Por que a Rota 66 é tão Famosa nos Estados Unidos?

A Rota 66 é famosa por ligar Chicago a Santa Monica, marcar a história dos EUA e virar símbolo de liberdade na música, no cinema e na cultura de estrada.

A Rota 66 é famosa por ligar Chicago a Santa Monica, marcar a história dos EUA e virar símbolo de liberdade na música, no cinema e na cultura de estrada

A Rota 66 é provavelmente a estrada mais famosa do mundo, e isso não acontece por acaso. Ela tem quase 4 mil quilômetros, atravessa oito estados americanos e carrega quase cem anos de histórias de gente que saiu de casa em busca de alguma coisa melhor. Tem estrada mais bonita? Tem. Tem estrada mais moderna? Com certeza. Mas nenhuma outra conseguiu virar personagem.

E é exatamente isso que a Rota 66 é. Um personagem.

Quem planeja uma viagem para os Estados Unidos e começa a pesquisar roteiros de carro acaba esbarrando nela cedo ou tarde. Primeiro vem a curiosidade, depois a vontade, e de repente a pessoa está calculando quantos dias de férias precisa para cruzar o país inteiro de Chicago até a Califórnia. Vale entender por que essa estrada mexe tanto com o imaginário das pessoas, inclusive de quem nunca pisou nos EUA.

Como tudo começou: o nascimento da Mother Road

A Rota 66 foi oficialmente criada em 11 de novembro de 1926, quando o governo americano montou o seu sistema numerado de rodovias federais. Naquela época, viajar de carro pelo país era uma aventura meio caótica. As estradas eram uma colcha de retalhos, muitas de terra, mal sinalizadas, com trechos que simplesmente sumiam no meio do nada.

A ideia era ligar Chicago, no estado de Illinois, a Los Angeles, na Califórnia. Mais tarde o ponto final foi estendido até Santa Monica, na beira do Pacífico. No total, o traçado original tinha cerca de 2.448 milhas, algo perto de 3.940 quilômetros.

Um nome aparece sempre quando o assunto é a origem da estrada: Cyrus Avery. Ele era um empresário de Tulsa, em Oklahoma, e brigou bastante para que a rodovia passasse pela sua região. Por isso ganhou o apelido de “Pai da Rota 66”. Tem até uma praça com o nome dele em Tulsa, com esculturas que lembram essa história.

Uma curiosidade divertida: o número 66 não foi a primeira opção. A proposta inicial era chamar a estrada de 60, mas houve disputa entre estados e o número acabou ficando com outra rodovia. O 66 entrou meio como solução de consenso. E olha que acabou soando muito melhor. Fica difícil imaginar uma música chamada “Get Your Kicks on Route 60”.

Um traçado diferente das outras estradas

A maioria das rodovias federais da época seguia linhas mais retas, de leste a oeste ou de norte a sul. A Rota 66 fazia uma diagonal, subindo e descendo pelo mapa, conectando pequenas cidades rurais que antes viviam praticamente isoladas.

Isso fez toda a diferença. Para fazendeiros do Meio-Oeste, a estrada virou um caminho para levar produtos até os grandes centros. Para as cidadezinhas, virou fonte de renda. Para o país, virou uma espécie de espinha dorsal.

Os oito estados que a Rota 66 atravessa

Uma das coisas que deixam a viagem tão interessante é a variedade. Em poucos dias, a paisagem muda de um jeito impressionante. Você sai de uma metrópole com arranha-céus, passa por plantações enormes, entra nas planícies, chega ao deserto e termina vendo o pôr do sol no Pacífico.

A estrada atravessa, na ordem de leste para oeste, estes estados:

  • Illinois
  • Missouri
  • Kansas
  • Oklahoma
  • Texas
  • Novo México
  • Arizona
  • Califórnia

Cada um tem um jeito próprio de lidar com a herança da rota. Vale falar um pouco de cada.

Illinois: onde tudo começa

O ponto de partida fica no centro de Chicago, na Adams Street, onde existe a famosa placa “Begin Route 66”. Muita gente faz a foto ali antes de pegar o carro. Bem perto fica o Lou Mitchell’s, um restaurante de café da manhã que funciona desde 1923 e virou parada tradicional de quem começa a viagem.

Saindo da cidade, aparecem lugares curiosos como o Gemini Giant, em Wilmington, uma estátua gigante de um astronauta segurando um foguete. É meio estranho, meio kitsch, e é exatamente esse tipo de coisa que dá graça à Rota 66.

