Como é a Imigração em Aeroportos da China
Desembarcar na China parece assustador, mas o processo de imigração nos aeroportos chineses é mais organizado e rápido do que a maioria imagina: entenda cada etapa, do cartão de chegada digital à alfândega, com as regras que valem hoje para brasileiros.

Quem nunca viajou para a China costuma carregar uma ideia meio cinematográfica da chegada. Oficiais sérios, corredores longos, formulários incompreensíveis, um clima de “será que vão me deixar entrar?”. A realidade, felizmente, é outra. A imigração chinesa é burocrática, sim, mas é uma burocracia previsível, quase mecânica. Depois que você entende a ordem das coisas, tudo flui. E o país tem feito um esforço visível, nos últimos anos, para acelerar a entrada de estrangeiros, com isenções de visto e formulários digitais que mudaram bastante o jogo.
Vou explicar o passo a passo como ele acontece de verdade, do momento em que o avião encosta no finger até a saída pelo canal da alfândega. Falo das regras atuais, das exceções que pouca gente conhece e dos erros que fazem turista perder tempo ou, pior, ser barrado.
O que mudou de verdade nos últimos anos
Durante muito tempo, chegar à China exigia visto para quase todo mundo, um cartão de papel distribuído no avião e uma fila que parecia não andar. Isso mudou em duas frentes. Primeiro, o país passou a isentar de visto cidadãos de uma lista grande de países, e o Brasil entrou nessa lista em junho de 2025. Segundo, o velho cartão de chegada em papel ganhou uma versão digital, lançada em novembro de 2025. As duas mudanças juntas fizeram a chegada ficar bem mais leve.
Mas calma, porque tem nuance. Isenção de visto não é a mesma coisa que trânsito sem visto, e o cartão digital não substitui visto nenhum. Ele é só a declaração de entrada que todo estrangeiro precisa apresentar, por cima de qualquer permissão que o passaporte já dê. Vou separar essas coisas com calma, porque misturá-las é a origem de metade da confusão.
Antes de qualquer coisa: qual é a sua situação de entrada
Existem três caminhos principais para um brasileiro pisar na China hoje, e cada um tem regras próprias na hora da imigração.
O primeiro é o visto tradicional, que continua existindo para quem vai trabalhar, estudar, fazer reportagem ou ficar por períodos longos. Quem tem visto colado no passaporte passa pela imigração normalmente, apresenta o documento e segue. Simples.
O segundo é a isenção unilateral de visto, que vale para 43 países, incluindo o Brasil desde 1º de junho de 2025. Com ela, você pode entrar sem visto para turismo, negócios, visita a parentes ou amigos, intercâmbio e trânsito, por até 30 dias. O detalhe importante: você não precisa fazer nenhuma declaração prévia em embaixada ou consulado antes de viajar. Chegou, apresentou o passaporte, o oficial verifica o motivo da viagem e pronto. Mas é recomendado levar comprovantes: passagem de volta, reserva de hotel, carta convite se for a negócios, e dinheiro ou cartão para comprovar que vai se manter no período. O agente de fronteira pode pedir, ou pode nem olhar. Melhor ter do que lamentar.
O terceiro é o trânsito sem visto, que tem duas versões. A de 24 horas vale em praticamente todos os portos de entrada: você só precisa ter passagem com assento confirmado para um terceiro país ou região e permanecer na área restrita do aeroporto. Se quiser sair da área, precisa pedir uma autorização temporária de entrada. E existe a versão estendida, de 240 horas, que é a mais interessante.
O trânsito de 240 horas: dez dias de China sem visto
Essa é uma das políticas mais generosas do mundo em matéria de trânsito. Desde dezembro de 2024, cidadãos de 57 países podem entrar na China sem visto, por até 10 dias, desde que estejam em trânsito entre dois países ou regiões diferentes. O Brasil está na lista. A lógica é simples: você sai do país A, entra na China, e segue para o país B. Hong Kong, Macau e Taiwan contam como “terceiro destino”, o que abre possibilidades ótimas para quem quer combinar, por exemplo, São Paulo, Xangai e Hong Kong num roteiro só.
As condições são objetivas. O passaporte precisa ter validade de pelo menos três meses. A passagem de ida e a de saída precisam estar confirmadas, com data e assento reservados, para um destino diferente de onde você veio. E a entrada precisa acontecer por um dos 65 portos autorizados, espalhados por 24 províncias, regiões autônomas e municípios. Os grandes aeroportos estão todos lá: Pequim, Xangai, Cantão, Shenzhen, Chengdu, e por aí vai.
