As 5 Seções da Muralha da China que Você Precisa Conhecer

A Muralha da China não é uma coisa só. Quem chega a Pequim achando que vai “ver a muralha” e pronto, logo descobre que está diante de uma estrutura com mais de 21 mil quilômetros de extensão, dividida em dezenas de seções com personalidades completamente diferentes — algumas restauradas e cheias de turistas, outras quase intocadas, onde a vegetação já começa a vencer a pedra. E é exatamente essa diversidade que torna a visita tão fascinante.

Foto de Manuel Joseph: https://www.pexels.com/pt-br/foto/fotografia-aerea-da-grande-muralha-da-china-19872/

A questão não é ir à Muralha. É saber qual parte da Muralha vai no seu roteiro. E essa decisão muda tudo: o nível de esforço físico, o tipo de paisagem, a quantidade de gente ao redor, a experiência que você leva para casa. As cinco seções abaixo são as mais relevantes para quem parte de Pequim, cada uma com uma identidade própria que vale entender antes de comprar qualquer ingresso.

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Badaling — A porta de entrada oficial da lenda

Construída em 1505, durante o reinado do Imperador Hongzhi, a seção de Badaling foi erguida para proteger o Passo de Juyong, uma das rotas mais estratégicas do norte do país. Durante séculos, aquele corredor de montanhas foi a fronteira entre o mundo civilizado, segundo a dinastia Ming, e as estepes de onde vinham os invasores do norte.

Hoje, Badaling é a seção mais visitada do mundo. E isso tem um preço. Nos fins de semana e feriados, especialmente durante o Dia Nacional da China em outubro, a quantidade de pessoas na muralha chega a ser perturbadora — filas para subir a escadaria, multidões nos mirantes, barulho que quebra qualquer contemplação. Mas fora dessas datas de pico, de manhã cedo, a experiência ainda é poderosa. A estrutura é impecável, o percurso é bem sinalizado e a vista das torres sobre as montanhas verdes justifica o clichê.

Para quem vai à China pela primeira vez e quer praticidade acima de tudo, Badaling funciona. Fica a cerca de 70 km de Pequim e o acesso é genuinamente simples.

Como chegar:
O Bus 877 parte da estação Deshengmen e chega lá em aproximadamente 70 minutos. Mas a opção mais confortável e rápida é o trem de alta velocidade que parte da Beijing North Station direto até a Badaling Station — uma das chegadas mais impressionantes que existem, porque o trem emerge de um túnel e você já está cercado de montanhas.


Mutianyu — A favorita de quem pesquisa antes de ir

Se Badaling é o lugar para quem quer marcar o ponto, Mutianyu é o lugar para quem quer realmente estar na muralha. A diferença é sutil de descrever e gritante de sentir.

Mutianyu remonta ao século XIV — um trecho que sobreviveu a invasões, a séculos de abandono e, mais recentemente, a uma restauração cuidadosa que preservou o caráter do lugar sem transforma-lo num parque de diversões. A vegetação ao redor é protegida pela UNESCO, o que explica aquele visual de muralha emergindo de uma floresta densa, que vira cartão-postal em qualquer época do ano. Na primavera, o verde é intenso demais para parecer real. No outono, as árvores viram cobre e dourado, e as fotos ficam com aquela luz dourada que parece de pintura.

O trecho restaurado conta com 22 torres de vigia, e o percurso entre elas oferece variações de dificuldade — tem trechos tranquilos e trechos que exigem fôlego. Quem não quer se cansar muito pode subir de teleférico e descer de tobogã, o que é, convenhamos, uma experiência à parte que muita gente adora mais do que admite publicamente.

Como chegar:
O Bus 867 sai de Dongzhimen Wai e leva cerca de 2 horas até Mutianyu. Outra opção é combinar trem-bala até Huairou (20 minutos saindo do centro de Pequim) e de lá pegar um táxi por mais 20 a 30 minutos. O aplicativo Didi — que funciona como o Uber local — é altamente recomendado para esse último trecho e custa em torno de 200 yuan por trajeto.


Jinshanling — O equilíbrio entre história e contemplação

Há uma certa ironia em Jinshanling ser menos famosa do que merece. Foi construída em 1570 pelo General Qi Jiguang, um dos estrategistas militares mais respeitados da dinastia Ming, especificamente como resposta às incursões mongóis que não paravam de acontecer na fronteira norte. Não era uma muralha simbólica. Era uma muralha funcional, projetada com precisão militar — as torres espaçadas de forma estratégica, os parapeitos calculados para o ângulo de tiro das bestas da época.

Essa origem prática ainda se sente no lugar. As torres têm um charme diferente das de Mutianyu ou Badaling — menos polidas, mais brutas. Alguns trechos já mostram sinais do tempo, o que, paradoxalmente, os torna mais interessantes do ponto de vista fotográfico e histórico. Jinshanling é frequentemente escolhida por fotógrafos que querem a muralha com aquela textura envelhecida, sem o acabamento de restauração recente.

Outro atrativo: é possível fazer o famoso trekking de Jinshanling até Simatai — uma caminhada de cerca de 10 km ao longo da crista das montanhas, com a muralha servindo de trilha. Não é uma caminhada fácil, mas é uma das mais recompensadoras que a região oferece.