Missouri: cavernas, pontes e muita estrada

Em St. Louis está a Chain of Rocks Bridge, uma ponte antiga sobre o rio Mississippi com uma curva bem no meio. Hoje ela é aberta só para pedestres e ciclistas. Mais adiante ficam as Meramec Caverns, que foram muito divulgadas ao longo da rota com propaganda pintada em celeiros. A estratégia funcionou tão bem que virou parte da história da estrada.

Kansas: o trecho mais curto

Kansas tem só cerca de 13 milhas da Rota 66, algo como 21 quilômetros. Pouco, né? Mas as cidades de Galena, Riverton e Baxter Springs fazem questão de valorizar esse pedacinho. Em Galena existe um caminhão antigo que serviu de inspiração para o personagem Mate, do filme Carros. Já já a gente fala mais desse filme.

Oklahoma: o estado com mais quilômetros da rota

Oklahoma tem um dos maiores trechos ainda transitáveis da estrada. Tulsa, a cidade de Cyrus Avery, é uma parada importante. Perto dali, em Catoosa, está a Blue Whale, uma baleia azul gigante construída à beira de um lago nos anos 1970. Ela é simples, meio ingênua, e as pessoas adoram.

Em Clinton fica o Oklahoma Route 66 Museum, um dos museus mais bem montados sobre a estrada. Para quem gosta de entender a história além das fotos, vale a parada.

Texas: o Panhandle e o Cadillac Ranch

A Rota 66 cruza só a parte norte do Texas, o chamado Panhandle. Aqui está um dos pontos mais fotografados de toda a viagem: o Cadillac Ranch, em Amarillo. São dez Cadillacs enterrados de bico no chão, criados em 1974 por um coletivo de artistas. O visitante pode levar spray e pintar os carros. Sim, é permitido, e as camadas de tinta já devem ter alguns centímetros de espessura.

Em Adrian, no Texas, fica o Midpoint Cafe, que marca aproximadamente o meio do caminho entre Chicago e Los Angeles. Foto obrigatória, torta obrigatória também.

Novo México: neon e cultura do sudoeste

O Novo México é onde a viagem começa a ficar com cara de faroeste. Tucumcari tem motéis com letreiros de neon que parecem saídos de um filme, como o Blue Swallow Motel. À noite, a cidade ganha outra vida com essas luzes.

Albuquerque também está no caminho, com a avenida Central, que é parte do antigo traçado. Uma curiosidade histórica: até 1937 a rota fazia um desvio passando por Santa Fé. Depois o traçado foi alterado e ficou mais direto.

Arizona: o coração nostálgico da estrada

Muita gente considera o Arizona o trecho mais bonito da Rota 66. É aqui que fica o Petrified Forest National Park, o único parque nacional atravessado pela estrada, com troncos fossilizados de milhões de anos.

Em Holbrook está o Wigwam Motel, onde os quartos têm formato de tenda indígena. Em Winslow tem a esquina que ficou famosa pela música “Take It Easy”, dos Eagles. Seligman e Williams são cidades que vivem praticamente da memória da rota. E Williams tem um papel especial nessa história, como você vai ver mais adiante.

Um pouco antes da Califórnia aparece Oatman, uma antiga cidade de mineração onde burros andam soltos pelas ruas. Eles são descendentes dos animais usados pelos mineiros e hoje fazem parte da paisagem. O caminho até lá passa pelo Sitgreaves Pass, uma estrada de montanha cheia de curvas que dá um certo frio na barriga.

Califórnia: deserto e mar

O último estado começa com o deserto de Mojave, que pode ser bastante quente no verão. Depois vêm cidades como Barstow e San Bernardino, até chegar na região de Los Angeles. O ponto simbólico de chegada é o Santa Monica Pier, onde existe a placa “Santa Monica 66 End of the Trail”. Depois de quase 4 mil quilômetros, ver o oceano dá uma sensação difícil de descrever.

A Grande Depressão e a estrada da esperança

Se a Rota 66 tivesse servido apenas para turismo e transporte de carga, ela seria importante. Mas não seria lendária. O que mudou tudo foi a década de 1930.

Naquele período, os Estados Unidos viveram a Grande Depressão. Para piorar, uma série de tempestades de poeira atingiu as Grandes Planícies, região que inclui Oklahoma, Kansas e o norte do Texas. Esse fenômeno ficou conhecido como Dust Bowl. Anos de seca e técnicas agrícolas ruins deixaram o solo seco e solto, e o vento levantava nuvens de poeira tão grandes que escureciam o céu.

