Como o Turista Deve se Comportar num Terremoto no Japão
O que fazer durante um terremoto no Japão: guia prático para turistas, com orientações oficiais sobre alerta sísmico, tsunami, evacuação, aplicativos de emergência e telefones úteis como 119 e 110.

Terremoto no Japão não é exceção, é rotina geológica. O arquipélago fica sobre o encontro de quatro placas tectônicas (Pacífica, Filipina, Euroasiática e Norte-Americana), e por isso o país registra alguns milhares de tremores sentidos por ano, além de dezenas de milhares detectados apenas por instrumentos. A maioria é fraca, do tipo que faz o abajur balançar e o hóspede acordar sem entender o que aconteceu. Uma parte pequena é forte. E é justamente essa parte pequena que exige que o visitante saiba o que fazer antes de precisar saber.
O ponto que quase ninguém explica direito ao turista é este: no Japão, o risco raramente é o prédio cair. As normas antissísmicas japonesas, especialmente depois da revisão de 1981 e dos reforços feitos após o terremoto de Kobe em 1995, são das mais rígidas do mundo. Hotéis, estações, shoppings e torres de observação foram construídos para se mexer, rangir e resistir. O risco real, na prática, é outro: objetos caindo, vidro quebrando, gente correndo em pânico, escada rolante travando, elevador parando entre andares e, em regiões costeiras, tsunami.
Ou seja, comportamento importa mais do que sorte.
Entendendo a escala japonesa antes de qualquer coisa
Se você acompanhar notícias no Japão, vai perceber que o número que aparece na TV muitas vezes não é a magnitude. É o shindo, a escala japonesa de intensidade sísmica, que vai de 0 a 7 e mede o quanto o chão tremeu naquele lugar específico. Magnitude mede energia liberada no epicentro. Shindo mede o que você sentiu de fato onde estava.
Essa diferença é útil por um motivo bem prático. Um terremoto de magnitude 7 muito profundo e distante pode dar um shindo 3 em Tóquio, algo desconfortável e nada mais. Já um terremoto menor, raso e perto pode dar shindo 5 e derrubar prateleiras. Quando os japoneses falam “shindo go kyō” (5 forte), a mensagem interna é clara: agora é sério.
| Shindo | O que costuma acontecer | O que o turista deve fazer |
|---|---|---|
| :—: 1 a 2 | Quase imperceptível, alguns notam | Nada, seguir a viagem |
| :—: 3 | Copos tremem, portas rangem | Ficar atento, sem correr |
| :—: 4 | Objetos pendurados balançam muito | Afastar-se de vidros e prateleiras |
| :—: 5 fraco a 5 forte | Louça cai, móveis deslizam | Proteger a cabeça, buscar abrigo |
| :—: 6 fraco a 6 forte | Difícil ficar de pé, móveis tombam | Abaixar, proteger, aguardar |
| :—: 7 | Movimento violento, danos sérios | Proteção máxima e evacuação orientada |
Não decore a tabela. Guarde só a lógica: até 4, mantenha a calma. De 5 para cima, o corpo precisa reagir rápido.
O alerta que chega antes do tremor
O Japão tem um sistema chamado Earthquake Early Warning, operado pela Agência Meteorológica do Japão. Ele funciona porque as ondas sísmicas viajam em velocidades diferentes. As primeiras ondas, mais rápidas e menos destrutivas, são detectadas por sensores espalhados pelo país. O sistema calcula em segundos onde foi o epicentro e qual a intensidade esperada, e dispara o aviso antes que as ondas mais lentas e mais violentas cheguem.
Na prática, isso significa de poucos segundos a algo em torno de meio minuto de antecedência, dependendo da distância entre você e o epicentro. Se o epicentro estiver praticamente debaixo dos seus pés, o alerta pode chegar junto com o tremor ou até depois. Não é magia, é física.
O alerta chega de três formas principais:
O celular apita. E apita de um jeito que assusta de propósito, com um som agudo e repetitivo impossível de confundir com notificação de rede social. Celulares japoneses recebem isso automaticamente. Celulares estrangeiros nem sempre, e é aí que entra o aplicativo, que comento mais adiante.
A TV interrompe a programação com um mapa e um aviso sonoro. A NHK faz isso em segundos e, em eventos maiores, entra em transmissão contínua, inclusive em inglês pela NHK World.
Alto-falantes públicos, trens e estações também transmitem. Em muitas cidades existem torres de som comunitárias usadas para desastres.
Quando você ouvir esse alerta, o roteiro mental é curto: pare, proteja a cabeça, saia de perto do que pode cair. Não perca tempo tentando traduzir a mensagem. Você tem segundos, não minutos.
