Aumento do Furto de Malas em Áreas do Aeroporto
Furtos de bagagem em aeroportos brasileiros e pelo mundo cresceram mais de 20% em 2026, com Guarulhos concentrando nove de cada dez casos registrados em São Paulo: entenda como agem as quadrilhas, quais são os pontos de maior risco dentro dos terminais, o que fazer se sua mala desaparecer e como se proteger antes, durante e depois do vôo.

O que os números estão mostrando
Existe um problema crescendo nos aeroportos brasileiros e ele não tem nada a ver com atraso de vôo ou bagagem extraviada pela companhia aérea. É furto puro e simples, feito por pessoas que circulam pelo terminal se passando por passageiros.
Os dados da Delegacia de Atendimento ao Turista de São Paulo, a Deatur, que é o órgão responsável pelas ocorrências em áreas aeroportuárias do estado, dão a dimensão. Entre janeiro e março de 2026, os três principais aeroportos paulistas somaram 501 furtos registrados. Isso representa um crescimento superior a 20% em relação ao mesmo período de 2025.
E olhando um ano inteiro fica ainda mais claro. Em 2025, o Aeroporto Internacional de Guarulhos registrou média de quatro furtos por dia. Quatro. Todos os dias. O aumento em relação a 2024 foi de 22%, e nos dois primeiros meses de 2026 a alta já era de cerca de 18%.
A concentração geográfica é o dado mais impressionante. Dos 501 casos do primeiro trimestre de 2026 nos três terminais, aproximadamente nove em cada dez aconteceram em Guarulhos. Congonhas e Viracopos ficaram com a fatia restante.
Vale registrar também que 33 pessoas suspeitas de envolvimento nesses crimes foram presas em operações realizadas nos aeroportos ao longo do período. Ou seja, existe atuação policial, mas o volume de casos segue subindo.
Por que Guarulhos concentra tanto
A explicação não é misteriosa. Guarulhos é o maior aeroporto do Brasil e o mais movimentado da América Latina, com fluxo de dezenas de milhões de passageiros por ano. É a principal porta de entrada de vôos internacionais no país.
Volume de gente é volume de oportunidade. Quanto mais passageiros circulando com bagagem, mais alvos, mais anonimato e mais facilidade para um criminoso se misturar à multidão sem chamar atenção. Um homem de casaco arrastando uma mala num terminal internacional é a pessoa mais comum que existe naquele ambiente.
Tem um segundo ponto. Vôo internacional significa passageiro chegando cansado, muitas vezes depois de dez ou doze horas de viagem, com fuso trocado, sono acumulado e atenção reduzida. Também significa passageiro que ainda não conhece o lugar, não sabe onde fica nada e está com todos os pertences de valor concentrados numa mala só.
E existe o fator objeto de valor. Passageiro internacional carrega notebook, câmera, celular novo, compras feitas no exterior, às vezes dinheiro em espécie e joias. Uma mala de mão pode facilmente valer mais que um carro popular usado. O criminoso sabe disso.
Como as quadrilhas realmente agem
Aqui está a parte mais útil deste texto, porque entender o método é o que permite se proteger. As imagens de câmeras de segurança divulgadas pela polícia mostram padrões que se repetem.
A troca de bagagem
Esse é o método mais registrado nos flagrantes recentes e o mais difícil de perceber. O criminoso chega carregando uma mochila ou mala parecida com a da vítima. Ele se aproxima, muitas vezes fingindo falar ao celular, para ao lado da bagagem que está no chão, e simplesmente deixa a dele e leva a sua.
Num dos flagrantes divulgados, um homem de casaco preto, segurando uma mochila e aparentando conversar ao telefone, observou um passageiro que estava tomando café e mexendo no celular. A mochila da vítima estava no chão, perto da mesa, sem nenhuma proteção. Em poucos segundos o suspeito se aproximou, trocou a mochila pela dele e saiu do local sem levantar suspeita alguma.
O que torna esse método eficiente é que ele não parece furto. Não tem corrida, não tem grito, não tem gesto brusco. Uma pessoa pegando uma mala e andando com ela é a cena mais banal de um aeroporto. Quem está ao redor não registra nada de estranho, e a própria vítima só percebe minutos depois, quando vai pegar a bagagem e nota que a alça está diferente.
O casaco jogado por cima
Outro padrão que aparece nos flagrantes é o uso de peça de roupa como cobertura. O criminoso carrega um casaco no braço, se aproxima do objeto, joga o casaco por cima da mochila ou da bolsa, e recolhe tudo junto num movimento único. Do ponto de vista de quem observa, a pessoa apenas pegou o próprio agasalho.
Esse método foi associado nas reportagens ao caso de um suspeito específico, Winton Ricardo Fuentes Yanes, chileno, identificado pela polícia como responsável por furtos em série no aeroporto e que já havia aparecido em reportagens de televisão pelo mesmo padrão de atuação.
A distração combinada
Quando atuam em grupo, o método muda. Uma pessoa cria a distração e a outra executa. A distração pode ser um pedido de informação, uma pergunta sobre horário de vôo, alguém que derruba algo perto de você, ou uma confusão qualquer que atrai o olhar. Nos poucos segundos em que sua cabeça está virada para o lado, a bagagem já está saindo de cena com outra pessoa.
Esse é o tipo de golpe em que o número de participantes é a vantagem. Você consegue vigiar uma pessoa suspeita. Não consegue vigiar três agindo em pontos diferentes ao mesmo tempo.
