As Mulheres que Respiram o Mar: A História das Haenyeo de Jeju
As mergulhadoras haenyeo de Jeju são consideradas uma das maiores provas vivas de que resistência e identidade cultural podem sobreviver a séculos de transformação — e quem chega à ilha sul-coreana de Jeju entende isso no exato momento em que as vê emergindo das águas frias do Mar do Leste.

Haenyeo. Em coreano, significa simplesmente “mulheres do mar”. Mas há algo que escapa a qualquer tradução direta: a força bruta e ao mesmo tempo silenciosa que esse título carrega. São mulheres que mergulham até 15, 18 metros de profundidade, sem cilindro de oxigênio, sem aparato sofisticado, usando apenas a força dos pulmões e décadas de conhecimento acumulado. A maioria tem mais de 60 anos. Algumas passam dos 80 e ainda assim entram no oceano.
Para quem conhece Jeju pela primeira vez, é difícil não ficar parado olhando quando elas se preparam para mergulhar. Há um ritual nisso tudo. Um silêncio antes da água.
Klook.comUma origem que nasce da ausência dos homens
A história das haenyeo não começa com uma decisão feminista ou com uma lei que as emancipou. Começa, como muitas histórias de força feminina, com ausência. Com necessidade. Com o mar como única saída.
Os primeiros registros escritos sobre mergulhadoras em Jeju datam de 1629, no documento chamado A Topografia de Jeju. À época, elas eram chamadas de jamnyeo — e o mergulho ainda era visto como uma atividade predominantemente masculina. A ilha tem solo vulcânico, árido, pouco generoso para a agricultura. O que sobrava como sustento era o mar.
No século XVII, com os homens sendo levados por guerras, migrações forçadas e pesca em alto mar, as mulheres assumiram o fundo do oceano como território delas. Não havia romanticismo nisso. Era trabalho duro, frio, e por vezes mortal. Mas foi justamente essa necessidade que moldou uma das estruturas sociais mais incomuns da Ásia: uma sociedade com traços marcadamente matriarcais, onde as mulheres saíam para trabalhar enquanto os homens cuidavam das crianças.
No século XVIII, as haenyeo já superavam em número os mergulhadores homens. A virada era definitiva.
Existe também uma explicação fisiológica que os pesquisadores levam a sério: mulheres possuem maior camada de gordura subcutânea e suportam melhor o frio da imersão prolongada. O corpo feminino, ao que parece, é fisiologicamente mais adaptado a esse tipo de atividade. Não é mito — é biologia.
O colonialismo japonês e a expansão das haenyeo
Aqui a história ganha uma reviravolta que muita gente não sabe. Durante o período de colonização japonesa, que se estendeu de 1910 a 1945, o mergulho se tornou ainda mais lucrativo — e as haenyeo passaram a ser vistas como força de trabalho estratégica pelos colonizadores.
Antes dessa época, grande parte do que elas coletavam era entregue como tributo ao reino de Joseon. Com os japoneses, esse sistema de tributação foi abolido — e as mergulhadoras passaram a vender diretamente o que recolhiam, o que aumentou significativamente sua renda e, consequentemente, seu poder dentro da família e da comunidade.
Paradoxalmente, foi nesse período sombrio da história coreana que as haenyeo ampliaram sua influência. Grupos delas viajaram para trabalhar nas costas do Japão, da China e até mais longe. Havia expedições para o Vladivostok, para costas da Rússia. A imagem das mulheres de Jeju cruzando fronteiras oceânicas para mergulhar em águas estrangeiras é algo que ainda impressiona quando você lê os relatos da época.
A resistência não era declarada em discurso. Era executada no silêncio do fundo do mar.
Klook.comO que é, na prática, ser haenyeo
Quem pensa que qualquer mulher decide um dia ser haenyeo e começa no dia seguinte não entende a profundidade — literalmente — do que esse título implica.
O treinamento começa cedo, muitas vezes ainda na infância, aprendendo com a mãe ou a avó. O conhecimento não está em livro. Está no corpo, na respiração, na leitura das correntes. A formação é transmitida de geração em geração, dentro da família e das cooperativas de pesca locais — que, em Jeju, são administradas pelas próprias mergulhadoras.
As haenyeo são classificadas em três níveis: hagun (iniciantes), junggun (intermediárias) e sanggun (as mais experientes, que orientam as demais). É uma hierarquia baseada no conhecimento do mar, não em título acadêmico ou cargo. A sanggun carrega autoridade porque já esteve onde as outras ainda vão aprender a ir.
A jornada diária de trabalho chega a sete horas, com mergulhos de aproximadamente um minuto cada — e no total, ao longo do ano, elas passam cerca de 90 dias no oceano. Mergulham em busca de abalones, ouriços-do-mar, polvos, pepinos-do-mar e algas. E fazem isso sem oxigênio artificial, sem sonar, sem GPS. Com o que sabem. Com o que sentiram ao longo de décadas de presença naquela água.
Há um detalhe que chama muito a atenção: ao emergir, as haenyeo emitem um som característico chamado sumbisori — uma espécie de assobio ou gemido suave que ocorre na expiração forçada após a imersão. Quem está na costa ouve esse som se multiplicar quando várias mergulhadoras emergem ao mesmo tempo. É perturbadoramente bonito.