Milhares de famílias perderam tudo. E muitas delas pegaram o pouco que tinham, colocaram em carros e caminhões velhos e seguiram rumo à Califórnia, atrás de trabalho nas plantações. O caminho para isso? A Rota 66.

O livro que deu um apelido eterno à estrada

Em 1939, o escritor John Steinbeck publicou As Vinhas da Ira, que conta a história da família Joad, saindo de Oklahoma rumo à Califórnia durante esse êxodo. É no livro que a estrada ganha o apelido de “Mother Road”, a Estrada Mãe. Steinbeck descreve a rota como o caminho de um povo em fuga.

O livro ganhou o Prêmio Pulitzer e virou filme em 1940, dirigido por John Ford. A partir daí, a Rota 66 deixou de ser só uma estrada. Ela passou a representar a resistência, a migração e a busca por uma vida melhor. Esse peso emocional nunca mais saiu dela.

Dá para entender por que tanta gente se emociona ao percorrer o trajeto. Não é só turismo. Tem uma camada de história humana ali que transforma postos de gasolina antigos em algo quase sagrado.

A Segunda Guerra e os anos dourados

Durante a Segunda Guerra Mundial, a Rota 66 teve papel importante no transporte de tropas e equipamentos militares. O sudoeste americano tinha bases de treinamento, e a estrada ajudava a conectar tudo.

Mas foi depois da guerra que veio a fase mais famosa. Os anos 1950 trouxeram prosperidade para muitas famílias americanas. Carro próprio, férias pagas, combustível barato. A viagem de carro pelo país virou um programa de família, e a Rota 66 era o caminho natural para quem queria conhecer o Grand Canyon ou chegar à Califórnia.

O nascimento da cultura de beira de estrada

Com tanto movimento, surgiu uma economia inteira em volta da estrada. Motéis com letreiros chamativos, lanchonetes, postos de gasolina com arquitetura curiosa, atrações bizarras para fazer o motorista parar. Cobras, dinossauros de concreto, lojas de lembranças, “postos indígenas” vendendo artesanato.

Era uma competição pela atenção de quem passava. Quanto mais estranho, melhor. Muito do que hoje parece charmoso e retrô nasceu como estratégia de marketing pura e simples. E sinceramente, isso torna tudo ainda mais interessante. A estrada é um museu a céu aberto da criatividade comercial americana.

Também foi nessa época que os primeiros restaurantes de fast food e os drive-ins começaram a se espalhar. Em San Bernardino, na Califórnia, perto da rota, os irmãos McDonald abriram seu restaurante em 1940. Hoje existe no local um pequeno museu não oficial sobre a história da rede.

A música que espalhou a Rota 66 pelo mundo

Em 1946, o compositor Bobby Troup escreveu “(Get Your Kicks on) Route 66”. A ideia, segundo a história contada pelo próprio Troup, surgiu durante uma viagem de carro com a esposa rumo à Califórnia. A letra praticamente funciona como um roteiro, citando cidades como St. Louis, Joplin, Oklahoma City, Amarillo, Gallup, Flagstaff, Winona, Kingman, Barstow e San Bernardino.

A primeira gravação de sucesso foi de Nat King Cole, ainda em 1946. Depois vieram versões de Chuck Berry, The Rolling Stones, Depeche Mode, John Mayer e muitos outros. A música atravessou gerações e estilos. Muita gente no mundo conheceu a Rota 66 por causa dela, antes mesmo de saber onde ficava.

É curioso pensar que uma canção de pouco mais de dois minutos fez mais pela fama da estrada do que qualquer campanha de turismo.

A televisão também entrou na história

Entre 1960 e 1964, foi ao ar nos EUA a série Route 66, que mostrava dois jovens viajando pelo país num Corvette conversível. Um detalhe que poucos sabem: a série era gravada em vários lugares dos Estados Unidos, e muitas locações nem ficavam na rota de verdade. Mesmo assim, ela reforçou a imagem da estrada como símbolo de liberdade e aventura.

O tema musical da série, composto por Nelson Riddle, também fez sucesso. Ou seja, a Rota 66 ganhou não uma, mas duas músicas famosas.