O falso passageiro na esteira
Na área de restituição de bagagem existe uma vulnerabilidade estrutural que quase ninguém pensa: na maioria dos aeroportos brasileiros, ninguém confere se a etiqueta da mala que você retira corresponde ao seu comprovante. Você pega, atravessa a saída e vai embora.
Isso permite que alguém retire uma mala que não é sua da esteira e saia com ela. Muitas vezes o alvo é aleatório, escolhido pela aparência da bagagem: mala nova, de marca conhecida, de material rígido caro, com etiqueta de classe executiva ou de programa de fidelidade de alto nível. São sinais de que existe conteúdo valioso dentro.
A área de alimentação e as filas
Segundo a Polícia Civil, muitos integrantes das quadrilhas circulam pelos terminais fingindo ser passageiros, e é exatamente isso que dificulta a identificação imediata. Eles não têm aparência de quem não deveria estar ali. Chegam com bagagem, sentam nas praças de alimentação, ficam olhando celular, esperam.
Os locais preferidos são justamente aqueles onde o passageiro naturalmente relaxa e solta a bagagem: praça de alimentação, cafeteria, saguão de espera, fila de check-in, área de fumantes, fila de despacho, banheiro e fila de embarque no portão.
Os pontos mais perigosos dentro de um aeroporto
Vale mapear isso com clareza, porque nem todo canto do terminal tem o mesmo risco.
Praça de alimentação e cafeteria. Esse é provavelmente o número um. Você senta, coloca a mala no chão ao lado ou atrás da cadeira, pede algo, e a atenção vai toda para o celular ou para a comida. A bagagem sai do seu campo de visão sem que você perceba.
Fila de check-in. Filas longas geram tédio e tédio gera distração. As pessoas mexem no celular, conferem documento, olham painel. A mala fica parada no chão atrás delas, sem ninguém olhando.
Área de restituição de bagagem. Duas fragilidades ao mesmo tempo: a ausência de conferência de etiqueta na saída e o fato de o passageiro estar de olho na esteira, com as bagagens que já pegou parcialmente sem vigilância.
Balcões de aluguel de carro, câmbio e informações. Você para para resolver algo, apoia a mala e vira o corpo para o atendente. Costas viradas por dois minutos são muito tempo.
Banheiro. Deixar a mala do lado de fora do cubículo é praticamente entregá-la. E até dentro do espaço fechado, mala apoiada perto da porta já foi puxada por baixo em relatos de vítimas.
Área externa, desembarque e ponto de táxi. Fora dos portões, o ambiente é aberto, o fluxo é caótico e a fiscalização é menor. Passageiro carregando bagagem na calçada, procurando o carro que vem buscar, é um alvo simples.
Estacionamento. Transferir mala do carro para o carrinho é um momento de distração natural, geralmente com o porta-malas aberto e as mãos ocupadas.
Sala de embarque, ao dormir. Quem tem conexão longa e cochila na sala de embarque com a mochila do lado corre risco alto. Passar a alça pelo braço ou pela perna da cadeira é o mínimo.
O que os aeroportos estão fazendo
As concessionárias afirmam que trabalham em parceria com a polícia e vêm ampliando investimento em monitoramento eletrônico. Em Guarulhos existem quase 3 mil câmeras espalhadas por áreas internas e externas do terminal.
Esse volume de câmeras explica por que os flagrantes divulgados são tão nítidos. Em um dos casos noticiados, a polícia conseguiu acompanhar um suspeito conhecido desde a entrada no terminal, aproximar a imagem, e registrar o momento exato do furto, porque já sabia o que ele iria fazer.
Só que aqui aparece o limite do sistema. Câmera é excelente ferramenta de investigação e prova. É uma ferramenta ruim de prevenção. Ela documenta o crime que já aconteceu. Ela não impede que ele aconteça.
Existe também um problema de ciclo. No caso do suspeito chileno citado nas reportagens, o histórico mostra prisão em flagrante em outubro de 2025, soltura por decisão judicial em fevereiro de 2026, e retorno à atividade no mesmo aeroporto menos de dois meses depois, com o mesmo padrão de atuação, sendo preso novamente em abril. O relato inclui ainda a informação de que ele não possuía registro de entrada no Brasil e já havia sido acusado de furto na Argentina, onde o processo prescreveu.
Furto simples, no Brasil, tem pena relativamente baixa e admite uma série de institutos processuais que resultam em liberdade rápida quando não há qualificadora. Isso ajuda a explicar por que o mesmo rosto reaparece nas imagens de câmera meses depois.
O que fazer antes de sair de casa
A prevenção começa longe do aeroporto, e essa é a parte que quase ninguém faz.
Fotografe suas malas. Foto da mala fechada, por fora, mostrando cor, formato, marca, rodinhas e qualquer adesivo ou marca de identificação. Isso vira prova imediata em caso de furto e ajuda muito na busca por imagem de câmera.
Fotografe o conteúdo. Abra a mala arrumada e fotografe. Se você precisar listar o que foi levado num boletim de ocorrência ou num pedido de indenização de seguro, essa foto vale mais que sua memória sob estresse.
Guarde nota fiscal do que é caro. Notebook, câmera, lente, relógio, tablet. Seguro sério pede comprovação de valor.
Etiqueta interna e externa. Etiqueta externa com nome e telefone, e um cartão dentro da mala com o mesmo dado. Existe uma discussão razoável sobre não colocar endereço residencial completo na etiqueta externa, para não sinalizar a criminoso que sua casa está vazia. Nome e celular já resolvem.
