Albânia é o Destino Alternativo Para a Itália
Existe um país na Europa que fica entre a Itália e a Grécia, tem costa mediterrânea de deixar qualquer um boquiaberto, casas coloridas grudadas em morros, um castelo medieval que resiste desde o século XV e uma conta de restaurante que vai fazer você pensar que erraram o valor. Esse país se chama Albânia. E até pouco tempo atrás, ninguém falava sobre ele.

A imagem que circula nas redes sociais é direta: “Não consegue pagar a Itália? Vai para a Albânia.” Na primeira vez que vi, achei exagerado. Depois de pesquisar fundo e acompanhar quem foi, percebi que a brincadeira tem uma dose generosa de verdade. A Albânia entregou, em 2025, mais de 11 milhões de visitantes. O número cresceu 34% nos últimos anos. Mas os brasileiros ainda são raros por lá. E isso, paradoxalmente, é exatamente o que torna o destino tão interessante agora.
O que a Itália tem que a Albânia também tem, só que mais barato
A comparação começa visualmente. Vernazza, no Cinque Terre italiano, é uma das imagens mais reproduzidas do mundo: casas empilhadas em cores vivas, um porto encaixado entre pedras, barcos de pesca balançando na água azul. É lindo. É também absurdamente caro, lotado, e você precisa comprar ingresso antecipado só para caminhar na trilha.
Agora imagine cenas parecidas, com o mesmo charme visual, a mesma intensidade de cor, a mesma relação íntima entre casas e mar, mas com uma diferença: você chega, senta em qualquer restaurante à beira d’água, pede um prato de frutos do mar com vinho local e paga o equivalente a 8 ou 10 euros. E não tem fila. Não tem ingresso. Não tem aquela multidão que transformou partes da Itália em parques temáticos de si mesmas.
A Riviera Albanesa tem isso. A faixa costeira que vai de Vlorë até Saranda é recortada por enseadas, praias de pedra branca, água que vai do verde-turquesa ao azul profundo, vilarejos que ainda preservam a textura de lugares que não foram inteiramente varridos pelo turismo em massa. Não é perfeita — e quem espera perfeição vai se decepcionar. Mas é genuína. E genuíno está se tornando um produto raro na Europa.
Krujë: o castelo que a maioria nunca ouviu falar
Antes de chegar ao litoral, há um desvio que vale muito o esforço: Krujë. A cidade fica a cerca de 20 km ao norte de Tirana e sobe por uma encosta íngreme até revelar um castelo medieval que foi a fortaleza de Gjergj Kastrioti, o lendário Skanderbeg, herói nacional albanês que durante décadas resistiu ao avanço otomano no século XV. O complexo é composto pelo castelo propriamente dito, um museu histórico interno e um bazar que tem resistido ao tempo com dignidade, vendendo tapetes, roupas tradicionais, utensílios de cobre.
A torre do castelo, chamada pelos locais simplesmente como a fortaleza, tem uma vista que corta o fôlego. A planície abaixo, os morros ao redor, o céu daquele azul que só aparece quando você está longe das grandes cidades. É o tipo de ponto turístico que na Itália ou na Espanha teria entrada de 25 euros, loja de souvenir na saída e fila de ônibus a diesel para estacionar. Em Krujë, você chega, caminha, respira.
A subida até o castelo ainda percorre uma rua ladeada por aquelas torres de pedra tradicionais da arquitetura albanesa — construções que serviam historicamente como refúgio e símbolo de família. São austeras, quase ameaçadoras. Mas é exatamente esse contraste que faz a Albânia ser diferente. Aqui a história não foi embalada para turista. Ela continua meio crua, meio áspera, e é justamente por isso que ela ainda emociona.
