Como é Fazer Turismo no Butão na Ásia

Turismo no Butão: o que conhecer em Paro, Thimphu, Punakha e Bumthang, quanto custa a taxa diária de 100 dólares, quando ir, o que esperar da cultura e como aproveitar o país que mede progresso em felicidade.

Turismo no Butão: o que conhecer em Paro, Thimphu, Punakha e Bumthang, quanto custa a taxa diária de 100 dólares

Turismo no Butão na Ásia

Poucos países do mundo decidiram, de forma consciente, que não querem muitos turistas. O Butão é um deles. E essa escolha explica praticamente tudo o que você vai sentir por lá.

O nome oficial da política é “alto valor, baixo volume”. Na prática significa: cobrar caro, limitar o número de visitantes, exigir guia credenciado, e usar o dinheiro para manter florestas, templos e um jeito de viver que a maior parte da Ásia já perdeu. Dá para discordar da estratégia. Difícil é discordar do resultado.

Este é um país onde mais de 70% do território ainda é coberto por floresta, onde a Constituição obriga que nunca caia abaixo de 60%, e onde o progresso é medido por um índice de Felicidade Nacional Bruta em vez de PIB puro. Não é marketing bonito. É lei escrita.

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Como funciona o turismo por lá, sem rodeio

Você não vai de mochila para o Butão. Não existe a versão “chego e vejo no que dá”.

O turista estrangeiro (fora indianos, que têm regras próprias) precisa de três coisas: visto aprovado antecipadamente, pagamento da Taxa de Desenvolvimento Sustentável de 100 dólares por pessoa por noite, e um roteiro operado por uma agência licenciada butanesa, com guia acompanhando.

Essa taxa de 100 dólares é a parte que mais confunde. Ela não paga hotel, comida, carro nem guia. É um valor separado, que vai para saúde pública, educação gratuita, conservação ambiental e compensação de carbono. Criança de 6 a 12 anos paga metade. Abaixo de 6 anos não paga.

Somando tudo, um dia de Butão em padrão confortável fica algo entre 300 e 420 dólares por pessoa. Econômico consegue ficar perto de 230. Luxo passa de 1.500 sem esforço, porque o país tem Amankora, Six Senses e Como Uma, e esses lugares cobram o que quiserem.

O guia obrigatório, confesso, é o ponto que mais gente critica antes de ir e mais gente elogia depois. Não é vigilância. É acesso. Sem ele você não entende metade do que está vendo, não sabe por que aquele monge está girando aquele objeto, não recebe convite para entrar na cozinha de uma casa de fazenda. O guia é a diferença entre olhar e enxergar.


Paro: a porta de entrada e o cartão-postal

Todo mundo começa aqui, porque é onde está o único aeroporto internacional do país, a 2.235 metros de altitude, num vale cercado por montanhas.

O Ninho do Tigre

O Mosteiro de Taktsang, o Ninho do Tigre, é a imagem que fez o Butão famoso. Um complexo de templos grudado numa parede de rocha vertical, a 3.120 metros de altitude, cerca de 900 metros acima do fundo do vale.

A lenda diz que Guru Rinpoche, o mestre que levou o budismo tântrico para a região no século VIII, chegou ali voando nas costas de uma tigresa e meditou numa caverna por três anos, três meses, três semanas, três dias e três horas. O mosteiro construído em volta dessa caverna data do fim do século XVII. Pegou fogo em 1998 e foi reconstruído.

A trilha leva de quatro a cinco horas de subida e descida, dependendo do ritmo. Não é escalada técnica, é caminhada em terra e pedra, mas a altitude cobra o preço. Existe uma cafeteria no meio do caminho, com vista frontal do mosteiro, e muita gente para ali e considera suficiente. Não é. Os últimos trechos, com a escadaria que desce e sobe atravessando uma cachoeira, é onde o lugar realmente acontece.

Dicas práticas: comece cedo, antes das sete da manhã se possível. Leve água. Cavalos podem ser contratados, mas só até certo ponto da subida, e não descem com você. Câmeras e celulares ficam num armário na entrada do templo, obrigatoriamente. E vista roupa que cubra ombros e pernas.

O resto de Paro

O Paro Dzong, oficialmente Rinpung Dzong, é uma fortaleza-mosteiro do século XV que domina o vale. Paredes brancas, madeira entalhada, pátios internos onde monges circulam. Dzongs no Butão são duas coisas ao mesmo tempo: sede do governo distrital e mosteiro ativo. Essa mistura de Estado e religião é a espinha dorsal do país.

Perto dele fica o Kyichu Lhakhang, um dos templos mais antigos do Butão, do século VII, com duas laranjeiras no pátio que dizem dar fruto o ano inteiro.

E tem o hot stone bath, banho tradicional em que pedras de rio são aquecidas no fogo até ficarem em brasa e depois mergulhadas numa banheira de madeira com água e ervas artemisia. A pedra estala ao entrar na água e libera minerais. Depois de subir o Ninho do Tigre, isso não é luxo, é primeiros socorros.


Thimphu: a capital que não tem semáforo

Thimphu é a única capital do mundo sem um único semáforo. Tentaram instalar um nos anos 90 e a população reclamou tanto que voltaram ao policial de trânsito, que fica numa cabine no cruzamento principal fazendo gestos coreografados. É o melhor exemplo do país em uma cena só.

A cidade tem cerca de 115 mil habitantes e cabe numa manhã de caminhada, mas vale mais que isso.