Personalize visualmente. Mala preta lisa é a mala mais roubável do mundo, porque é a mais comum e a mais fácil de trocar sem que ninguém note. Adesivo grande, fita colorida, capa estampada, cinta chamativa. Além de dificultar a troca acidental e a proposital, torna a mala mais identificável em imagem de câmera.
Contrate seguro de viagem que cubra bagagem. E leia a cláusula. Muitas apólices cobrem extravio pela companhia aérea mas têm limites baixos ou exclusões para furto simples sem arrombamento, e quase todas excluem dinheiro em espécie, joias e eletrônicos acima de determinado valor. Cartão de crédito com seguro embutido também tem limite e exigência de compra da passagem pelo próprio cartão.
Verifique a cobertura do seu seguro residencial ou de bens pessoais. Algumas apólices cobrem bens fora de casa. Vale checar.
Rastreador na bagagem
Esse virou item padrão para viajante frequente e faz muita diferença. Existem etiquetas de rastreamento que funcionam por rede colaborativa de dispositivos, como as da Apple e as compatíveis com a rede do Android, além de opções com GPS e chip próprio.
A lógica das etiquetas de rede colaborativa é interessante: elas não têm GPS, elas emitem um sinal por Bluetooth que é captado por qualquer celular compatível que passe por perto, e esse celular reporta a posição de forma anônima. Em aeroporto, com milhares de aparelhos circulando, a precisão costuma ser boa.
Já houve diversos casos noticiados no mundo de bagagem recuperada porque a vítima mostrou à polícia a localização exata do rastreador. Coloque um dentro da mala despachada e outro na de mão. Não impede o furto, mas aumenta muito a chance de recuperação.
Um detalhe técnico: as etiquetas de rastreamento por Bluetooth são aceitas pelas companhias aéreas em bagagem despachada, porque usam bateria de célula tipo moeda de baixa capacidade, permitida nas regras de transporte aéreo.
O que fazer dentro do aeroporto
Aqui vão as práticas que realmente reduzem risco, na ordem em que importam.
Contato físico permanente com a bagagem. Essa é a regra que resolve a maioria dos casos. Alça no pulso, alça enrolada no tornozelo, pé apoiado na mala, mochila entre as pernas com a alça no braço. Se a bagagem só sai de perto de você com um movimento que você sente, o método da troca simplesmente não funciona.
Bagagem à frente, nunca atrás. Colocar mala atrás da cadeira ou nas costas na fila é entregar o objeto para uma área que você não vê. Sempre à frente, no campo de visão.
Mochila na frente do corpo em área de aglomeração. Parece exagerado e é o gesto mais eficaz que existe.
Nunca deixar bagagem sozinha, nem por segundos. Nem para pegar guardanapo, nem para ir ao balcão pedir açúcar, nem para ir ao caixa. Além do risco de furto, bagagem desacompanhada em área de aeroporto pode ser tratada como objeto suspeito e gerar procedimento de segurança.
Objetos de valor sempre na bagagem de mão, e a de mão sempre com você. Documento, passaporte, dinheiro, cartões, notebook, medicamento de uso contínuo, chave de casa e do carro. Nada disso vai para bagagem despachada, nunca.
Divida o dinheiro e os cartões. Nunca tudo no mesmo lugar. Uma parte no bolso interno, outra na mochila, outra num porta-documento junto ao corpo. Se um for levado, você não fica sem nada.
Cadeado com padrão TSA nos zíperes. Não impede um furto da mala inteira, mas dificulta abertura oportunista e violação de conteúdo em trânsito. Vale principalmente para bagagem despachada em vôos com escala nos Estados Unidos, onde a fiscalização pode abrir a mala com chave mestra.
Cuidado com o excesso de confiança em ambiente pós-raio-x. Muita gente acredita que depois da inspeção de segurança está numa zona limpa e pode relaxar. Não está. Os criminosos que se passam por passageiros compram bilhete ou circulam em áreas onde há acesso, e boa parte dos furtos ocorre em pontos comuns do terminal.
Reação a abordagem estranha. Se alguém puxa conversa de forma insistente, pede ajuda de um jeito que exige que você se abaixe, mexa na mala ou desvie o olhar, o reflexo correto é primeiro colocar a mão na sua bagagem e só depois responder.
Na esteira, cheque a etiqueta. Sua e do vizinho. Se sua mala não apareceu, avise imediatamente o balcão da companhia, sem esperar. Se ela apareceu com sinal de violação, registre ali mesmo, antes de sair da área restrita, porque depois de atravessar a saída fica muito mais difícil sustentar a reclamação.
Chegou o carro? Só solte a mala dentro do porta-malas. Na calçada de desembarque, a mala fica em contato com você até entrar no veículo.
Aplicativo e táxi. Confirme placa e modelo antes de colocar bagagem no carro. Existem relatos de golpe em que a bagagem é carregada e o veículo parte.
O que fazer se sua mala for furtada
O momento é de pânico e é justamente por isso que ter uma sequência mental pronta ajuda.
Primeiro, avise a segurança do aeroporto imediatamente. Minutos importam. Enquanto o criminoso está dentro do terminal, existe chance real de interceptação. Depois que ele sai, a chance cai muito. Procure o posto de segurança da concessionária ou qualquer agente uniformizado.
Segundo, peça preservação e verificação das imagens. Diga exatamente onde você estava, em que horário aproximado, e o que aconteceu. Com quase 3 mil câmeras em Guarulhos, a chance de o momento estar gravado é alta, mas a solicitação formal precisa ser feita rápido, porque sistemas de gravação têm prazo de armazenamento.