A Riviera Albanesa sem filtro
A Riviera tem crescido rápido demais em alguns pontos. Ksamil, por exemplo, é adorada nas redes sociais pela água transparente e pelas ilhotas acessíveis de barco. É linda, sem dúvida. Mas em plena temporada de verão europeu, julho e agosto, a cidade fica apertada, os preços sobem e o charme de “lugar escondido” fica um pouco comprometido. Quem vai fora de temporada, entre maio e junho ou em setembro, encontra uma versão muito mais agradável.
Saranda é a cidade mais turística da costa sul. Tem infraestrutura melhor, hotéis de todos os padrões, uma orla que funciona. É o ponto de entrada para quem chega de balsa de Corfu, na Grécia — e essa travessia de aproximadamente 45 minutos é uma das opções mais práticas para quem está fazendo um roteiro pelos Bálcãs.
Mas o coração da Riviera, pelo menos para quem quer escapar do circuito mais óbvio, está nas praias menores, menos acessadas, que aparecem ao dobrar uma curva da estrada costeira. Gjipe é uma delas: acessível apenas a pé por uma trilha ou de barco, com água que parece editada de tão azul, rodeada de falésias. Não tem bar, não tem guarda-sol para alugar. Você leva o que precisa e fica quanto quiser. Isso está se tornando raro demais na Europa.
Os preços: a informação que mais importa
Viajantes com orçamento apertado conseguem se virar na Albânia com algo entre 25 e 45 euros por dia — o que inclui hospedagem em hostel ou pousada simples, alimentação em restaurantes locais e transporte público. Quem prefere um conforto razoável, um hotel de três estrelas, restaurantes escolhidos com mais cuidado, pode esperar gastar entre 50 e 90 euros por dia.
Para ter uma régua de comparação: na Grécia, o mesmo nível de viagem custa facilmente o dobro. Na Itália, pode chegar ao triplo, especialmente em cidades como Roma, Florença ou nas ilhas do Sul.
Alguns números concretos que ajudam a visualizar:
Alugar duas espreguiçadeiras e um guarda-sol na praia custa em torno de 10 euros na Albânia. Na Grécia, o mesmo conjunto chega a 20 euros. Em partes da Itália, passa disso com facilidade. Uma salada bem servida num restaurante albanês: 6 euros. Na Grécia, 11 euros. Uma passagem de ônibus em Tirana: 0,40 euro. Em Malta, você paga 2,50 euros pela mesma coisa.
A moeda local é o lek albanês (ALL). O euro é amplamente aceito, especialmente nos pontos turísticos. E o real brasileiro, mesmo pressionado nos últimos anos pela cotação do dólar e do euro, tem um poder de compra surpreendentemente razoável em terra albanesa. Não é a Tailândia dos anos 2000, mas é muito melhor do que você imagina para um país europeu com praias mediterrâneas.
Tirana: a capital que surpreende
Muita gente trata Tirana como apenas o aeroporto de chegada. Erro. A capital albanesa é uma cidade que passou por uma transformação curiosa nos últimos vinte anos. Depois de décadas de regime comunista isolacionista, o país abriu as portas e Tirana foi sendo repintada, literalmente, de cores vibrantes. Há murais enormes nos edifícios, uma cena de bares e cafés que funciona até tarde, uma praça central que mistura o bunker histórico do ditador Enver Hoxha (hoje transformado em museu) com parques bem cuidados.
O BunkArt, como é chamado o museu instalado no bunker nuclear construído para proteger o regime comunista, é uma das experiências mais sombrias e fascinantes que a Albânia oferece. Você desce por corredores de concreto projetados para sobreviver a um ataque atômico e vai encontrando, sala por sala, a história de um dos regimes mais fechados e brutais da Europa do século XX. É pesado. É importante. E é o tipo de coisa que transforma uma viagem de “eu fui ver praia” em algo com mais camadas.
