Como Montar um Roteiro de Passeios a pé em Zermatt
Zermatt é uma vila alpina sem carros a combustão, ao pé do Matterhorn, e dá para conhecer o essencial em um dia caminhando: funicular até Sunnegga, centro histórico na Bahnhofstrasse, igreja de St. Mauritius, Museu do Matterhorn (Matterhornmuseum – Zermatlantis) e o trem do Gornergrat até Rotenboden, de onde sai a trilha curta para o Riffelsee, o lago do reflexo. O que não dá é fazer isso na ordem sugerida por muitos roteiros que circulam na internet.

Antes de tudo: o problema daquele roteiro
Existe um infográfico bonito rodando por aí, “Zermatt Walking Route, the perfect 1-day walkable itinerary”. Visualmente ótimo. Logisticamente, tem um erro grande no meio.
Ele coloca uma “caminhada de 45 minutos, 3,5 km” da vila até o Riffelsee e depois o trem do Gornergrat “de volta”. Isso não existe. O Riffelsee fica a cerca de 2.757 metros de altitude, logo abaixo da estação Rotenboden, na ferrovia do Gornergrat. Zermatt está a cerca de 1.605 metros. São mais de 1.100 metros de desnível. A pé, subindo, isso é coisa de 4 a 5 horas, não 45 minutos.
Ou seja: para ver o Riffelsee, você sobe de trem até Rotenboden e depois caminha uns 10 a 15 minutos até o lago. O trem do Gornergrat não é a “volta”, é a ida.
Outro detalhe: o infográfico começa em Sunnegga às 9h e depois desce para a vila. Funciona, mas desperdiça a melhor luz. E ainda sugere que Sunnegga e Gornergrat caibam no mesmo dia com folga. Cabe, mas apertado e caro. Vou explicar as duas versões.
Corrigido isso, o resto das indicações é razoável. Vamos ao que realmente funciona.
Como chegar em Zermatt
Zermatt não aceita carros a combustão. Isso não é marketing, é regra municipal antiga. Os veículos da vila são elétricos, pequenos, com aquele barulho de carrinho de golfe.
De trem: você chega até Visp ou Brig pela rede nacional (SBB/CFF) e ali troca para o Matterhorn Gotthard Bahn, que sobe o vale de Mattertal até Zermatt. De Visp são cerca de 1h05. De Zurique, contando a conexão, algo em torno de 3h15 a 3h30. De Genebra, entre 3h30 e 4h.
De carro: você para em Täsch, no estacionamento coberto Matterhorn Terminal, e pega o Zermatt Shuttle, um trem que faz o trecho em cerca de 12 minutos, com partidas frequentes. Também existe estacionamento em Randa e St. Niklaus, mais barato, se você não se importar com o trem mais longo.
Um aviso prático: o estacionamento de Täsch em alta temporada, especialmente em fevereiro e agosto, enche. Chegar cedo ajuda.
Uma observação sobre custo, porque muda o roteiro
Zermatt é caro até para padrões suíços. As duas subidas principais têm preços bem diferentes:
| Trajeto | O que é | Duração aproximada |
|---|---|---|
| Zermatt → Sunnegga | funicular subterrâneo | 3 a 5 min |
| Zermatt → Gornergrat | ferrovia de cremalheira | 33 min |
| Zermatt → Matterhorn Glacier Paradise | teleféricos em etapas | 45 min |
O funicular de Sunnegga é barato e rápido. O Gornergrat é caro. O Glacier Paradise, a 3.883 m, é o mais caro dos três.
O Swiss Travel Pass dá desconto (não gratuidade) no Gornergrat e no funicular. O Half Fare Card também. Se você tem um desses, vale conferir a diferença na bilheteria, porque as regras mudam de ano em ano. O Peak2Peak e o Peak Pass são combos locais que podem compensar se você fizer mais de uma montanha.
Se o orçamento aperta, minha opinião: escolha um. E entre Sunnegga e Gornergrat, para um único dia, o Gornergrat entrega mais.
O roteiro que funciona de verdade
6h30 às 7h30 – Sunnegga, para o nascer do sol
Aqui está a jogada que quase ninguém faz e que muda o dia.
O funicular de Sunnegga costuma iniciar operação bem cedo em alta temporada, e a face leste do Matterhorn pega a primeira luz do sol de frente. É aquele efeito de “montanha em brasa” que dura poucos minutos. Vale checar o horário da primeira subida no dia anterior, na estação, porque varia por temporada e por manutenção.
De Sunnegga (cerca de 2.288 m) você tem vista limpa do pico e o Leisee logo abaixo, um lago pequeno com margem de gramado. Em dias sem vento, ele reflete o Matterhorn. Tem até uma pequena praia e um teleférico curtinho descendo até ali, ou uma caminhada de uns 10 minutos.