Terceiro, registre boletim de ocorrência na delegacia do aeroporto. Em São Paulo, a Deatur é a delegacia responsável pelas ocorrências em áreas aeroportuárias e pontos turísticos. O boletim não é burocracia inútil: sem ele não existe investigação, não existe pedido de seguro, e não existe estatística que pressione melhoria de segurança.
Quarto, seja específico no registro. Lista de itens, valores aproximados, marca e modelo de eletrônicos, número de série e IMEI se você tiver anotado. É aqui que aquelas fotos feitas antes da viagem valem ouro.
Quinto, verifique o rastreador. Se você colocou uma etiqueta de rastreamento, abra o aplicativo e mostre a localização à polícia. Não vá atrás por conta própria. Isso já resultou em situações de risco em outros países. Informe a autoridade.
Sexto, bloqueie o que precisa ser bloqueado. Cartões, contas bancárias, aplicativos, acesso remoto ao notebook. Se levaram celular, acione o bloqueio remoto e apagamento de dados. Se levaram passaporte, procure a Polícia Federal, e no exterior, o consulado brasileiro.
Sétimo, comunique o seguro dentro do prazo. Apólices têm prazo curto para aviso de sinistro, às vezes de poucos dias. Guarde protocolo de tudo.
Oitavo, se a suspeita é de furto na área da companhia aérea ou durante o manuseio, acione também a empresa. No Brasil, a resolução da Anac sobre condições gerais de transporte estabelece prazos de reclamação por bagagem despachada com problema, e a companhia tem obrigação de resposta. Furto praticado por terceiro no saguão é outra situação, mas violação de conteúdo em trânsito entra nessa via.
A diferença entre furto no saguão e violação de bagagem despachada
Vale separar isso porque as soluções são diferentes.
Furto no saguão é crime praticado por terceiro contra você, num espaço público do terminal. A responsabilidade recai sobre o autor, e existe uma discussão jurídica sobre responsabilidade do administrador aeroportuário quanto à segurança do ambiente, com decisões variadas. A via prática é boletim de ocorrência e seguro.
Violação de bagagem despachada ocorre entre o despacho e a restituição, quando a mala está sob custódia da companhia e dos operadores de solo. Aqui a relação é contratual com a empresa aérea, que responde pela integridade da bagagem que recebeu. Sinal clássico é lacre rompido, zíper deslocado, mala mal fechada, cadeado arrancado ou peso visivelmente diferente.
Nesse segundo caso, registrar antes de sair da área de desembarque é decisivo, porque depois fica muito difícil provar quando o dano ocorreu.
O ponto sensível: o que não deve ir na mala despachada
Muita gente aprende isso da pior forma. Não vão para bagagem despachada, em nenhuma circunstância: dinheiro, joias, relógios de valor, notebook, câmera, lentes, documentos, remédios de uso contínuo, chaves, óculos de grau de reserva, e qualquer objeto insubstituível.
E não é só risco de furto. Contratos de transporte e regras internacionais limitam a responsabilidade das companhias por bagagem despachada, e itens de alto valor costumam estar expressamente excluídos ou sujeitos a declaração especial com pagamento adicional. Ou seja, se levarem, você provavelmente não recebe o valor real de volta.
Uma leitura mais ampla do problema
Tem uma coisa incômoda nesses números que vale dizer com clareza. Quatro furtos por dia num único aeroporto, com alta de 22% em um ano e mais 20% no ano seguinte, não é um problema de passageiro descuidado. É um problema de segurança pública num espaço que deveria ser dos mais controlados do país.
Aeroporto tem perímetro definido, tem controle de acesso em várias camadas, tem raio-x, tem detector de metal, tem milhares de câmeras e tem presença de várias forças policiais. Se em um ambiente assim uma pessoa reincidente e identificada nacionalmente consegue voltar e furtar de novo, o gargalo não está na tecnologia de vigilância.
Existem medidas simples que outros países adotam e que reduziriam bastante o problema. Conferência de etiqueta de bagagem na saída da área de restituição é uma delas, prática comum em vários aeroportos do mundo e praticamente inexistente aqui. Presença ostensiva de agentes nas praças de alimentação e nas filas de check-in é outra. Sinalização visível de alerta em áreas críticas, em português e inglês, é uma terceira, e das mais baratas.
Enquanto isso não vira padrão, a proteção real é comportamental. E ela se resume a uma frase que resolve a maior parte dos casos noticiados: sua mala precisa estar sempre tocando você.
Um último ajuste de mentalidade
O erro mais comum não é técnico, é psicológico. As pessoas baixam a guarda em aeroporto porque associam o lugar a controle e segurança. Passou pelo raio-x, mostrou documento, então está protegido. Só que o crime ali não vem de alguém tentando burlar o sistema de segurança aérea. Vem de alguém que parece exatamente com todos os outros passageiros e que só precisa de dez segundos da sua distração.
Trate o saguão de aeroporto com o mesmo nível de atenção que você trataria uma estação de metrô cheia num horário de pico. Não com medo, mas com aquela vigilância de fundo que a gente liga automaticamente em lugar movimentado.
Quem viaja muito acaba desenvolvendo isso sem pensar: a mão que fica apoiada na mala, a alça que passa pelo braço da cadeira, o hábito de sentar de frente para a bagagem e não de costas. São gestos pequenos, que não custam nada, e que fazem a diferença entre chegar ao destino com as suas coisas ou começar a viagem numa delegacia preenchendo boletim de ocorrência.
