Como Levar Power Bank na Viagem de Avião

Power bank só pode ir na bagagem de mão, com limite de dois por passageiro e capacidade de até 100 Wh, e desde abril de 2026 a ANAC proíbe recarregar o aparelho a bordo e orienta que ele não seja usado durante o vôo, além de exigir que fique embaixo do assento ou no bolsão da poltrona, nunca no compartimento superior.

Power bank só pode ir na bagagem de mão, com limite de dois por passageiro e capacidade de até 100 Wh, e desde abril de 2026 a ANAC proíbe recarregar o aparelho a bordo

Essa é uma das regras que mais mudou nos últimos tempos, e mudou de verdade. Não é ajuste de detalhe. Quem viajou há dois anos e voltou a voar agora encontra um cenário diferente, com companhia aérea avisando pelo alto-falante, comissário checando bolso de poltrona e passageiro perdendo carregador na fila da segurança.

Vale entender o que aconteceu, porque a explicação faz a regra parar de parecer chatice burocrática.

Por que o power bank virou o vilão da cabine

Power bank é, essencialmente, uma bateria de íons de lítio grande dentro de uma caixinha de plástico ou alumínio. E baterias de lítio têm um comportamento que a indústria aérea aprendeu a temer: a fuga térmica.

O processo funciona assim. Um defeito interno, um curto entre as células, um impacto que amassou algo por dentro, uma solda mal feita na fábrica, e uma célula começa a esquentar. Esse calor degrada os materiais vizinhos, que liberam gases inflamáveis e mais calor, que degradam mais material. É uma reação que se alimenta de si mesma. A temperatura pode passar de várias centenas de graus em segundos, e o fogo resultante é difícil de apagar com água, porque a fonte de calor está dentro do dispositivo, não fora.

Em terra, isso queima uma mesa. Dentro de um avião pressurizado, a trinta e cinco mil pés, com cento e oitenta pessoas sentadas, é outra coisa.

O agravante é a quantidade. Praticamente todo passageiro carrega hoje pelo menos uma bateria de lítio, e muitos carregam quatro ou cinco entre celular, notebook, fone, relógio e power bank. O número de baterias voando por dia cresceu de forma absurda em uma década, e com ele o número de incidentes registrados. Autoridades aeronáuticas em vários países passaram a documentar episódios de fumaça e fogo em cabine envolvendo carregadores portáteis, e a ICAO, a Organização da Aviação Civil Internacional, revisou suas especificações para transporte de baterias de lítio.

O Brasil incorporou essa revisão.

O que a ANAC determinou em 2026

Em 24 de abril de 2026, a ANAC publicou no Diário Oficial da União a atualização das regras para transporte de carregadores portáteis, dentro da norma sobre artigos perigosos. A agência foi explícita: o objetivo é reduzir o risco de incêndio em cabine causado por superaquecimento de baterias de lítio, e o texto incorpora as novas especificações da ICAO.

O que passou a valer:

Transporte exclusivamente na bagagem de mão. Isso já existia antes, mas agora está reforçado.

Limite de dois power banks por passageiro. Essa é a novidade que pegou mais gente de surpresa, especialmente quem viaja com equipamento de trabalho.

Capacidade de até 100 Wh liberada sem autorização.

Entre 100 Wh e 160 Wh, é preciso autorização prévia da companhia aérea.

Acima de 160 Wh, proibido. E o texto é claro sobre o destino do item: deve ser descartado antes da entrada na aeronave.

Proibição de recarregar o power bank a bordo. Ou seja, você não pode plugar o carregador portátil na tomada ou na USB do avião para enchê-lo.

Orientação para que o power bank não seja usado para carregar outros eletrônicos durante o vôo.

Exigência de proteção contra curto-circuito, com terminais isolados ou o equipamento na embalagem original.

A ANAC recomendou também que os passageiros consultem a companhia antes de embarcar, porque cada empresa pode ser mais rigorosa que o mínimo regulatório. E várias foram.

A parte que as companhias apertaram ainda mais

A partir de maio de 2026, as empresas brasileiras começaram a aplicar as regras com camadas adicionais, e algumas dessas camadas são bem específicas.

A principal: o power bank não pode ficar no compartimento superior da cabine, aquele bagageiro em cima da sua cabeça. Ele precisa estar em mochila, bolsa ou item pessoal posicionado embaixo do assento da frente, ou no bolsão da poltrona.

O motivo é puramente prático e faz muito sentido quando você pensa como tripulação. Se uma bateria começa a esquentar dentro de uma mala fechada, a dois metros de altura, trancada num bagageiro, ninguém percebe até sair fumaça. E quando sai, abrir aquele compartimento com fogo dentro é o pior cenário possível. Já se o aparelho está embaixo do assento ou no bolsão, alguém sente o cheiro, vê a deformação, percebe o calor. A tripulação tem procedimento treinado e equipamento para isolar e conter, mas precisa de acesso rápido.