Como chegar e como se mover
O aeroporto de Tirana — Aeroporto Internacional Nënë Tereza — recebe voos de várias cidades europeias. Quem parte do Brasil vai precisar de pelo menos uma conexão, geralmente em Lisboa, Roma, Viena, Frankfurt ou Istambul. A Turkish Airlines e a Wizz Air são as opções mais usadas. O preço das passagens varia muito com a antecedência, mas passagens de ida e volta saindo de São Paulo ou do Rio, com conexão, giram em torno de 3.500 a 5.500 reais dependendo da época e da antecedência da compra.
Dentro do país, a mobilidade é mais rústica do que nos vizinhos ocidentais. Os furgões compartilhados, chamados de furgon, são o principal meio de transporte entre cidades. Saem quando enchem, chegam quando chegam, mas são baratos e funcionam. Há também empresas de ônibus para os trajetos mais longos. Alugar um carro é a opção mais prática para explorar a Riviera com liberdade — e a estrada costeira é uma das mais bonitas que a Europa tem a oferecer, com todo o charme irregular das vias que não foram ainda completamente padronizadas pelo turismo organizado.
A temporada certa para ir
Alta temporada é julho e agosto. O clima é quente, o mar está perfeito, mas as praias mais famosas ficam movimentadas e os preços sobem. Maio, junho e setembro são os meses ideais: temperatura ainda muito agradável, mar já bom para nadar, e uma movimentação muito mais tranquila. Em setembro, especialmente, você pega a luz do fim do verão mediterrâneo, que é de uma qualidade fotográfica difícil de descrever.
O inverno na Albânia é ameno no litoral, frio nas montanhas. Quem quiser combinar praia com trekking nas Alpes Albanesas — que são absolutamente espetaculares e ainda completamente fora do radar dos turistas brasileiros — pode montar um roteiro de 10 a 14 dias que vai do Vale Valbonë às praias do Sul, passando por Tirana e Krujë.
O que esperar, sem romantismo excessivo
A Albânia não é a Itália. Isso precisa ficar claro. A infraestrutura turística ainda tem buracos. Algumas estradas são ruins. O Wi-Fi nem sempre funciona como deveria. O idioma é totalmente diferente de qualquer língua latina, o que pode complicar a comunicação em lugares mais afastados. E há certas partes da costa que estão crescendo rápido demais, com construções novas que tiram um pouco do charme que as fotos prometem.
Mas há algo que a Albânia ainda tem, e que a Itália perdeu em grande parte: a sensação de estar chegando em algum lugar antes de todo mundo. De sentar num restaurante de família onde o dono ainda vem à mesa perguntar se está tudo bem, de verdade, não como protocolo de atendimento treinado. De olhar para uma paisagem que parece que foi feita para você e que ainda não virou cartão-postal esgotado.
A imagem que circulou nas redes é uma síntese honesta: de um lado, o Vernazza italiano — lindo, inegável, caro, lotado; do outro, a Albânia — o Castelo de Krujë, a Riviera, as torres tradicionais, o mar que tem a mesma qualidade de água mas não tem a mesma fila.
Vale a pena ir agora
A janela está aberta, mas não vai ficar assim para sempre. Quem foi ao Montenegro há dez anos conta que era a Albânia de hoje. Quem foi à Albânia há cinco anos diz que algumas partes já mudaram. O ritmo de descoberta é esse: o mundo vai chegando, os preços vão subindo, a autenticidade vai se ajustando à demanda turística.
Não existe destino que fique assim para sempre. O que a Albânia oferece agora — essa combinação de beleza mediterrânea, preços acessíveis, história densa e baixo volume de visitantes brasileiros — é uma oportunidade que tem prazo de validade. Pode ser 5 anos, pode ser 10. Mas quem foi em 2025 ou vai em 2026 ainda está chegando cedo o suficiente para sentir o que o lugar é antes de virar roteiro de agência.
E se você comparar com o que pagaria na Cinque Terre italiana — os ingressos, as filas, os hotéis a 200 euros a noite — vai entender por que a piada das redes sociais não é bem uma piada. É quase um conselho de viagem.