Durante o tremor: o que fazer com o corpo
A orientação internacional, adotada também no Japão, é a lógica do “abaixar, cobrir, segurar”. Abaixe o corpo, proteja a cabeça e o pescoço, e segure em algo firme se estiver embaixo de uma mesa. Parece simples, e é. O problema é que o instinto humano manda fazer o oposto: correr.
Correr durante um tremor forte é o que mais machuca. Você cai, tropeça em móvel deslocado, pisa em vidro, ou corre justamente para debaixo de um lustre. Em um edifício japonês moderno, o lugar mais seguro nos primeiros trinta segundos costuma ser o interior do próprio edifício, longe de janelas.
Alguns detalhes que fazem diferença:
Proteja a cabeça com o que estiver à mão. Mochila, bolsa, travesseiro, capuz da jaqueta. Já vi orientações oficiais japonesas mencionando explicitamente o uso da bolsa como escudo, e faz sentido: a maior parte das lesões vem de queda de objetos.
Fique longe de janelas, portas de vidro, espelhos e vitrines. Em áreas comerciais, o vidro é o inimigo número um.
Não use elevador. Se você já estiver dentro de um durante o tremor, aperte todos os botões de andar. Elevadores japoneses modernos têm sistema de parada automática no andar mais próximo, mas nem todos, e nem sempre funciona como o esperado. Se ficar preso, use o botão de intercomunicação e espere. Não tente abrir a porta ou forçar o teto.
Se estiver na cama, num hotel, fique na cama e cubra a cabeça com o travesseiro. Levantar no escuro, com o chão se movendo e móveis deslizando, é pior.
Se estiver cozinhando num apartamento alugado, desligue o fogo se conseguir fazer isso sem se expor. Se o tremor for violento, proteja-se primeiro e desligue depois. A maioria dos fogões a gás japoneses tem corte automático em caso de sismo.
Se estiver na rua, afaste-se de muros, postes, máquinas de venda automática, placas e telhas. Prédios antigos com azulejos na fachada e muros de concreto sem reforço são perigosos. Espaço aberto é bom, se existir. Se estiver num bairro estreito, entrar num prédio moderno e ficar longe das janelas pode ser mais seguro que ficar na viela.
Se estiver dirigindo, reduza aos poucos, pare no lado esquerdo da via, não bloqueie o trânsito, ligue o rádio e deixe a chave no veículo caso precise abandoná-lo, para que as equipes de emergência possam removê-lo. Isso é orientação padrão no Japão.
Klook.comEstação de trem, metrô e Shinkansen
Estações são o cenário mais comum para um turista no Japão, porque é onde ele passa boa parte do dia.
Trens japoneses têm frenagem automática ligada ao sistema de alerta sísmico. O Shinkansen, especialmente, freia sozinho ao receber o sinal, e há décadas esse sistema evita acidentes graves. O que costuma acontecer, então, não é descarrilamento, e sim paralisação. Trens param no meio do trajeto, inspeções de via começam e o sistema inteiro entra em modo de verificação.
Dentro do trem, segure-se firme. Muitos ferimentos em tremores acontecem por queda dentro de vagões. Não tente abrir portas, não tente descer nos trilhos por conta própria. A energia da catenária pode estar ativa, e trilhos são espaço técnico. Espere o funcionário. Ele vai aparecer, e vai coordenar a saída se for necessário.
Na plataforma, afaste-se da borda. Isso é básico e ainda assim ignorado. Proteja a cabeça e agache perto de uma coluna, longe de painéis suspensos, telas e placas de sinalização, que caem.
Depois da parada, prepare-se para a parte chata: multidões. Em eventos maiores, todas as linhas suspendem operação simultaneamente, e milhares de pessoas ficam sem transporte. O termo japonês para isso é kitaku konnan sha, algo como “pessoa com dificuldade de retornar para casa”. Em 2011, Tóquio teve milhões nessa situação.
Nesse cenário, a decisão mais inteligente para um turista é não tentar heroísmos. Não saia caminhando dez quilômetros à noite numa cidade que você não conhece. Estações, prédios públicos, escolas e alguns hotéis abrem espaços de espera. Funcionários distribuem informação, e frequentemente água e cobertores térmicos.
Hotel, ryokan e Airbnb: o que checar no check-in
Aqui está uma das dicas mais úteis e mais ignoradas: gaste dois minutos no momento da chegada olhando o mapa de rota de fuga atrás da porta do quarto. Todo hotel japonês tem isso por exigência legal. O mapa mostra onde você está no andar, onde ficam as escadas de emergência e, em geral, onde é a área de evacuação designada do bairro.