A Latam foi uma das primeiras a aplicar na prática, e as demais seguiram. A orientação de não conectar o power bank às entradas USB da aeronave também passou a ser comunicada nos avisos de bordo.

E fica valendo a regra que já existia: se sua mala de mão precisar ser despachada no portão de embarque, algo comum em vôos cheios e aeronaves menores, você tem que tirar o power bank de dentro antes de entregar. Isso não é opcional.

Fazendo a conta: o seu power bank passa?

Aqui está onde a maior parte das dúvidas nasce, porque power bank quase nunca vem com a capacidade em Wh estampada de forma óbvia. Vem em mAh, que é o número que aparece grande na embalagem, porque vende melhor.

A conversão é simples:

Wh=mAh×V1000Wh=1000mAh×V

A tensão nominal das células de lítio usadas na maioria dos power banks é 3,7 V. Então, na prática:

Um power bank de 10.000 mAh tem cerca de 37 Wh. Passa com folga.

Um de 20.000 mAh tem cerca de 74 Wh. Passa.

Um de 26.800 mAh fica em torno de 99 Wh. Passa, mas está no limite. Não é coincidência: essa capacidade se tornou padrão de mercado exatamente porque fabricantes projetaram para caber na regra aérea.

Um de 30.000 mAh chega a cerca de 111 Wh. Já cai na faixa que exige autorização prévia da companhia.

Um de 40.000 mAh passa dos 148 Wh. Autorização obrigatória, e muita companhia simplesmente não autoriza.

Um de 50.000 mAh ultrapassa 160 Wh. Proibido.

Ou seja, o corte de 100 Wh corresponde a algo em torno de 27.000 mAh, e é essa a referência que a imprensa especializada e as próprias companhias vêm usando.

Um detalhe que confunde: alguns fabricantes anunciam mAh com base na tensão de saída, 5 V, em vez da tensão das células. Isso inflaciona o número. Se a etiqueta diz “10.000 mAh a 5 V”, a capacidade real em Wh é 50 Wh, não 37. Nos dois casos passa, mas em modelos maiores essa diferença pode empurrar você para outra faixa. Quando houver dúvida, o que vale é o Wh impresso, e a maioria dos fabricantes sérios imprime.

O erro mais caro: power bank sem informação na carcaça

Esse é o item mais confiscado da categoria, e é uma perda cem por cento evitável.

Se o power bank não tem nenhuma marcação de capacidade, tensão ou Wh gravada no corpo do aparelho, o agente de segurança não tem base para avaliar. E o procedimento na dúvida é recusar. Não existe benefício da dúvida aqui, e não adianta mostrar a página do site onde você comprou, nem a caixa que ficou em casa.

Power bank genérico, sem marca, comprado em marketplace de importação barata, frequentemente vem com nada legível ou com a impressão que desbota em três meses de bolso. Se você tem um desses e viaja com frequência, vale trocar. Não pela regra, mas porque produto sem rastreabilidade de fabricação é justamente o que apresenta mais risco de defeito de célula.

Se a marcação está apagando, uma solução prática é imprimir ou anotar a especificação e colar com fita transparente na carcaça, junto com a caixa original guardada. Não é garantia, porque a decisão é do agente, mas ajuda.

A situação fora do Brasil

Aqui é onde vale prestar atenção, porque o movimento é internacional e algumas companhias foram bem além do que a ANAC exige.

O ponto de partida global é o mesmo: as recomendações da ICAO, que se traduzem nos limites de 100 Wh, 100 a 160 Wh com autorização, e proibição acima de 160 Wh. Isso você encontra praticamente em qualquer país. A obrigatoriedade de transporte apenas em cabine também é praticamente universal.

O que varia é o uso a bordo e o número de unidades permitidas.

Várias companhias asiáticas e do Oriente Médio passaram a proibir explicitamente o uso de power banks durante o vôo, não apenas recomendar contra. A Emirates é um dos casos mais divulgados: proibiu o uso a bordo, com regras sobre onde o aparelho deve ficar. Companhias sul-coreanas, japonesas, taiwanesas e de Cingapura adotaram medidas semelhantes, muitas delas após incidentes de fogo em cabine que ganharam repercussão.

O padrão que se formou em boa parte do mundo é esse: pode levar, não pode usar, não pode recarregar, tem que ficar visível ou acessível.