Antes de cada mergulho, algumas ainda rezam para Jamsugut, a deusa do mar. A espiritualidade está entrelaçada ao trabalho, não como superstição, mas como relação. Como respeito ao que não se controla.
Uma sociedade que se reorganizou em torno delas
O impacto das haenyeo vai muito além da pesca. Jeju se tornou uma ilha com estrutura social diferente do restante da Coréia, que historicamente seguiu os rígidos valores confucionistas — com o homem no centro da família e da vida pública.
Em Jeju, o peso econômico estava nas mãos das mulheres. Eram elas que sustentavam a família. Eram elas que tomavam as decisões práticas do cotidiano. Os homens, em muitas comunidades costeiras, cuidavam das crianças enquanto as esposas mergulhavam. Essa inversão de papéis — ou talvez seja mais correto dizer essa ausência de papéis rígidos — criou uma cultura local única dentro da Coréia.
Não é coincidência que Jeju tenha uma relação histórica com resistência e autonomia. O espírito das haenyeo permeou a identidade da ilha.
O corpo que a ciência começou a estudar
Nos últimos anos, as haenyeo deixaram de ser apenas um símbolo cultural para se tornarem objeto de pesquisa genética séria.
Uma equipe internacional de cientistas — com pesquisadores da Universidade de Utah, da Dinamarca e da Coréia do Sul — publicou na revista científica Cell Reports uma descoberta impressionante: as haenyeo desenvolveram diferenças genéticas únicas que as ajudam a lidar com o estresse fisiológico do mergulho livre. Mutações específicas relacionadas à pressão arterial e à resposta do organismo ao frio foram identificadas nessa população.
A geneticista Melissa Ann Ilardo, professora assistente de informática biomédica na Universidade de Utah e uma das líderes da pesquisa, descreveu a descoberta como potencialmente capaz de levar a melhores tratamentos para doenças cardiovasculares como hipertensão e derrame.
O que séculos de mergulho fizeram ao corpo dessas mulheres está, literalmente, inscrito no DNA.
A UNESCO e o reconhecimento que veio tarde, mas veio
Em 2016, a UNESCO inscreveu a Cultura das Haenyeo de Jeju na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. O reconhecimento foi importante — trouxe visibilidade, turismo, financiamento para a preservação.
Mas veio acompanhado de uma sombra incômoda: a realidade de que essa tradição está envelhecendo mais rápido do que se renova.
A maioria das haenyeo ativas hoje tem mais de 60 anos. O número de praticantes caiu drasticamente ao longo das últimas décadas — de um pico de cerca de 26.000 mulheres nos anos 1960 para menos de 3.500 registradas atualmente. As filhas e netas, em sua maioria, escolheram outros caminhos. A cidade, a universidade, o escritório.
Não é julgamento. É transformação. A mesma modernidade que deu acesso à educação e a outras oportunidades acabou esvaziando o recrutamento natural que mantinha a tradição viva.
O governo sul-coreano e o governo provincial de Jeju têm investido em programas de incentivo, escolas de haenyeo e museus dedicados à cultura. O Museu Haenyeo em Jeju documenta a história e forma novas mergulhadoras. É uma tentativa sincera de segurar o que está escorregando pelas mãos.
O turismo e o que ele representa para Jeju
Para quem vai a Jeju, as haenyeo são uma das experiências mais autênticas que a ilha oferece — e também uma das mais fáceis de encontrar nas áreas costeiras, especialmente nas aldeias de Udo, Seongsan e Gimnyeong.
Você as vê saindo do mar carregando suas redes cheias de mariscos. Algumas vendem o que pescam ali mesmo, em barracas improvisadas às beiras da costa, onde ouriços-do-mar fresquíssimos são servidos numa espécie de ritual culinário informal. O sashimi de abalone, preparado na hora, é o tipo de experiência gastronômica que não se replica em restaurante nenhum.
O que mais impressiona, porém, é a normalidade com que elas tratam o extraordinário. Não há performance para o turista. Não há encenação. Elas simplesmente estão fazendo o trabalho delas — como fazem há décadas. O turista é quase um detalhe no campo visual delas.
Há algo de muito digno nisso.
O que sobrevive quando uma tradição se transforma
A pergunta que fica não é se as haenyeo vão desaparecer. É o que vai sobreviver delas quando a última mergulhadora da geração mais velha parar de entrar no mar.
A cultura pode ser musealizada, documentada, ensinada em escola. Mas o muljil — a prática real do mergulho, o conhecimento visceral do oceano — só existe quando alguém efetivamente mergulha. Não dá pra preservar isso em vitrine.
O que as haenyeo representam é algo que vai além da pesca. É uma prova de que sociedades podem se organizar de formas radicalmente diferentes do padrão hegemônico, e que essas formas de organização podem ser não apenas viáveis, mas extraordinariamente eficientes. A estrutura semi-matriarcal de Jeju não foi um experimento social — foi uma resposta prática à vida. E funcionou durante séculos.
Quando você olha para uma mulher de 70 anos emergindo do mar em Jeju, com o sumbisori escapando dos lábios, os olhos ainda focados depois de um minuto no fundo do oceano, é difícil não sentir que está diante de algo que o mundo moderno não sabe mais como produzir.
Resistência silenciosa. Conhecimento encarnado. Uma forma de estar no mundo que não precisa de hashtag para existir — mas que, se não for cuidada, pode simplesmente deixar de existir.
E aí sim vai fazer falta.