Vale também identificar, ainda no quarto:
Onde fica a escada mais próxima, contando quantas portas há até ela. Em caso de fumaça ou falta de luz, você vai contar portas com a mão.
Se existe lanterna no criado-mudo. Muitos hotéis japoneses colocam uma, às vezes acoplada na parede.
Se o hotel oferece kit de emergência, comum em hospedagens maiores, com capuz antifogo, água e biscoitos.
Em ryokans tradicionais, com estrutura de madeira e portas de papel, o comportamento muda um pouco. A construção é leve, o que ajuda em alguns aspectos, mas prédios antigos de madeira têm risco maior de dano estrutural e de incêndio. Siga com atenção redobrada o que o pessoal da casa disser, porque eles conhecem o imóvel.
Outro detalhe pouco comentado: em hotéis japoneses, o aviso interno por alto-falante durante emergências costuma vir primeiro em japonês, depois em inglês. Não entre em pânico com o intervalo entre os dois.
O ponto mais crítico: tsunami
Se existe uma única informação deste texto que precisa ser gravada, é esta. Tremor é assustador, mas quem mata em grande escala no Japão é o tsunami. Em 2011, o terremoto de magnitude 9,0 na região de Tōhoku causou quase vinte mil mortes, e a esmagadora maioria não foi por desabamento. Foi por água.
A regra, adotada oficialmente e ensinada nas escolas japonesas, é direta. Se você está perto do mar, de uma baía, de um estuário ou de um rio próximo à costa, e o tremor foi forte ou muito longo, mesmo que fraco, vá imediatamente para um terreno alto. Não espere sirene. Não espere confirmação. Não abra o celular para checar notícia. Suba.
O tempo disponível pode ser curtíssimo. Em terremotos com epicentro próximo à costa, a primeira onda pode chegar em menos de dez minutos. Já em eventos distantes, pode levar horas. Você não tem como calcular isso na hora, então a única atitude segura é assumir o pior cenário.
Três informações complementares que muita gente não sabe:
Tsunami sobe rio. Ele entra pela foz e avança quilômetros para dentro do continente, às vezes com força maior por causa do estreitamento do canal. Estar a dois quilômetros da praia, mas na margem de um rio, não é estar seguro.
A primeira onda raramente é a maior. Muita gente morreu voltando para pegar pertences depois da primeira onda. Ondas seguintes podem vir por horas.
Recuo do mar é sinal de alerta, mas não é obrigatório. Existe o mito de que o mar sempre recua antes. Às vezes recua, às vezes não. Nunca use isso como critério.
No Japão, você vai ver placas verdes com uma figura subindo uma escada e a inscrição 津波避難場所 (local de evacuação de tsunami) ou 高台へ (para o terreno alto). Em cidades costeiras existem também torres de evacuação, estruturas de concreto construídas exatamente para receber quem não consegue chegar a uma colina. Se estiver hospedado no litoral, olhe onde está a mais próxima antes de precisar dela.
Depois de um alerta, a Agência Meteorológica classifica em três níveis: aviso de tsunami maior (grande tsunami), aviso de tsunami e alerta de variação do nível do mar. O primeiro é o cenário grave. Mas repito o que importa: você não precisa esperar a classificação para começar a subir.
Vulcões, incêndios e o que vem depois
Terremotos no Japão às vezes vêm acompanhados de outros problemas.
Incêndio é um deles, historicamente devastador. Após o terremoto de 1923 em Kantō, a maior parte das mortes veio do fogo que se espalhou pela madeira das construções. Hoje, com o corte automático de gás e melhores materiais, o risco caiu, mas não desapareceu. Se sentir cheiro de gás, não acenda nada, não use interruptor, abra a janela e saia.
Deslizamento de terra é outro. O Japão é montanhoso, e chuva mais tremor é uma combinação ruim. Se você estiver em região de encosta, como Hakone, Nikkō ou áreas rurais, atenção especial a barrancos.
Réplicas continuam por dias ou semanas. Elas costumam ser mais fracas, mas podem derrubar estruturas já enfraquecidas. Depois de um evento grande, a Agência Meteorológica emite avisos sobre a probabilidade de novos tremores fortes. É por isso que se recomenda não voltar imediatamente a prédios danificados.
Vulcões não são disparados diretamente por qualquer terremoto, e a ciência é cautelosa nessa relação. Ainda assim, o Japão monitora mais de cem vulcões ativos e emite níveis de alerta de 1 a 5. Se sua viagem inclui trilha em vulcão, checar o nível antes é bom senso básico.
