnica, estruturada, educativaInformal, generosa (vinho à vontade no almoço)
GastronomiaRestaurante sofisticado, menus de passosComida regional farta, ambiente festivo
Ideal paraAmantes de arquitetura, arte e grandes vinhosAmantes de gastronomia, experiências autênticas
DiferencialGaleria de arte, adega em anfiteatroAlmoço com vinho livre, ambiente relaxante

Colocar Salentein e La Azul em um ringue é uma injustiça, pois ambas são campeãs em suas respectivas categorias. A escolha não é sobre qual é a “melhor”, mas sobre qual experiência se alinha melhor com as expectativas e o estilo do viajante.

A Salentein oferece uma aula magna sobre o poder e a visão que transformaram o Vale de Uco em uma potência vinícola. É uma visita que impressiona a mente e os olhos, entregando sofisticação e conhecimento em escala monumental.

A La Azul, por sua vez, oferece uma experiência que aquece a alma. É a prova de que a paixão de uma família e uma hospitalidade genuína podem criar memórias tão duradouras quanto os vinhos mais complexos.

Para o roteiro ideal, a recomendação é ousada: visite as duas. Muitos tours, inclusive, combinam uma visita e degustação matinal na Salentein com um almoço prolongado na La Azul. Essa combinação permite ao viajante vivenciar os dois extremos do espectro do Vale de Uco em um único dia: começar com a grandiosidade arquitetônica e a excelência técnica de uma gigante global e terminar com o calor humano, a comida farta e a alegria contagiante de uma pequena joia familiar. É a maneira perfeita de entender, em toda a sua complexidade e beleza, por que Mendoza é, sem dúvida, um dos melhores destinos de enoturismo do mundo.

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