Furtos de bagagem em aeroportos brasileiros cresceram mais de 20% em 2026, com Guarulhos concentrando nove de cada dez casos registrados em São Paulo: entenda como agem as quadrilhas, quais são os pontos de maior risco dentro dos terminais, o que fazer se sua mala desaparecer e como se proteger antes, durante e depois do vôo.
O que os números estão mostrando
Existe um problema crescendo nos aeroportos brasileiros e ele não tem nada a ver com atraso de vôo ou bagagem extraviada pela companhia aérea. É furto puro e simples, feito por pessoas que circulam pelo terminal se passando por passageiros.
Os dados da Delegacia de Atendimento ao Turista de São Paulo, a Deatur, que é o órgão responsável pelas ocorrências em áreas aeroportuárias do estado, dão a dimensão. Entre janeiro e março de 2026, os três principais aeroportos paulistas somaram 501 furtos registrados. Isso representa um crescimento superior a 20% em relação ao mesmo período de 2025.
E olhando um ano inteiro fica ainda mais claro. Em 2025, o Aeroporto Internacional de Guarulhos registrou média de quatro furtos por dia. Quatro. Todos os dias. O aumento em relação a 2024 foi de 22%, e nos dois primeiros meses de 2026 a alta já era de cerca de 18%.
A concentração geográfica é o dado mais impressionante. Dos 501 casos do primeiro trimestre de 2026 nos três terminais, aproximadamente nove em cada dez aconteceram em Guarulhos. Congonhas e Viracopos ficaram com a fatia restante.
Vale registrar também que 33 pessoas suspeitas de envolvimento nesses crimes foram presas em operações realizadas nos aeroportos ao longo do período. Ou seja, existe atuação policial, mas o volume de casos segue subindo.
Por que Guarulhos concentra tanto
A explicação não é misteriosa. Guarulhos é o maior aeroporto do Brasil e o mais movimentado da América Latina, com fluxo de dezenas de milhões de passageiros por ano. É a principal porta de entrada de vôos internacionais no país.
Volume de gente é volume de oportunidade. Quanto mais passageiros circulando com bagagem, mais alvos, mais anonimato e mais facilidade para um criminoso se misturar à multidão sem chamar atenção. Um homem de casaco arrastando uma mala num terminal internacional é a pessoa mais comum que existe naquele ambiente.
Tem um segundo ponto. Vôo internacional significa passageiro chegando cansado, muitas vezes depois de dez ou doze horas de viagem, com fuso trocado, sono acumulado e atenção reduzida. Também significa passageiro que ainda não conhece o lugar, não sabe onde fica nada e está com todos os pertences de valor concentrados numa mala só.
E existe o fator objeto de valor. Passageiro internacional carrega notebook, câmera, celular novo, compras feitas no exterior, às vezes dinheiro em espécie e joias. Uma mala de mão pode facilmente valer mais que um carro popular usado. O criminoso sabe disso.
Como as quadrilhas realmente agem
Aqui está a parte mais útil deste texto, porque entender o método é o que permite se proteger. As imagens de câmeras de segurança divulgadas pela polícia mostram padrões que se repetem.
A troca de bagagem
Esse é o método mais registrado nos flagrantes recentes e o mais difícil de perceber. O criminoso chega carregando uma mochila ou mala parecida com a da vítima. Ele se aproxima, muitas vezes fingindo falar ao celular, para ao lado da bagagem que está no chão, e simplesmente deixa a dele e leva a sua.
Num dos flagrantes divulgados, um homem de casaco preto, segurando uma mochila e aparentando conversar ao telefone, observou um passageiro que estava tomando café e mexendo no celular. A mochila da vítima estava no chão, perto da mesa, sem nenhuma proteção. Em poucos segundos o suspeito se aproximou, trocou a mochila pela dele e saiu do local sem levantar suspeita alguma.
O que torna esse método eficiente é que ele não parece furto. Não tem corrida, não tem grito, não tem gesto brusco. Uma pessoa pegando uma mala e andando com ela é a cena mais banal de um aeroporto. Quem está ao redor não registra nada de estranho, e a própria vítima só percebe minutos depois, quando vai pegar a bagagem e nota que a alça está diferente.
O casaco jogado por cima
Outro padrão que aparece nos flagrantes é o uso de peça de roupa como cobertura. O criminoso carrega um casaco no braço, se aproxima do objeto, joga o casaco por cima da mochila ou da bolsa, e recolhe tudo junto num movimento único. Do ponto de vista de quem observa, a pessoa apenas pegou o próprio agasalho.
Esse método foi associado nas reportagens ao caso de um suspeito específico, Winton Ricardo Fuentes Yanes, chileno, identificado pela polícia como responsável por furtos em série no aeroporto e que já havia aparecido em reportagens de televisão pelo mesmo padrão de atuação.
A distração combinada
Quando atuam em grupo, o método muda. Uma pessoa cria a distração e a outra executa. A distração pode ser um pedido de informação, uma pergunta sobre horário de vôo, alguém que derruba algo perto de você, ou uma confusão qualquer que atrai o olhar. Nos poucos segundos em que sua cabeça está virada para o lado, a bagagem já está saindo de cena com outra pessoa.
Esse é o tipo de golpe em que o número de participantes é a vantagem. Você consegue vigiar uma pessoa suspeita. Não consegue vigiar três agindo em pontos diferentes ao mesmo tempo.