Os aplicativos e canais que funcionam de verdade
Aqui vale separar o que é oficial do que é conveniência.
O aplicativo Safety Tips é o mais recomendado para estrangeiros. Foi criado com apoio da Agência de Turismo do Japão e envia alerta sísmico antecipado, aviso de tsunami, alertas meteorológicos, avisos vulcânicos e informações gerais de emergência. Ele tem versões em vários idiomas, e ainda oferece fluxogramas do tipo “o que fazer agora” e frases prontas para pedir ajuda. É gratuito. Baixe antes de embarcar, não no aeroporto com wi-fi instável.
A NHK World oferece transmissão ao vivo em inglês, e em eventos graves é a fonte mais rápida e sóbria. Vale ter o app ou o site salvo.
O Japan Shelter Guide é útil para localizar abrigos e áreas de evacuação, inclusive sem internet, dependendo da configuração.
Para comunicação com a família, existem serviços japoneses de mensagem em desastres. As operadoras oferecem quadros de mensagens, e o Google já ativou o Person Finder em eventos passados. Ainda assim, o mais eficiente para turista é combinar antes uma regra simples com quem ficou em casa: “se acontecer algo, eu mando uma mensagem de texto ou de aplicativo dizendo que estou bem, e vocês não me ligam”.
Esse último detalhe tem base técnica. Em desastres, a rede de voz congestiona e as ligações não completam, mas dados costumam funcionar melhor. Mensagens curtas passam. Chamadas de vídeo, não.
Números de emergência e como pedir ajuda
Guarde dois números:
119 para bombeiros e ambulância. 110 para polícia.
Ambos funcionam de qualquer telefone, inclusive de celular estrangeiro em roaming. Existe atendimento com suporte a outros idiomas em muitos casos, mas pode haver demora na transferência para intérprete. Por isso, aprender três ou quatro palavras ajuda muito.
| Frase em japonês | Pronúncia aproximada | Significado |
|---|---|---|
| :—: 助けて | tasukete | socorro |
| :—: 地震です | jishin desu | é terremoto |
| :—: 津波 | tsunami | tsunami |
| :—: 避難場所はどこですか | hinan basho wa doko desu ka | onde é o local de evacuação |
| :—: 病院へ行きたい | byōin e ikitai | quero ir ao hospital |
| :—: 大丈夫です | daijōbu desu | estou bem |
Uma palavra que vale reconhecer visualmente é 避難 (hinan), que significa evacuação. Se você vir esse par de caracteres numa placa, numa tela de estação ou num aviso de hotel, o assunto é sair de onde você está.
O papel dos funcionários japoneses e por que confiar neles
Existe um aspecto cultural que ajuda demais o turista, e que só quem observa o funcionamento do país percebe. No Japão, funcionários de estação, loja, museu e hotel são treinados formalmente para desastres. Não é improviso. Empresas fazem simulados periódicos, e há obrigações legais de treinamento e de manutenção de rotas de fuga.
Isso significa que, se você não sabe o que fazer, a melhor estratégia é observar e seguir. Se os funcionários estão calmos, é porque o tremor está dentro do esperado. Se eles começam a se posicionar nas saídas, colocar capacete e usar megafone, o cenário mudou.
Uma cena típica em tremores moderados: o pessoal do supermercado segura as prateleiras com as mãos, o alarme toca, e em seguida uma voz anuncia que tudo está sob controle. Isso não é encenação, é procedimento.
Vale também dizer o contrário, para não parecer ingenuidade. Confiar no sistema não elimina sua responsabilidade. Turista que ignora aviso de evacuação porque quer filmar a onda é um problema real em países costeiros, e no Japão isso já causou mortes.
Depois que o chão para: a sequência correta
Passado o tremor, a tentação é sair correndo para a rua. Melhor seguir uma ordem.
Primeiro, verifique se você está ferido, depois quem está ao seu lado. Cortes de vidro são comuns, e se você está de meia ou descalço num hotel, calce algo com sola antes de andar.
Segundo, procure fogo e cheiro de gás. Se houver, saia e avise.
Terceiro, avalie o ambiente. Rachaduras grandes em pilares, portas emperradas, forro caído. Se houver dano visível na estrutura, saia pelas escadas, nunca pelo elevador.
Quarto, pegue o essencial se der tempo: passaporte, celular, carregador, dinheiro em espécie, medicamento de uso contínuo, garrafa de água, agasalho. Não faça mala. Não volte para pegar souvenir.
Quinto, se estiver em zona costeira, suba antes de fazer qualquer outra coisa da lista acima que não seja checar ferimento.