Se acordar cedo demais não é opção, tudo bem. Faça Sunnegga por volta das 9h, como sugere o infográfico. Só saiba que a luz do meio da manhã é mais dura e o vento já bateu na água.
8h30 às 9h30 – Café e a vila acordando
Desça de funicular e ande até o centro. A estação de Sunnegga fica a poucos minutos a pé do coração da vila.
A Bahnhofstrasse é a rua principal, ligando a estação ao resto de Zermatt. É onde estão as lojas de equipamento de montanha, as relojoarias, as chocolaterias e os hotéis históricos. Sim, é turística. Mas Zermatt tem uma peculiaridade: mesmo a parte comercial mantém arquitetura de madeira escura com sacadas de gerânio, e o Matterhorn aparece no fim da rua em vários pontos. Não fica kitsch.
Café da manhã na vila custa caro. Padarias vendem croissant e Nussgipfel por uma fração do preço de um hotel.
9h30 às 10h – O bairro velho, o Hinterdorf
Essa é a parte que o infográfico não menciona e que eu considero imperdível.
O Hinterdorf é o núcleo antigo de Zermatt, com celeiros e casas de madeira escurecida pelo sol, alguns com mais de 300 anos. Vários estão erguidos sobre pilares de pedra com um disco chato de laje no topo, os Stadel. Aquele disco não é decoração: era barreira contra ratos, que não conseguiam passar pela borda saliente para chegar ao grão armazenado.
O contraste é forte. Você sai de uma rua com vitrine de relógio de dezenas de milhares de francos e entra num beco de terra batida com celeiro do século XVIII. Zermatt era uma aldeia agrícola pobre até o alpinismo chegar, na segunda metade do século XIX, e essa parte lembra isso.
10h às 10h30 – Igreja de St. Mauritius e o cemitério dos alpinistas
A igreja paroquial fica na Kirchplatz, no meio da vila. O templo atual é do início do século XX, construído no lugar de igrejas anteriores. Interior sóbrio, nada exuberante.
O que impressiona é o que está do lado de fora: o cemitério dos montanhistas. Ali estão sepultados alpinistas mortos no Matterhorn e em outros picos da região. As lápides trazem piolets, cordas, machadinhas gravadas, e idades que doem de ler. Muita gente com 20 e poucos anos.
O Matterhorn foi escalado pela primeira vez em 14 de julho de 1865, por uma expedição liderada pelo inglês Edward Whymper. Na descida, a corda arrebentou e quatro dos sete integrantes morreram: Douglas Hadow, Charles Hudson, Lord Francis Douglas e o guia Michel Croz. Aquela tragédia deu fama mundial à montanha e, indiretamente, criou a Zermatt turística.
Fica alguns metros de caminhada da igreja, e é um lugar para andar devagar e falar baixo.
10h30 às 12h – Matterhornmuseum, o Zermatlantis
O museu fica na Kirchplatz, praticamente ao lado da igreja, e é subterrâneo. Você desce e entra numa reconstrução da antiga aldeia, com casas em tamanho real, oficina de guia, cozinha de camponês, estábulo. Daí o apelido “Zermatlantis”, a vila submersa.
A peça central é o pedaço de corda que se rompeu em 1865. Está exposta ali, num vidro. É uma corda fina, de fibra natural, absurdamente frágil para o que se pedia dela. Ver aquilo depois de ter estado no cemitério muda o peso da história.
Tem também material sobre a vida rural antes do turismo, sobre os guias locais e sobre as escaladas seguintes. Reserve uma hora, hora e meia. É um dos museus mais bem feitos dos Alpes e não é caro comparado ao resto de Zermatt.
Observação honesta: se você viaja com crianças pequenas, o museu prende a atenção por menos tempo. Meia hora resolve.
12h às 13h – Almoço
Aqui o infográfico cita dois lugares e vale um esclarecimento.
O Whymper-Stube, no Hotel Monte Rosa, é na vila e é conhecido pelas fondues. Fica no prédio de onde Whymper partiu em 1865, o que é um detalhe simpático.
O Chez Vrony, por outro lado, não é na vila. Fica em Findeln, um vilarejo de celeiros antigos numa encosta acima de Zermatt, e chega-se a pé de Sunnegga em cerca de 20 a 25 minutos de descida. É um dos restaurantes de montanha mais famosos da Suíça, com terraço de frente para o Matterhorn, e reserva é praticamente obrigatória em alta temporada.
Se você quiser o Chez Vrony, ele não encaixa no meio da tarde do roteiro. Ele encaixa logo depois de Sunnegga, pela manhã, ou substitui o Gornergrat como programa principal.
Para um almoço rápido e mais barato: padarias e supermercados da vila. Comer sanduíche num banco olhando o pico não é derrota nenhuma.
13h30 às 16h30 – Gornergrat e Riffelsee
Agora a parte principal, na ordem correta.