Alguns países e companhias também limitam o número total de baterias sobressalentes, contando power banks junto com baterias avulsas de câmera e de notebook. Se você é fotógrafo, videomaker ou trabalha com equipamento que exige muitas baterias, isso precisa ser verificado antes, companhia por companhia, porque o limite de duas unidades pode ser um problema real de logística de trabalho.

Nos Estados Unidos, a TSA permite power bank em bagagem de mão dentro dos limites de Wh e proíbe na despachada. As companhias americanas seguiram a tendência de restringir uso a bordo, e a orientação de manter o aparelho acessível se tornou comum.

Na Europa, o desenho é o mesmo, com o detalhe de que cada país tem sua autoridade aplicando, e algumas são mais explícitas que outras nas comunicações de bordo.

O que acontece se você errar

Depende de onde o erro é detectado.

Na inspeção de segurança, com power bank acima de 160 Wh ou sem informação legível, o item é retido e você escolhe entre descartar ou, em alguns aeroportos, deixar num guarda-volumes pago, se existir. Não há como despachar depois, porque despachar power bank é proibido. Então na prática você perde o aparelho.

Com power bank entre 100 e 160 Wh sem autorização prévia, você pode conseguir resolver no balcão da companhia se ainda estiver antes do check-in. Depois da segurança, dificilmente.

Com mais de dois power banks, o excedente é retido. E aqui não tem jeito: não dá para despachar o extra.

A bordo, usando ou recarregando o aparelho, a consequência é o comissário pedir para desligar e guardar. Insistir depois de orientação da tripulação é outro assunto, porque desobedecer instrução de segurança a bordo tem previsão legal e pode gerar registro de ocorrência e responsabilização. Não vale a pena por causa de trinta por cento de bateria no celular.

Como levar power bank do jeito certo, na prática

A sequência que funciona e evita todos os cenários acima.

Antes de sair de casa

Confira o que está impresso na carcaça. Procure o valor em Wh. Se só houver mAh, faça a conta. Se não houver nada, não leve.

Conte quantos power banks você está levando de fato, incluindo aquele fino que você usa como reserva e esqueceu que existe. O limite é dois.

Verifique o estado físico do aparelho. Carcaça estufada, deformada, com sinal de que a bateria inchou, é motivo para não viajar com ele e, mais que isso, para descartar em ponto de coleta de eletrônicos. Bateria inchada já está em processo de degradação. Não é exagero, é o principal sinal de alerta.

Carregue o power bank antes de viajar, mas não deixe a cem por cento se não precisar. Bateria de lítio armazenada em carga total sofre mais estresse. Algo em torno de setenta por cento é o mais estável, e ainda te dá autonomia de sobra.

Se o seu modelo é entre 100 e 160 Wh e você realmente precisa dele, entre em contato com a companhia com antecedência. Não no dia. Peça a autorização por escrito, guarde o número do protocolo ou o e-mail, e leve isso impresso ou no celular. No check-in, apresente antes que perguntem.

Na arrumação da mochila

Coloque o power bank num bolso de acesso rápido e visível, não enterrado no meio das roupas. Você vai precisar tirar ou mostrar na inspeção com frequência, e vai precisar deixá-lo acessível a bordo.

Isole os terminais. Se o power bank é do tipo com portas USB comuns, isso já está naturalmente protegido. Se tem contatos expostos, cabo integrado com plugue solto ou algo que possa fechar circuito com uma moeda ou chave, use a embalagem original, um saquinho separado, ou fita isolante nos contatos. Esse é um dos itens da norma e é o mais ignorado.

Não deixe o power bank solto no mesmo bolso que chaves, moedas e objetos metálicos. É exatamente assim que curto-circuito acontece dentro de bolsa.

Se você leva cabos, mantenha-os desconectados do power bank. Aparelho plugado em cabo dentro da mochila pode ligar sozinho por pressão e esquentar.

Na inspeção de segurança

Tire o power bank e deixe visível na bandeja, junto com os eletrônicos maiores que celular. Não precisa esperar ser pedido. Isso evita a bagagem ser redirecionada para revista manual.

Se o agente perguntar a capacidade, responda o número em Wh, não em mAh. Mostra que você sabe do que está falando e resolve mais rápido.

Durante o vôo

Guarde na mochila embaixo do assento da frente ou no bolsão da poltrona. Não no bagageiro superior.

Não use para carregar nada. Não conecte na USB ou na tomada do avião para recarregar o próprio power bank.

Se sentir cheiro estranho, calor anormal ou perceber deformação no aparelho, chame a tripulação imediatamente. Não tente resolver sozinho, não coloque na bolsa, não enfie embaixo do banco. Comissário tem procedimento e equipamento para isso, incluindo bolsas de contenção térmica em muitas aeronaves.