O começo do fim: as Interstates

Em 1956, o presidente Dwight Eisenhower assinou a lei que criou o sistema de rodovias interestaduais, as Interstates. Eisenhower tinha visto as autoestradas alemãs durante a guerra e ficou impressionado com a eficiência delas. A ideia era construir estradas largas, de várias faixas, sem cruzamentos, que permitissem viajar mais rápido e com mais segurança.

Para a Rota 66, isso foi um golpe lento e doloroso. Aos poucos, trechos da antiga estrada foram sendo substituídos por novas rodovias, como a I-55, a I-44, a I-40, a I-15 e a I-10. As novas pistas passavam ao lado das cidades, e não por dentro delas.

Cidades que ficaram para trás

O impacto nas pequenas cidades foi enorme. Lugares que viviam de motoristas de passagem viram o movimento desaparecer quase da noite para o dia. Motéis fecharam, postos foram abandonados, restaurantes baixaram as portas. Algumas cidades viraram praticamente fantasmas.

A última cidade a ser contornada pela Interstate foi Williams, no Arizona, em outubro de 1984. No ano seguinte, em 27 de junho de 1985, a Rota 66 foi oficialmente retirada do sistema de rodovias federais. As placas foram removidas. No papel, a estrada deixou de existir.

Esse é o ponto da história que mais chama atenção. Uma estrada “morta” que, em vez de ser esquecida, ficou ainda mais famosa.

O renascimento: como a Rota 66 voltou à vida

Quando a estrada foi desativada, algumas pessoas se recusaram a deixar a história morrer. O nome mais lembrado é o de Angel Delgadillo, um barbeiro de Seligman, no Arizona. Ele viu a cidade definhar depois que a I-40 passou longe dali e, em 1987, ajudou a fundar a Historic Route 66 Association of Arizona.

O grupo conseguiu que o estado reconhecesse trechos da estrada como “Historic Route 66”. Logo outros estados seguiram o exemplo, criaram suas próprias associações e colocaram placas marrons indicando o caminho histórico. Hoje, essas placas são essenciais para quem faz o percurso, porque o traçado original nem sempre é óbvio.

A barbearia de Delgadillo, em Seligman, virou ponto de visita para turistas do mundo inteiro. Ele ficou conhecido como o “Anjo da Rota 66”, e o apelido faz todo sentido.

O efeito Pixar

Em 2006, a Pixar lançou o filme Carros. A cidade fictícia de Radiator Springs, esquecida depois da construção de uma Interstate, foi inspirada nas cidades reais da Rota 66. O diretor John Lasseter e sua equipe percorreram a estrada para pesquisa, e Angel Delgadillo foi uma das pessoas que contaram a eles como foi ver a cidade perder o movimento.

Vários personagens e cenários do filme têm referências reais. O caminhão de Galena, no Kansas, inspirou o Mate. Os motéis em formato de tenda remetem ao Wigwam Motel. Algumas formações rochosas lembram paisagens do sudoeste americano.

O resultado foi uma nova geração de crianças e pais apaixonados pela estrada. Muita família hoje faz a viagem justamente por causa do filme. E quem conhece Carros acaba reconhecendo detalhes ao longo do caminho, o que deixa tudo mais divertido.

Por que a Rota 66 continua tão famosa hoje

Juntando tudo, fica mais fácil entender a fama. A Rota 66 não é só uma estrada. Ela é uma mistura de várias coisas que mexem com as pessoas.

O símbolo da liberdade americana

A cultura americana tem uma relação muito forte com o carro e com a ideia de pegar a estrada sem destino certo. A Rota 66 representa isso melhor do que qualquer outra. É o tal do “road trip” em sua forma mais pura. Janela aberta, rádio ligado, horizonte infinito.

A nostalgia de um tempo que não volta

Muita gente que viaja pela rota não viveu os anos 1950, mas sente saudade deles mesmo assim. Os letreiros de neon, as lanchonetes com bancos vermelhos, os carros antigos estacionados na frente dos motéis. A estrada vende um passado idealizado, e todo mundo sabe disso. Mas funciona.

A história real por trás da estética

O que diferencia a Rota 66 de um parque temático é que a história dela é verdadeira. As famílias do Dust Bowl existiram. As cidades realmente morreram e algumas realmente renasceram. Essa camada de realidade dá peso a cada parada.

Gente comum mantendo a estrada viva

Boa parte das atrações é mantida por moradores, pequenos empresários e voluntários. Não é uma grande corporação que cuida da Rota 66. São donos de motel, de lanchonete, de lojinha. Isso cria uma experiência muito mais pessoal e simpática.