Como chegar:
A opção mais prática é contratar um transfer privado a partir de Pequim — a distância é maior do que as outras seções, e o transporte público direto é menos conveniente. Por isso, Jinshanling é recomendada especialmente para quem já tem mais de um ou dois dias disponíveis para explorar a muralha fora dos roteiros padrão.

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Juyongguan — A fortaleza que guarda o vale

De todas as seções desta lista, Juyongguan é a que mais parece saída de um filme de época. Não é a muralha escalando montanhas em linha diagonal — é uma fortaleza completa encaixada num vale estreito, com torres, portões e construções militares que formam um conjunto arquitetônico impressionante visto de perto ou de longe.

A história do lugar tem mais de 2.300 anos. Antes mesmo da dinastia Ming consolidar a muralha como a conhecemos hoje, aquele vale já era considerado o ponto mais estratégico para o controle da entrada norte de Pequim. Quem controlava Juyongguan controlava o acesso à capital. Esse peso histórico se sente no lugar de forma quase física — há algo na escala das construções, no modo como as paredes sobem pelos dois lados do vale, que impõe respeito.

Para quem gosta de história militar ou arquitetura defensiva, Juyongguan oferece um nível de detalhe que as outras seções não têm. Dentro do complexo há inscrições em diferentes línguas antigas, relevos budistas do século XIV e uma plataforma central chamada “Taizhao” que sobreviveu quase intacta.

Como chegar:
O Bus 879 parte de Deshengmen e chega em aproximadamente 1h30. Também é possível pegar o trem da Beijing North Station em direção a Badaling e desembarcar antes, na estação de Qinglongqiao, combinando com um táxi de cerca de 20 minutos até a entrada. Para quem vai alugar carro ou contratar transfer, Juyongguan fica no caminho de Badaling — é possível visitar as duas na mesma saída se o planejamento for bem feito.


Jiankou — Para quem quer a muralha de verdade

Existe uma diferença entre visitar a Muralha da China e encontrar a Muralha da China. Jiankou pertence à segunda categoria.

Sem bilheteria. Sem teleférico. Sem restaurante de fast food na entrada. Sem piso reformado. Jiankou é a muralha como ela ficou depois de séculos sem manutenção — pedras soltas, trechos inclinados a ângulos que desafiam a gravidade, vegetação crescendo dentro das torres, passagens que exigem mãos além dos pés. É tecnicamente proibido visitar por conta dos riscos estruturais, mas a trilha que sobe até ela é aberta e frequentada por caminhantes e fotógrafos que vêm especificamente por causa dessa autenticidade bruta.

O visual é diferente de qualquer outra seção. A muralha de Jiankou sobe e desce pela crista de montanhas afiadas com uma agressividade visual que parece impossível — como se a estrutura tivesse sido construída para impressionar tanto quanto para defender. E provavelmente era essa a intenção. A torre chamada “Owl Tower” é um dos pontos fotográficos mais icônicos de toda a muralha, e a maioria das fotos dramáticas que circulam na internet foram tiradas nessa região.

Não é para todos. O acesso já é difícil, a caminhada exige preparo físico real e condições climáticas adversas tornam o percurso perigoso. Mas para quem está disposto, Jiankou entrega algo que nenhuma outra seção consegue: a sensação de estar num lugar que o tempo não domou completamente.

Como chegar:
O percurso envolve o Bus 916 de Dongzhimen até Huairou, seguido do ônibus turístico H21 — também conhecido como a linha “Huairou-Water Great Wall” — que chega próximo ao vilarejo de Zhengbeilou, ponto de partida para a trilha. O trajeto total leva cerca de 2 horas. Muitos viajantes preferem ir de táxi ou Didi a partir de Huairou para ter mais controle sobre o horário.


O que ninguém conta antes de você ir

A muralha é física. Parece óbvio dizer isso, mas surpreende muita gente que chega pensando numa visita casual. As escadarias são íngremes — algumas têm degraus com mais de 40 centímetros de altura. O piso é irregular. Em dias úmidos, a pedra fica escorregadia de um jeito que testa qualquer tênis. Calçado fechado e confortável não é sugestão, é condição.

A melhor época para ir é setembro e outubro, quando o calor do verão passa e as folhas começam a mudar de cor em Mutianyu e Jinshanling. A primavera, de abril a junho, também é boa — verde intenso e menos multidão do que no outono. O verão é quente e úmido, e o inverno pode ser genuinamente frio com vento cortante nas altitudes das montanhas, mas oferece cenários completamente diferentes, quase surrealistas quando neva.

Em Badaling, Mutianyu e Juyongguan, os ingressos precisam ser reservados com antecedência pelo sistema online chinês — especialmente em fins de semana e feriados, quando as cotas de visitantes se esgotam rapidamente. O sistema funciona pelo WeChat ou por sites específicos de cada seção. Quem vai sem reserva corre o risco de chegar e não poder entrar.

O aplicativo Didi é quase indispensável para se locomover com conforto entre essas seções mais afastadas. Funciona com cartão de crédito internacional em muitos casos, e os motoristas conseguem aceitar o endereço de destino por escrito no mapa — o que resolve a barreira do idioma na maior parte das situações.

E uma coisa que ninguém esquece depois que vê: a muralha some no horizonte. Ela simplesmente continua, sobe aquela montanha e some do outro lado, e você fica olhando tentando imaginar até onde vai. São mais de 21 mil quilômetros. É muito mais do que qualquer foto consegue transmitir. É muito mais do que qualquer lista consegue descrever. Vai lá e veja.

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