Uma confusão comum é achar que esse trânsito serve para trabalhar ou estudar. Não serve. A política cobre turismo, negócios, visitas familiares e outras atividades permitidas. Emprego, estudo formal e reportagem continuam exigindo visto. Se a finalidade declarada não bater com o que a política permite, a inspeção de fronteira pode negar a entrada. Na prática, turista que chega com passagem confirmada de saída dentro de 10 dias quase nunca tem problema.
O cartão de chegada digital: a novidade que elimina fila
A partir de 20 de novembro de 2025, a Administração Nacional de Imigração da China, a NIA na sigla em inglês, passou a aceitar o preenchimento online do cartão de chegada. Antes, era aquele formulariozinho de papel que a companhia aérea distribuía no vôo, todo mundo preenchia de caneta, errava, pedia outro, e a fila travava. Agora dá para fazer tudo pelo celular antes mesmo de embarcar.
Os canais oficiais são quatro: o site da NIA, o aplicativo “NIA 12367”, os miniprogramas dentro do WeChat ou do Alipay, e o QR code que aparece nos postos de entrada. O serviço é gratuito. Isso é importante frisar: qualquer site que cobrar por esse preenchimento não é oficial. A NIA já publicou alerta sobre sites falsos que imitam o serviço e cobram taxas. Fuja deles.
O preenchimento é rápido: você envia uma foto da página do passaporte, confirma seus dados, o vôo, onde vai se hospedar e o motivo da viagem. Na chegada, apresenta o QR code gerado junto com o passaporte. Quem não conseguiu fazer antes não fica na mão: dá para preencher no próprio posto, escaneando um QR code, usando os terminais de autoatendimento ou, no limite, preenchendo o papel, que continua existindo como plano B. Ninguém é barrado por não ter feito o formulário online.
Existem sete categorias isentas de preencher o cartão de chegada. Quem tem o cartão de residência permanente para estrangeiros, quem tem a permissão de viagem para Hong Kong e Macau, quem viaja com visto coletivo ou em grupo isento, quem está em trânsito direto de até 24 horas sem sair da área restrita, passageiro de cruzeiro que entra e sai no mesmo navio, quem entra pelas faixas rápidas, e tripulantes estrangeiros. Para o turista comum, o formulário é obrigatório, com ou sem visto.
Um aviso que eu sempre dou: preencha com calma e confira o endereço de hospedagem. O dado precisa bater com o que você vai informar depois. Nome errado, número de passaporte trocado, isso gera retrabalho na cabine e atraso. Cinco minutos de atenção no hotel ou no avião poupam vinte na fila.
O que acontece quando o avião pousa
Desceu da aeronave, siga as placas de “Arrival” ou o ideograma de entrada. Nos aeroportos grandes, os avisos estão em chinês e inglês, e cada vez mais em português nos pontos de maior fluxo. Não entre nos corredores de conexão doméstica a menos que você tenha uma conexão confirmada. É um erro bobo, mas acontece muito com quem está cansado depois de um vôo longo.
O caminho é sempre o mesmo: área de inspeção de fronteira, esteira de bagagem, alfândega, e só então o saguão de desembarque. Nessa ordem. Parece óbvio, mas a imigração vem antes da esteira de bagagem, e muita gente se desespera procurando a mala primeiro. Respira, segue o fluxo, que é linear.
Na chegada ao salão de imigração, você vai ver duas coisas: filas separadas para cidadãos chineses e para estrangeiros, e, em alguns terminais, um aviso para apresentar o QR code do cartão de chegada. Tenha o celular com o código aberto e o passaporte na mão. Documento pronto evita aquele malabarismo de procurar papel no fundo da mochila enquanto a fila anda.
Na cabine de imigração: o que o oficial faz
Quando chega a sua vez, você entrega o passaporte e o cartão de chegada, em papel ou no formato digital. O oficial vai conferir a permissão de entrada, seja o visto, seja a isenção, seja o trânsito. E é aqui que entra a biometria.
Estrangeiros entre aproximadamente 14 e 70 anos passam pela coleta de impressões digitais dos dez dedos e por uma foto facial na cabine. É um procedimento padrão, rápido, que existe em praticamente todos os pontos de entrada do mundo. Você coloca as mãos num leitor, olha para a câmera, e acabou. Não dói, não suja, não demora. Quem tem dedos machucados ou dificuldade, o oficial orienta na hora.
As perguntas costumam ser poucas e diretas: qual o motivo da viagem, quantos dias vai ficar, onde vai se hospedar. Responda com calma e de forma curta. Turismo, dez dias, hotel tal. Não tem interrogatório, não tem jogo de cintura. O oficial está ali para confirmar que a história bate com os documentos, só isso.