O centenário em 2026

E tem um detalhe especial: em 11 de novembro de 2026 a Rota 66 completa 100 anos. Ao longo do ano, estados e cidades organizaram eventos, festivais e ações para celebrar a data, o que colocou a estrada mais uma vez em evidência. Para quem está pensando em fazer a viagem, o momento é bem simbólico.

Ainda dá para percorrer a Rota 66?

Dá, sim. A estimativa mais citada é que boa parte do traçado original, algo em torno de 85%, ainda pode ser percorrida. Alguns trechos estão bem conservados, outros viraram estradas secundárias, e alguns pedaços simplesmente desapareceram ou estão debaixo das Interstates.

Na prática, quem faz a viagem alterna entre a estrada histórica e as rodovias modernas. Em alguns lugares a Rota 66 corre paralela à Interstate, em outros ela some no meio de cidades e você precisa prestar atenção nas placas. Guias impressos e aplicativos específicos ajudam muito. Confiar apenas no GPS comum costuma levar você direto para a Interstate, o que tira a graça da coisa.

Quanto tempo é preciso para fazer a viagem

Dá para cruzar de Chicago a Santa Monica em uns cinco ou seis dias dirigindo bastante, mas isso seria correr demais. O mais recomendado é reservar pelo menos duas semanas. Assim sobra tempo para parar nas atrações, dormir em motéis temáticos, conversar com os moradores e fazer desvios.

E os desvios valem muito a pena. Saindo de Williams, por exemplo, o Grand Canyon fica a pouco mais de uma hora de carro. Do Arizona também dá para pensar em esticar até outros parques do sudoeste. Quem tem mais tempo transforma a Rota 66 em uma viagem de três semanas sem esforço nenhum.

Melhor época para ir

A primavera e o outono costumam ser os períodos mais agradáveis, mais ou menos de abril a junho e de setembro a outubro. O verão pode ser bem quente nos trechos de deserto, principalmente no Mojave, na Califórnia, e em partes do Arizona. Já o inverno pode trazer neve e frio forte em Illinois, Missouri e nas regiões mais altas do Novo México e do Arizona, como Flagstaff.

Outro ponto: algumas atrações e restaurantes pequenos funcionam com horário reduzido ou fecham na baixa temporada. Vale conferir antes.

Para que lado ir: leste para oeste ou o contrário?

O sentido tradicional é de Chicago para Santa Monica, seguindo o caminho dos migrantes dos anos 1930. Tem uma lógica emocional nisso. Você vai acompanhando a paisagem ficando mais árida e termina no oceano, como se a história tivesse um final feliz.

Mas nada impede fazer ao contrário. Algumas pessoas preferem começar pela Califórnia por causa dos vôos disponíveis ou do preço do aluguel do carro. A experiência continua sendo incrível nos dois sentidos.

Dicas práticas para brasileiros

Para quem sai do Brasil, alguns detalhes fazem diferença no planejamento.

Documentação

Brasileiros precisam de visto americano de turismo, o B1/B2, além do passaporte válido. Para dirigir, a CNH brasileira válida costuma ser aceita para turistas na maioria dos estados, mas muitas locadoras e viajantes recomendam levar também a Permissão Internacional para Dirigir, emitida pelo Detran. Ela ajuda a evitar mal-entendidos em caso de fiscalização, já que traduz as informações da carteira.

Vôos de ida e volta

O mais comum é comprar o vôo de ida para Chicago, chegando pelo aeroporto O’Hare, e o vôo de volta saindo de Los Angeles, pelo aeroporto LAX. É o famoso “multidestinos” ou “open jaw”. Na maioria das vezes, comprar assim não sai muito mais caro do que um ida e volta comum, e evita ter que voltar todo o caminho.

Aluguel de carro

Esse é um ponto importante. Pegar o carro em um estado e devolver em outro geralmente gera uma taxa extra, chamada de one-way fee. Dependendo da locadora e da época, ela pode ser bem salgada. Vale pesquisar com antecedência e comparar empresas, porque a diferença de preço entre elas às vezes é grande.

Também é bom ficar atento ao seguro. Ler o que está incluído no contrato evita surpresa no balcão.

Hospedagem

Dormir em motéis históricos é parte da experiência. Lugares como o Wigwam Motel, em Holbrook, ou o Blue Swallow, em Tucumcari, ficam lotados em alta temporada e ainda mais em um ano de centenário. Reservar antes é uma boa ideia. Nas cidades maiores, redes de hotéis comuns resolvem bem e costumam ter preços razoáveis.