Como carregar o celular no avião se o power bank está proibido de uso

Essa é a pergunta prática que fica, e ela tem resposta.

A maioria das aeronaves modernas de médio e longo alcance tem tomada USB no assento ou tomada de energia entre os assentos. Nesses casos, você carrega o celular direto ali, sem intermediário, e isso é permitido. A proibição é sobre o power bank, não sobre carregar dispositivos na fonte da aeronave.

Em vôos curtos, domésticos, em aeronaves mais antigas ou de baixo custo, muitas vezes não há tomada. Aí a estratégia é chegar com bateria cheia e economizar. Modo avião já reduz consumo bastante, porque o celular para de procurar sinal. Brilho baixo, conteúdo baixado antes do vôo em vez de streaming, e fone com cabo em vez de Bluetooth economizam bem mais do que parece.

Nos aeroportos, aproveite as estações de recarga da sala de embarque. Elas existem em praticamente todos os terminais brasileiros grandes, e é ali que você deve encher tanto o celular quanto o power bank, já que recarregar a bordo está fora de questão.

Se o seu vôo é longo e você depende do celular na chegada, para chamar transporte ou mostrar reserva, vale ter as informações críticas salvas offline ou impressas. Passagem, endereço do hotel, contato de emergência. Papel não descarrega.

Power bank para notebook, drone e câmera: os casos complicados

Quem viaja com equipamento de trabalho enfrenta um problema real com a regra dos dois aparelhos.

Power bank para notebook

Modelos com saída USB-C de alta potência, capazes de carregar laptop, costumam ter capacidade elevada justamente por isso. Muitos ficam entre 100 e 160 Wh, o que significa autorização prévia obrigatória. Existem modelos projetados para ficar em 99 Wh exatamente para escapar da exigência. Se você compra equipamento pensando em viagem, esse é o número a procurar.

Baterias de câmera e drone

Baterias avulsas, fora do equipamento, seguem a mesma lógica: só em bagagem de mão, terminais protegidos, embalagem individual de preferência. A boa notícia é que baterias de câmera são pequenas, tipicamente entre 10 e 30 Wh, então o limite de Wh raramente é problema. O que pode ser problema é o número total de baterias sobressalentes, que algumas companhias limitam.

Baterias de drone são maiores e mais delicadas. Vários fabricantes recomendam descarregar até um nível intermediário antes de voar, e alguns drones têm modo de armazenamento para isso. Vale seguir. Além disso, checar se o drone em si é permitido no país de destino, porque em vários lugares ele é retido na chegada.

Cadeira de rodas motorizada e equipamento médico

São casos com procedimento próprio, que exigem aviso prévio à companhia e frequentemente análise técnica do tipo de bateria. Não é assunto para resolver no aeroporto. Quem depende desse tipo de equipamento deve tratar com a companhia dias antes, com o modelo e a especificação técnica em mãos.

O que fazer com power bank que não pode viajar

Se você tem um modelo acima de 160 Wh, ele não vai voar com você. Nem em cabine, nem despachado. As opções reais são deixar em casa, enviar por transporte terrestre se for viagem nacional, ou usar serviço de encomenda com declaração de artigo perigoso, o que é caro e burocrático.

Descartar não significa jogar no lixo comum. Bateria de lítio em aterro é problema ambiental e risco de incêndio em caminhão de coleta. Pontos de coleta de eletrônicos existem em lojas de varejo grandes, operadoras de telefonia e postos de recebimento municipais. Vale procurar antes.

E se o aparelho está inchado, o descarte é ainda mais urgente. Bateria estufada não volta ao normal, não tem reparo caseiro, e o risco só aumenta com o tempo.

A leitura que sobra disso tudo

O que mudou não foi só o texto de uma norma. Mudou a forma como a aviação encara baterias de lítio, e a direção é clara: mais controle, mais visibilidade, menos uso durante o vôo.

Isso vai continuar apertando. A tendência internacional aponta para regras mais uniformes e mais restritivas, com companhias adotando políticas próprias antes mesmo de as autoridades exigirem. Quem viaja com frequência faz bem em tratar o power bank como o que ele é: um item regulado, não um acessório qualquer.

Na prática, a adaptação é pequena. Um power bank de 20.000 mAh de marca reconhecida, com a especificação legível na carcaça, guardado num bolso de acesso rápido e usado no aeroporto em vez de dentro do avião, resolve a vida de praticamente qualquer viajante sem nenhum atrito. O problema quase sempre é o aparelho genérico, sem marcação, de capacidade exagerada, comprado pelo preço.

E nesse caso o barato sai caro de um jeito bem literal: você paga pelo produto e depois paga de novo, deixando ele na lixeira da inspeção de segurança.

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