Sexto, procure informação oficial em vez de rumor. Em desastres, redes sociais japonesas e internacionais enchem de boato, inclusive imagens antigas recicladas como se fossem atuais. Já aconteceu em vários eventos recentes. NHK, aplicativo oficial e voz do alto-falante local valem mais que vídeo viral.
Sétimo, avise a família com mensagem curta, e economize bateria. Modo avião intermitente, brilho baixo, nada de streaming.
Oitavo, se for evacuar, leve calçado fechado e, se possível, algo na cabeça. Telhas e vidros continuam caindo nas réplicas.
Abrigos: como funcionam e o que esperar
Escolas públicas, ginásios e centros comunitários são os abrigos padrão no Japão. Eles abrem rapidamente e recebem quem precisa, incluindo estrangeiros. Não é preciso comprovar residência.
O padrão de dentro é simples e organizado: espaço no piso do ginásio, papelão para delimitar áreas, cobertores, água e alimentos distribuídos aos poucos. Sapato sai na entrada, hábito japonês que se mantém mesmo em emergência. Silêncio à noite é levado a sério.
Duas dificuldades reais para o turista: idioma e comida. Nem todo abrigo tem alguém que fala inglês, e a distribuição de alimentos costuma seguir o que existe em estoque, sem opções para restrições alimentares. Se você tem alergia grave ou restrição religiosa, levar barras e snacks na mochila durante a viagem é decisão inteligente, não paranoia.
Existe também a opção de procurar a embaixada ou consulado do seu país. Brasileiros no Japão contam com rede consular relativamente ampla, incluindo Tóquio, Nagoia e Hamamatsu, justamente pela grande comunidade brasileira no país. Anote o telefone consular antes de viajar e mantenha uma cópia em papel.
Preparação leve, do tipo que não pesa a mala
Não é necessário viajar como se fosse a uma expedição. Umas poucas coisas resolvem quase tudo.
Bateria portátil carregada. Em desastres, energia elétrica é o primeiro item a faltar, e celular é sua linha de vida informativa.
Cópia digital e física do passaporte, além do endereço do hotel escrito em japonês. Se você precisar pedir ajuda ou voltar, isso vale ouro.
Lanterna pequena ou lanterna do celular como plano B. Vale lembrar que o Japão tem apagões locais após tremores fortes.
Uma garrafa de água já cheia no quarto e alguns snacks. Simples e eficaz.
Máscara e um par de meias extra. Poeira de construção é irritante, e piso molhado ou coberto de vidro é comum.
Dinheiro em espécie. Máquinas de cartão e caixas eletrônicos podem sair do ar. O Japão ainda é um país onde o iene em papel resolve.
E, por último, algo que não ocupa espaço: dois minutos de leitura do mapa de evacuação de cada hospedagem, e uma olhada rápida se a cidade onde você vai dormir é costeira ou não.
O que não fazer, sem meias palavras
Não corra durante o tremor. Não use elevador antes de confirmação de segurança. Não fique em plataforma na beira dos trilhos. Não desça nos trilhos por conta própria. Não acenda fogo, isqueiro ou fósforo se sentir cheiro de gás. Não volte a um prédio com dano estrutural para buscar objeto. Não fique perto do mar depois de um tremor forte, nem para observar. Não confie em rumor de rede social. Não bloqueie corredores, escadas ou vias de acesso de resgate. Não ligue por voz repetidamente para o Japão nem para casa nas primeiras horas, prefira mensagem.
Uma última consideração sobre medo e viagem
Muita gente cancela ou evita o Japão por medo de terremoto, e isso me parece um cálculo mal feito. O país investe em prevenção como poucos: sensores por todo o território, código de construção rigoroso, educação escolar sobre desastres desde a infância, simulados anuais, sinalização abundante e cultura pública de cooperação. Estatisticamente, você está mais seguro num prédio moderno de Tóquio durante um tremor do que em várias outras situações banais de viagem.
O que muda a equação a favor do visitante não é evitar o risco, é reduzir a improvisação. Saber que o celular vai apitar de um jeito estranho. Saber que a orientação é proteger a cabeça e não correr. Saber que placa verde com escada significa subir. Saber que perto do mar não se espera confirmação. Saber que 119 chama ambulância e 110 chama polícia. Saber que funcionário de estação, por incrível que pareça, é quem melhor sabe o que fazer naquele momento.
Uma viagem ao Japão com essas informações na cabeça continua sendo o que deveria ser: templos, comida boa, trens pontuais, ruas silenciosas de madrugada. A diferença é que, se o chão se mexer, você não vai gastar seus preciosos vinte segundos tentando entender o que está acontecendo. Você já vai saber.