Os motéis de beira de estrada nos Estados Unidos não têm a conotação que a palavra tem no Brasil. São hospedagens simples, pensadas para viajantes de carro, normalmente com estacionamento na porta do quarto.

Distâncias e combustível

Em alguns trechos, principalmente no deserto e nas áreas mais vazias do Novo México, Arizona e Califórnia, os postos podem ficar bem distantes uns dos outros. Abastecer sempre que o tanque estiver pela metade é uma regra simples que evita dor de cabeça.

Levar água no carro também é recomendado, especialmente no verão. Sinal de celular pode falhar em algumas regiões, então ter mapas baixados offline ajuda muito.

As paradas que mais aparecem nas listas dos viajantes

Algumas atrações são quase unanimidade entre quem faz a rota. Não dá para ver tudo, e nem precisa. Mas estas costumam valer a parada:

  • A placa “Begin Route 66”, em Chicago
  • O Gemini Giant, em Wilmington, Illinois
  • A Chain of Rocks Bridge, em St. Louis
  • A Blue Whale, em Catoosa, Oklahoma
  • O Cadillac Ranch, em Amarillo, Texas
  • O Midpoint Cafe, em Adrian, Texas
  • Os letreiros de neon de Tucumcari, no Novo México
  • O Petrified Forest National Park, no Arizona
  • O Wigwam Motel, em Holbrook
  • A cidade de Seligman e a barbearia de Angel Delgadillo
  • Os burros de Oatman
  • O Santa Monica Pier, na Califórnia

Muita gente diz que as melhores partes da viagem acabam sendo as que não estavam no roteiro. Uma lanchonete aleatória com uma torta de cereja incrível, um dono de posto que conta histórias por meia hora, um pôr do sol no meio do nada. A Rota 66 tem muito disso.

O que torna a viagem diferente de qualquer outra

Existem roteiros nos Estados Unidos com paisagens mais impressionantes. A Pacific Coast Highway, na Califórnia, tem vistas de tirar o fôlego. Os parques de Utah são de outro planeta. Mas a Rota 66 tem algo que essas outras não têm do mesmo jeito: uma narrativa.

Você não está só indo de um ponto a outro. Você está atravessando quase um século de história americana. A crise, a migração, a prosperidade, o declínio, o renascimento. Tudo isso aparece na janela do carro, em cada motel restaurado e em cada cidade que quase desapareceu.

E tem também o fator humano. Os moradores das cidadezinhas costumam receber os turistas com muito carinho, até porque sabem que são esses visitantes que mantêm tudo de pé. Muitas vezes eles fazem questão de perguntar de onde você vem. Brasileiros, inclusive, são bem recebidos e frequentemente viram assunto nas conversas.

Não é uma viagem perfeita, e tudo bem

Vale deixar as expectativas no lugar certo. Parte da estrada é monótona, com longos trechos retos de paisagem repetida. Algumas atrações são pequenas e se resolvem em dez minutos. Algumas cidades estão realmente decadentes, com prédios abandonados e pouca coisa aberta.

Mas isso faz parte. A Rota 66 não é um parque temático limpinho. Ela é real, com cicatrizes. E é justamente essa mistura de brilho e abandono que torna tudo tão marcante. Quem espera perfeição pode se frustrar. Quem vai aberto à experiência costuma voltar falando da viagem por anos.

Uma estrada que virou ideia

No fim das contas, a fama da Rota 66 vem de uma combinação rara. Ela nasceu para resolver um problema prático de transporte, virou rota de sobrevivência na Grande Depressão, ganhou status de celebridade com música e televisão, quase morreu com as Interstates e foi salva por gente comum que se recusou a desistir dela.

Pouquíssimas obras de engenharia conseguem uma trajetória assim. A Rota 66 deixou de ser só asfalto faz muito tempo. Ela virou uma ideia de liberdade, de recomeço e de estrada aberta. E perto de completar 100 anos, continua atraindo gente de todos os cantos do mundo, que chega querendo ver um pedaço dos Estados Unidos que não aparece nos cartões-postais de Nova York ou Las Vegas.

Se a vontade de fazer essa viagem já bateu, o melhor conselho é simples: vá com tempo, sem pressa e com espaço no roteiro para o inesperado. A estrada sempre guarda alguma surpresa para quem está disposto a parar.

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