O falso passageiro na esteira
Na área de restituição de bagagem existe uma vulnerabilidade estrutural que quase ninguém pensa: na maioria dos aeroportos brasileiros, ninguém confere se a etiqueta da mala que você retira corresponde ao seu comprovante. Você pega, atravessa a saída e vai embora.
Isso permite que alguém retire uma mala que não é sua da esteira e saia com ela. Muitas vezes o alvo é aleatório, escolhido pela aparência da bagagem: mala nova, de marca conhecida, de material rígido caro, com etiqueta de classe executiva ou de programa de fidelidade de alto nível. São sinais de que existe conteúdo valioso dentro.
A área de alimentação e as filas
Segundo a Polícia Civil, muitos integrantes das quadrilhas circulam pelos terminais fingindo ser passageiros, e é exatamente isso que dificulta a identificação imediata. Eles não têm aparência de quem não deveria estar ali. Chegam com bagagem, sentam nas praças de alimentação, ficam olhando celular, esperam.
Os locais preferidos são justamente aqueles onde o passageiro naturalmente relaxa e solta a bagagem: praça de alimentação, cafeteria, saguão de espera, fila de check-in, área de fumantes, fila de despacho, banheiro e fila de embarque no portão.
Os pontos mais perigosos dentro de um aeroporto
Vale mapear isso com clareza, porque nem todo canto do terminal tem o mesmo risco.
Praça de alimentação e cafeteria. Esse é provavelmente o número um. Você senta, coloca a mala no chão ao lado ou atrás da cadeira, pede algo, e a atenção vai toda para o celular ou para a comida. A bagagem sai do seu campo de visão sem que você perceba.
Fila de check-in. Filas longas geram tédio e tédio gera distração. As pessoas mexem no celular, conferem documento, olham painel. A mala fica parada no chão atrás delas, sem ninguém olhando.
Área de restituição de bagagem. Duas fragilidades ao mesmo tempo: a ausência de conferência de etiqueta na saída e o fato de o passageiro estar de olho na esteira, com as bagagens que já pegou parcialmente sem vigilância.
Balcões de aluguel de carro, câmbio e informações. Você para para resolver algo, apoia a mala e vira o corpo para o atendente. Costas viradas por dois minutos são muito tempo.
Banheiro. Deixar a mala do lado de fora do cubículo é praticamente entregá-la. E até dentro do espaço fechado, mala apoiada perto da porta já foi puxada por baixo em relatos de vítimas.
Área externa, desembarque e ponto de táxi. Fora dos portões, o ambiente é aberto, o fluxo é caótico e a fiscalização é menor. Passageiro carregando bagagem na calçada, procurando o carro que vem buscar, é um alvo simples.
Estacionamento. Transferir mala do carro para o carrinho é um momento de distração natural, geralmente com o porta-malas aberto e as mãos ocupadas.
Sala de embarque, ao dormir. Quem tem conexão longa e cochila na sala de embarque com a mochila do lado corre risco alto. Passar a alça pelo braço ou pela perna da cadeira é o mínimo.
O que os aeroportos estão fazendo
As concessionárias afirmam que trabalham em parceria com a polícia e vêm ampliando investimento em monitoramento eletrônico. Em Guarulhos existem quase 3 mil câmeras espalhadas por áreas internas e externas do terminal.
Esse volume de câmeras explica por que os flagrantes divulgados são tão nítidos. Em um dos casos noticiados, a polícia conseguiu acompanhar um suspeito conhecido desde a entrada no terminal, aproximar a imagem, e registrar o momento exato do furto, porque já sabia o que ele iria fazer.
Só que aqui aparece o limite do sistema. Câmera é excelente ferramenta de investigação e prova. É uma ferramenta ruim de prevenção. Ela documenta o crime que já aconteceu. Ela não impede que ele aconteça.
Existe também um problema de ciclo. No caso do suspeito chileno citado nas reportagens, o histórico mostra prisão em flagrante em outubro de 2025, soltura por decisão judicial em fevereiro de 2026, e retorno à atividade no mesmo aeroporto menos de dois meses depois, com o mesmo padrão de atuação, sendo preso novamente em abril. O relato inclui ainda a informação de que ele não possuía registro de entrada no Brasil e já havia sido acusado de furto na Argentina, onde o processo prescreveu.
Furto simples, no Brasil, tem pena relativamente baixa e admite uma série de institutos processuais que resultam em liberdade rápida quando não há qualificadora. Isso ajuda a explicar por que o mesmo rosto reaparece nas imagens de câmera meses depois.
O que fazer antes de sair de casa
A prevenção começa longe do aeroporto, e essa é a parte que quase ninguém faz.
Fotografe suas malas. Foto da mala fechada, por fora, mostrando cor, formato, marca, rodinhas e qualquer adesivo ou marca de identificação. Isso vira prova imediata em caso de furto e ajuda muito na busca por imagem de câmera.
Fotografe o conteúdo. Abra a mala arrumada e fotografe. Se você precisar listar o que foi levado num boletim de ocorrência ou num pedido de indenização de seguro, essa foto vale mais que sua memória sob estresse.
Guarde nota fiscal do que é caro. Notebook, câmera, lente, relógio, tablet. Seguro sério pede comprovação de valor.
Etiqueta interna e externa. Etiqueta externa com nome e telefone, e um cartão dentro da mala com o mesmo dado. Existe uma discussão razoável sobre não colocar endereço residencial completo na etiqueta externa, para não sinalizar a criminoso que sua casa está vazia. Nome e celular já resolvem.