Uma observação de quem acompanha viajantes há tempos: o medo que muita gente sente nesse momento é desproporcional ao que acontece de fato. A cabine de imigração chinesa é um balcão de conferência, não uma sala de audiência. Se seus papéis estão em ordem e a finalidade da viagem corresponde à permissão, a conversa dura menos de dois minutos.
Ao final, o oficial devolve o passaporte carimbado, ou com o registro eletrônico de entrada, e você segue para a esteira. O papel do cartão de chegada fica retido ali. Se você receber um canhoto ou comprovante de saída, guarde, porque pode ser solicitado na hora de ir embora. A maioria dos casos hoje já é toda digital, então não espere papel voando.
As faixas rápidas e quem pode usá-las
Alguns viajantes conseguem pular a fila tradicional usando as faixas rápidas, os e-channels automatizados. Quem tem o cartão de residência permanente da China, quem possui o cartão APEC com o selo adequado, e quem já teve a biometria registrada em viagens anteriores pode ser direcionado para esses portões. A máquina lê o passaporte, escaneia o rosto e as digitais, e libera sem contato com oficial. Quem entra por essas faixas fica isento do cartão de chegada, como mencionei antes.
Não conte com isso na primeira viagem. As faixas rápidas geralmente exigem um cadastro prévio de biometria. Na prática, o turista de primeira vez vai passar pelo balcão com oficial mesmo. É rápido, não se preocupe.
Bagagem e alfândega: o outro ponto de tensão
Passou pela imigração, chegou a hora da esteira. Depois de pegar a mala, você cruza a alfândega, que funciona num sistema de dois canais. O canal verde é para quem não tem nada a declarar. O canal vermelho é para quem carrega itens que precisam de declaração.
A pergunta que sempre me fazem é sobre dinheiro. A regra é clara: valores em espécie acima de US$ 5 mil, ou o equivalente em outras moedas, precisam ser declarados, assim como renminbi acima de 20 mil. Declarar não é proibido, é só obrigatório. Quem declara entra pelo vermelho, apresenta o valor, e segue. Quem tenta entrar pelo verde com valor acima do limite corre o risco de ter o excedente retido.
Produtos de origem animal e vegetal merecem atenção redobrada. Carnes, frutas frescas, sementes e plantas em geral são restritos ou proibidos. Muita gente esquece a maçã no fundo da bolsa e se complica à toa. Eletrônicos de alto valor em quantidade comercial também podem gerar cobrança de imposto. Para o turista comum, com mala de roupa e um notebook, o canal verde é o caminho natural.
As franquias de isenção seguem o padrão internacional: cerca de 400 cigarros e duas garrafas de bebida alcoólica de até 750 ml cada, além de itens de uso pessoal em quantidade razoável. Nada muito diferente do que você já conhece em outros países.
O registro de hospedagem: um detalhe que quase ninguém explica
Esse é o ponto que mais pega viajante desavisado, porque não acontece no aeroporto, mas logo depois. Se você vai ficar em hotel, o próprio estabelecimento faz o seu registro junto às autoridades locais no check-in. Você não precisa fazer nada, só entregar o passaporte na recepção, como em qualquer lugar do mundo.
O problema surge quando a hospedagem é particular. Se você vai dormir na casa de um amigo, de um parente ou num apartamento alugado, o registro precisa ser feito na delegacia de polícia local dentro de 24 horas após a chegada, ou 72 horas em áreas rurais. Esse registro é obrigatório e gera um comprovante que pode ser pedido na saída do país. Não registrar pode trazer dor de cabeça, inclusive multa. Se o anfitrião não souber como fazer, vá junto à delegacia com o passaporte e o endereço em mãos. É um procedimento chato, mas rápido.
Os aeroportos grandes, na prática
A China tem aeroportos que parecem cidades, e cada um tem suas particularidades. Em Pequim, você tem duas portas de entrada: o tradicional Aeroporto Internacional de Pequim Capital, o PEK, e o novíssimo Daxing, o PKX, que é uma obra de arte por si só. Em Xangai, o Pudong, PVG, concentra a maior parte dos vôos internacionais, enquanto o Hongqiao, SHA, atende mais o tráfego doméstico e regional. No sul, Cantão, o CAN, e Shenzhen, o SZX, são as portas da região do Delta do Rio das Pérolas. Chengdu, com o Tianfu, o TFU, virou a principal entrada para quem vai ao oeste do país.