A Gornergratbahn é a primeira ferrovia elétrica de cremalheira da Suíça, inaugurada em 1898. A estação fica em frente à estação principal de Zermatt, atravessando a rua. A subida leva cerca de 33 minutos e vai até 3.089 metros.
Senta do lado direito na subida. Isso importa: é dali que se vê o Matterhorn durante boa parte do trajeto. Na descida, lado esquerdo.
No topo, a vista é do tipo que não se descreve bem. Você tem o Glaciar de Gorner, um dos maiores dos Alpes, se estendendo abaixo, e um anfiteatro de picos acima de 4.000 metros, incluindo a Dufourspitze (4.634 m), a montanha mais alta inteiramente em território suíço. E o Matterhorn de perfil, do outro lado.
Tem observatório, hotel, restaurante e plataformas. Fique ali de 40 minutos a uma hora.
Depois, o Riffelsee. Pegue o trem na descida e desembarque em Rotenboden, uma estação abaixo. Dali sai uma trilha curta, larga e bem marcada, com 10 a 15 minutos de caminhada em declive suave até o lago.
O Riffelsee é pequeno, raso, e existe basicamente para uma coisa: refletir o Matterhorn. Em dia sem vento, o reflexo é quase perfeito, e é dali que vem uma das fotos mais reproduzidas da Suíça. Tem até um segundo lago menor um pouco adiante, com outro ângulo.
Duas dicas: vento é o inimigo, e ele geralmente aumenta ao longo da tarde. Se o reflexo for prioridade absoluta, faça o Gornergrat pela manhã, no primeiro ou segundo trem, e inverta a ordem do dia. E agache: fotografar bem baixo, quase na linha da água, dobra o efeito.
De Rotenboden você pode voltar de trem ou continuar caminhando descendo até Riffelberg (uns 45 minutos) e pegar o trem ali. A trilha é fácil e a vista continua.
16h30 em diante – Volta e fim de tarde
De volta na vila, o programa é solto. Chocolate, uma cerveja com vista, a ponte sobre o rio Matter Vispa, os canteiros de flores.
Se ainda houver energia e sol, a subida a pé até o Gornerschlucht (garganta do Gorner), a poucos minutos do centro, tem passarelas de madeira sobre um desfiladeiro estreito com água glacial correndo embaixo. Barato, curto e pouco visitado.
Contas realistas do dia
| Item | Estimativa honesta |
|---|---|
| Tempo total | 8 a 10 horas |
| Caminhada efetiva | 7 a 10 km |
| Desnível a pé | pouco, o trem faz o trabalho |
| Dificuldade | fácil, com trechos de ladeira na vila |
O infográfico fala em 10 a 12 km e 15 a 18 mil passos. É plausível, mas ele conta a caminhada até o Riffelsee que não existe. Na versão corrigida, você anda menos e vê mais.
Melhor época
Julho a setembro é o auge para caminhadas: trilhas abertas, teleféricos com horário cheio, prados floridos em julho.
Junho é bonito mas ainda com neve em trilhas altas, e algumas fecham.
Dezembro a abril é temporada de esqui, com a vila decorada e o Gornergrat funcionando sobre neve. O Riffelsee, porém, fica congelado e coberto, e a trilha de Rotenboden pode estar fechada. Se o reflexo é o seu objetivo, inverno não serve.
Fim de outubro e novembro, junto com maio, são as épocas de baixa em que muitos hotéis e teleféricos fecham para manutenção. Mais barato, mas menos disponível.
Coisas que ninguém avisa
O tempo muda rápido. O Matterhorn cria a própria nuvem. Pode estar limpo às 8h e coberto às 11h. Existem webcams ao vivo do Gornergrat e de Sunnegga: consulte antes de comprar bilhete caro.
Altitude é real. Gornergrat passa dos 3.000 m e o Glacier Paradise chega a 3.883 m. Dor de cabeça leve, falta de ar e cansaço acontecem. Beba água, suba devagar, não faça esforço grande no primeiro contato.
Sol de altitude queima muito mais. Protetor forte, óculos escuros, boné. Mesmo em dia frio, mesmo com nuvem.
Camadas de roupa. Vila a 22 °C em agosto e Gornergrat a 5 °C com vento é combinação normal. Corta-vento sempre na mochila.
Sapato fechado com aderência. As trilhas citadas aqui são fáceis, mas o cascalho solto de Rotenboden não perdoa tênis liso.
Reserva de restaurante de montanha. Chez Vrony, Findlerhof, Zum See. Todos lotam. Ligar no dia anterior resolve.
Água. Zermatt tem fontes públicas com água potável em várias esquinas. Garrafa reutilizável economiza dinheiro de verdade.
O que faz Zermatt funcionar em um dia é justamente essa combinação: uma vila pequena e andável, com museu e história concentrados em duas praças, e ferrovias antigas que te jogam a 3.000 metros em meia hora. Só não tente subir a montanha a pé em 45 minutos.