Personalize visualmente. Mala preta lisa é a mala mais roubável do mundo, porque é a mais comum e a mais fácil de trocar sem que ninguém note. Adesivo grande, fita colorida, capa estampada, cinta chamativa. Além de dificultar a troca acidental e a proposital, torna a mala mais identificável em imagem de câmera.
Contrate seguro de viagem que cubra bagagem. E leia a cláusula. Muitas apólices cobrem extravio pela companhia aérea mas têm limites baixos ou exclusões para furto simples sem arrombamento, e quase todas excluem dinheiro em espécie, joias e eletrônicos acima de determinado valor. Cartão de crédito com seguro embutido também tem limite e exigência de compra da passagem pelo próprio cartão.
Verifique a cobertura do seu seguro residencial ou de bens pessoais. Algumas apólices cobrem bens fora de casa. Vale checar.
Rastreador na bagagem
Esse virou item padrão para viajante frequente e faz muita diferença. Existem etiquetas de rastreamento que funcionam por rede colaborativa de dispositivos, como as da Apple e as compatíveis com a rede do Android, além de opções com GPS e chip próprio.
A lógica das etiquetas de rede colaborativa é interessante: elas não têm GPS, elas emitem um sinal por Bluetooth que é captado por qualquer celular compatível que passe por perto, e esse celular reporta a posição de forma anônima. Em aeroporto, com milhares de aparelhos circulando, a precisão costuma ser boa.
Já houve diversos casos noticiados no mundo de bagagem recuperada porque a vítima mostrou à polícia a localização exata do rastreador. Coloque um dentro da mala despachada e outro na de mão. Não impede o furto, mas aumenta muito a chance de recuperação.
Um detalhe técnico: as etiquetas de rastreamento por Bluetooth são aceitas pelas companhias aéreas em bagagem despachada, porque usam bateria de célula tipo moeda de baixa capacidade, permitida nas regras de transporte aéreo.
O que fazer dentro do aeroporto
Aqui vão as práticas que realmente reduzem risco, na ordem em que importam.
Contato físico permanente com a bagagem. Essa é a regra que resolve a maioria dos casos. Alça no pulso, alça enrolada no tornozelo, pé apoiado na mala, mochila entre as pernas com a alça no braço. Se a bagagem só sai de perto de você com um movimento que você sente, o método da troca simplesmente não funciona.
Bagagem à frente, nunca atrás. Colocar mala atrás da cadeira ou nas costas na fila é entregar o objeto para uma área que você não vê. Sempre à frente, no campo de visão.
Mochila na frente do corpo em área de aglomeração. Parece exagerado e é o gesto mais eficaz que existe.
Nunca deixar bagagem sozinha, nem por segundos. Nem para pegar guardanapo, nem para ir ao balcão pedir açúcar, nem para ir ao caixa. Além do risco de furto, bagagem desacompanhada em área de aeroporto pode ser tratada como objeto suspeito e gerar procedimento de segurança.
Objetos de valor sempre na bagagem de mão, e a de mão sempre com você. Documento, passaporte, dinheiro, cartões, notebook, medicamento de uso contínuo, chave de casa e do carro. Nada disso vai para bagagem despachada, nunca.
Divida o dinheiro e os cartões. Nunca tudo no mesmo lugar. Uma parte no bolso interno, outra na mochila, outra num porta-documento junto ao corpo. Se um for levado, você não fica sem nada.
Cadeado com padrão TSA nos zíperes. Não impede um furto da mala inteira, mas dificulta abertura oportunista e violação de conteúdo em trânsito. Vale principalmente para bagagem despachada em vôos com escala nos Estados Unidos, onde a fiscalização pode abrir a mala com chave mestra.
Cuidado com o excesso de confiança em ambiente pós-raio-x. Muita gente acredita que depois da inspeção de segurança está numa zona limpa e pode relaxar. Não está. Os criminosos que se passam por passageiros compram bilhete ou circulam em áreas onde há acesso, e boa parte dos furtos ocorre em pontos comuns do terminal.
Reação a abordagem estranha. Se alguém puxa conversa de forma insistente, pede ajuda de um jeito que exige que você se abaixe, mexa na mala ou desvie o olhar, o reflexo correto é primeiro colocar a mão na sua bagagem e só depois responder.
Na esteira, cheque a etiqueta. Sua e do vizinho. Se sua mala não apareceu, avise imediatamente o balcão da companhia, sem esperar. Se ela apareceu com sinal de violação, registre ali mesmo, antes de sair da área restrita, porque depois de atravessar a saída fica muito mais difícil sustentar a reclamação.
Chegou o carro? Só solte a mala dentro do porta-malas. Na calçada de desembarque, a mala fica em contato com você até entrar no veículo.
Aplicativo e táxi. Confirme placa e modelo antes de colocar bagagem no carro. Existem relatos de golpe em que a bagagem é carregada e o veículo parte.
O que fazer se sua mala for furtada
O momento é de pânico e é justamente por isso que ter uma sequência mental pronta ajuda.
Primeiro, avise a segurança do aeroporto imediatamente. Minutos importam. Enquanto o criminoso está dentro do terminal, existe chance real de interceptação. Depois que ele sai, a chance cai muito. Procure o posto de segurança da concessionária ou qualquer agente uniformizado.
Segundo, peça preservação e verificação das imagens. Diga exatamente onde você estava, em que horário aproximado, e o que aconteceu. Com quase 3 mil câmeras em Guarulhos, a chance de o momento estar gravado é alta, mas a solicitação formal precisa ser feita rápido, porque sistemas de gravação têm prazo de armazenamento.