O fluxo em todos eles é o mesmo que descrevi, o que muda é o tamanho. Em Pudong e no Capital, as distâncias de caminhada são grandes, então saia do avião já com o documento à mão e sem pressa de correr. Daxing e Tianfu são mais novos, com sinalização melhor e mais espaço entre as áreas. Nenhum deles exige procedimento diferente do padrão, então não se assuste com o tamanho.
Documentos que vale a pena levar impressos
Tecnologia resolve muita coisa, mas papel impresso ainda salva em alguns momentos. Leve uma cópia da passagem de volta, da reserva de hotel e, se for o caso, da carta convite. Quando o sinal do celular falha ou a bateria acaba, o papel fala por você. Isso vale para qualquer país, mas na China, onde alguns aplicativos podem não funcionar logo na chegada, a cópia física tem valor dobrado.
Também é bom ter o endereço do hotel escrito em chinês. Parece detalhe, mas na hora de preencher o cartão de chegada ou responder ao oficial, ter o nome e o endereço no idioma local evita aquela gagueira de soletrar pinyin errado. Mande um e-mail para o hotel antes e peça o endereço em mandarim, ou tire um print da página de reserva.
Erros comuns que atrasam a entrada
O primeiro erro é não ter a passagem de saída. Isso vale principalmente para quem entra pelo trânsito de 240 horas: sem o bilhete confirmado para o terceiro destino, a entrada pode ser negada na hora, ainda no aeroporto de origem ou na conexão. Algumas companhias aéreas conferem isso no embarque, então o problema pode aparecer antes mesmo de decolar.
O segundo é declarar uma finalidade que não bate com a permissão. Dizer que vai “trabalhar” quando está num visto de turismo é o jeito mais rápido de criar um problema. Se a viagem é turismo, diga turismo. Se é negócios com reunião marcada, tenha a carta convite. Coerência entre o que você diz, o que seus documentos mostram e o que a permissão permite é a chave de tudo.
O terceiro é o excesso de itens proibidos na mala. Comida, planta, carne, remédio em quantidade fora do comum. Na dúvida, deixe em casa. A alfândega chinesa tem scanner, e o canal verde não é carta branca.
O que fazer se algo der errado
Se, por algum motivo, você for direcionado para uma sala de verificação adicional, mantenha a calma e coopere. Isso acontece com frequência baixa e, na maior parte das vezes, é só uma conferência de rotina: checam o motivo da viagem, o hotel, a passagem de volta. Responda o que for perguntado, mostre os documentos que pedirem. Não tente dar respostas elaboradas demais, não invente, não omita.
A linha de serviços de imigração da China, o 12367, é o canal oficial para dúvidas. O aplicativo “NIA 12367” também resolve muita coisa. Se você tiver dúvida sobre a sua situação antes de viajar, vale consultar esses canais ou a embaixada e o consulado chineses no Brasil. Informação oficial, na dúvida, é sempre o melhor caminho.
A sensação de desembarcar
Depois de cruzar a alfândega e pisar no saguão de desembarque, a impressão que fica é de que o processo foi menos assustador do que a expectativa. A infraestrutura é moderna, os corredores são limpos, os avisos são claros, e a ordem das etapas não deixa espaço para improviso. O que assusta é o desconhecido, não a China em si.
Nos últimos dois anos, o país abriu as portas de uma forma que pouca gente ainda percebeu. Brasileiro hoje entra sem visto por 30 dias, ou em trânsito por 10 dias, com um formulário digital que dá para preencher no sofá de casa. Para quem vinha de uma era de visto caro, fila no consulado e formulário de papel, a diferença é enorme. A imigração deixou de ser o obstáculo e virou, na maioria dos casos, um trâmite de poucos minutos.
Meu conselho, como quem orienta viajantes o tempo todo, é simples: chegue com os documentos em ordem, preencha o cartão digital com antecedência, responda com clareza e não carregue nada que não deveria. Feito isso, a porta abre. E do outro lado dela está um dos países mais fascinantes para se conhecer hoje, com uma chegada que ficou, contra todas as expectativas, surpreendentemente tranquila.
A burocracia chinesa tem fama de dura, e em alguns pontos ela é mesmo. Mas na imigração de aeroporto, o que prevalece hoje é eficiência. Entenda as regras, siga a ordem, e o pior que vai acontecer é uma fila num domingo de alta temporada. O resto é só formalidade bem resolvida.
Quem viaja bem informado viaja leve, e chega à China sem o peso de achar que a fronteira é um muro. É uma porta, das mais organizadas que você vai cruzar. Basta saber qual caminho de entrada é o seu, ter o papel certo no bolso e seguir as placas. O dragão da burocracia, nesse caso, tem mais fumaça do que fogo.