Terceiro, registre boletim de ocorrência na delegacia do aeroporto. Em São Paulo, a Deatur é a delegacia responsável pelas ocorrências em áreas aeroportuárias e pontos turísticos. O boletim não é burocracia inútil: sem ele não existe investigação, não existe pedido de seguro, e não existe estatística que pressione melhoria de segurança.
Quarto, seja específico no registro. Lista de itens, valores aproximados, marca e modelo de eletrônicos, número de série e IMEI se você tiver anotado. É aqui que aquelas fotos feitas antes da viagem valem ouro.
Quinto, verifique o rastreador. Se você colocou uma etiqueta de rastreamento, abra o aplicativo e mostre a localização à polícia. Não vá atrás por conta própria. Isso já resultou em situações de risco em outros países. Informe a autoridade.
Sexto, bloqueie o que precisa ser bloqueado. Cartões, contas bancárias, aplicativos, acesso remoto ao notebook. Se levaram celular, acione o bloqueio remoto e apagamento de dados. Se levaram passaporte, procure a Polícia Federal, e no exterior, o consulado brasileiro.
Sétimo, comunique o seguro dentro do prazo. Apólices têm prazo curto para aviso de sinistro, às vezes de poucos dias. Guarde protocolo de tudo.
Oitavo, se a suspeita é de furto na área da companhia aérea ou durante o manuseio, acione também a empresa. No Brasil, a resolução da Anac sobre condições gerais de transporte estabelece prazos de reclamação por bagagem despachada com problema, e a companhia tem obrigação de resposta. Furto praticado por terceiro no saguão é outra situação, mas violação de conteúdo em trânsito entra nessa via.
A diferença entre furto no saguão e violação de bagagem despachada
Vale separar isso porque as soluções são diferentes.
Furto no saguão é crime praticado por terceiro contra você, num espaço público do terminal. A responsabilidade recai sobre o autor, e existe uma discussão jurídica sobre responsabilidade do administrador aeroportuário quanto à segurança do ambiente, com decisões variadas. A via prática é boletim de ocorrência e seguro.
Violação de bagagem despachada ocorre entre o despacho e a restituição, quando a mala está sob custódia da companhia e dos operadores de solo. Aqui a relação é contratual com a empresa aérea, que responde pela integridade da bagagem que recebeu. Sinal clássico é lacre rompido, zíper deslocado, mala mal fechada, cadeado arrancado ou peso visivelmente diferente.
Nesse segundo caso, registrar antes de sair da área de desembarque é decisivo, porque depois fica muito difícil provar quando o dano ocorreu.
O ponto sensível: o que não deve ir na mala despachada
Muita gente aprende isso da pior forma. Não vão para bagagem despachada, em nenhuma circunstância: dinheiro, joias, relógios de valor, notebook, câmera, lentes, documentos, remédios de uso contínuo, chaves, óculos de grau de reserva, e qualquer objeto insubstituível.
E não é só risco de furto. Contratos de transporte e regras internacionais limitam a responsabilidade das companhias por bagagem despachada, e itens de alto valor costumam estar expressamente excluídos ou sujeitos a declaração especial com pagamento adicional. Ou seja, se levarem, você provavelmente não recebe o valor real de volta.
Uma leitura mais ampla do problema
Tem uma coisa incômoda nesses números que vale dizer com clareza. Quatro furtos por dia num único aeroporto, com alta de 22% em um ano e mais 20% no ano seguinte, não é um problema de passageiro descuidado. É um problema de segurança pública num espaço que deveria ser dos mais controlados do país.
Aeroporto tem perímetro definido, tem controle de acesso em várias camadas, tem raio-x, tem detector de metal, tem milhares de câmeras e tem presença de várias forças policiais. Se em um ambiente assim uma pessoa reincidente e identificada nacionalmente consegue voltar e furtar de novo, o gargalo não está na tecnologia de vigilância.
Existem medidas simples que outros países adotam e que reduziriam bastante o problema. Conferência de etiqueta de bagagem na saída da área de restituição é uma delas, prática comum em vários aeroportos do mundo e praticamente inexistente aqui. Presença ostensiva de agentes nas praças de alimentação e nas filas de check-in é outra. Sinalização visível de alerta em áreas críticas, em português e inglês, é uma terceira, e das mais baratas.
Enquanto isso não vira padrão, a proteção real é comportamental. E ela se resume a uma frase que resolve a maior parte dos casos noticiados: sua mala precisa estar sempre tocando você.
Um último ajuste de mentalidade
O erro mais comum não é técnico, é psicológico. As pessoas baixam a guarda em aeroporto porque associam o lugar a controle e segurança. Passou pelo raio-x, mostrou documento, então está protegido. Só que o crime ali não vem de alguém tentando burlar o sistema de segurança aérea. Vem de alguém que parece exatamente com todos os outros passageiros e que só precisa de dez segundos da sua distração.
Trate o saguão de aeroporto com o mesmo nível de atenção que você trataria uma estação de metrô cheia num horário de pico. Não com medo, mas com aquela vigilância de fundo que a gente liga automaticamente em lugar movimentado.
Quem viaja muito acaba desenvolvendo isso sem pensar: a mão que fica apoiada na mala, a alça que passa pelo braço da cadeira, o hábito de sentar de frente para a bagagem e não de costas. São gestos pequenos, que não custam nada, e que fazem a diferença entre chegar ao destino com as suas coisas ou começar a viagem numa delegacia preenchendo boletim de ocorrência.