O Buda Dordenma é uma estátua dourada de 51 metros num morro acima da cidade, com mais de cem mil budas menores dentro. É recente, foi concluída na década passada, e tem aquele exagero que só faz sentido quando você chega perto. A vista do vale de lá é a melhor de Thimphu.

O Tashichho Dzong é o centro do governo e a sede do Je Khenpo, o líder religioso do país. Abre para visitantes em horários definidos, e é onde você entende a escala arquitetônica desses prédios.

O mercado de fim de semana, aberto de sexta a domingo às margens do rio Wang Chhu, é o lugar onde eu passaria mais tempo. Pimenta seca em montanha vermelha, queijo curado em cubos duros como pedra, samambaias, arroz vermelho butanês, incenso, carne pendurada. Do outro lado da ponte de bambu, o setor de artesanato.

Vale também a Escola Nacional de Artes e Ofícios, o Zorig Chusum, onde jovens aprendem as treze artes tradicionais butanesas, de entalhe a pintura de thangka. E o Museu do Papel, pequeno, onde se vê a fabricação artesanal de papel de casca de amoreira.

Um detalhe cultural que impressiona: o Butão adotou televisão e internet apenas em 1999. É recente demais para ser irrelevante. A geração de 40 anos cresceu sem TV. Isso ainda dá o tom da conversa por lá.


Punakha: onde o país fica mais bonito

Para chegar em Punakha você atravessa o passo Dochu La, a 3.100 metros, com 108 chortens (pequenos monumentos budistas) construídos numa curva do topo. Em dia limpo, a linha do Himalaia oriental aparece inteira no horizonte. Em dia de neblina, aparece nada, e é sorte pura.

Do passo a estrada desce quase mil metros e o clima muda completamente. Punakha é quente, subtropical, com arrozal, bananeira e buganvília.

O Punakha Dzong

Foi capital do Butão até 1955, e o Punakha Dzong é, na minha opinião, o edifício mais bonito do país. Está construído exatamente na confluência de dois rios, o Pho Chhu (rio macho) e o Mo Chhu (rio fêmea), numa língua de terra. É onde os reis butaneses são coroados e onde o casamento real de 2011 aconteceu.

Na primavera, as jacarandás em volta florescem em roxo contra as paredes brancas. É uma daquelas cenas que parecem editadas e não são.

Dentro tem um dos salões de assembleia mais impressionantes do Himalaia, com pilares gigantes e murais que contam a vida do Buda.

Ponte suspensa e o templo do falo

A ponte suspensa de Punakha tem cerca de 180 metros e é uma das mais longas do país. Ela balança. Bandeirinhas de oração ao longo de todo o vão. Atravessar é meio jogo, meio ritual.

E tem o Chimi Lhakhang, o templo de Drukpa Kunley, monge do século XV conhecido como o “Louco Divino”. Ele ensinava budismo através de humor, bebida e escândalo sexual deliberado, provocando as convenções religiosas da época. O templo é procurado por casais com dificuldade de engravidar. E é por causa dele que você vai ver falos pintados nas paredes de casas por todo o Butão, símbolos de proteção contra mau-olhado e de fertilidade. Ninguém acha isso engraçado por lá. É sério, e ao mesmo tempo é uma piada de 500 anos que continua funcionando.

A caminhada até o templo atravessa arrozais por vinte minutos, passando por uma vila. Uma das melhores curtas caminhadas do país.


Phobjikha e o vale dos grous

Subindo de Punakha em direção ao centro do país, você chega ao Vale de Phobjikha, também chamado Gangtey. É um vale glacial largo, com fundo pantanoso, sem árvores, cercado de floresta de pinheiro. Fica a cerca de 3.000 metros.

Entre final de outubro e março, cerca de 500 a 600 grous de pescoço negro migram do Tibete para passar o inverno aqui. É uma ave rara, considerada sagrada localmente, e a chegada delas é celebrada. Existe um festival do grou em novembro, no mosteiro de Gangtey.

O que mais me chama atenção em Phobjikha é a decisão que a comunidade tomou: recusaram fiação elétrica aérea para não atrapalhar o voo das aves, e a eletricidade foi enterrada. É caro, é trabalhoso, e fizeram assim mesmo.

O Mosteiro Gangtey, do século XVII, fica num morro sobre o vale. A Gangtey Nature Trail é uma caminhada fácil de cerca de uma hora e meia descendo do mosteiro até o fundo do vale, atravessando vila e campo de batata. Simples, e uma das coisas mais bonitas que se faz no Butão.

À noite faz frio de verdade ali. Muitos hotéis usam aquecedor a lenha, o bukhari. Leve roupa térmica mesmo em setembro.


Trongsa e Bumthang: o Butão mais profundo

Poucos turistas passam de Punakha. Quem passa, encontra outro país.

Trongsa

Para chegar, atravessa-se o passo Pele La, a 3.420 metros, e depois estrada longa em curva. O Trongsa Dzong é o maior dzong do Butão, construído numa crista sobre um desfiladeiro, e historicamente controlava a única rota leste-oeste do país. Quem dominava Trongsa dominava o Butão, e por isso a tradição manda que o príncipe herdeiro seja governador de Trongsa antes de se tornar rei.

Acima dele fica a Ta Dzong, torre de vigia convertida num museu excelente sobre a monarquia butanesa. Vale a visita, e é rápido.

Bumthang

Bumthang é o coração espiritual do país. São quatro vales, com o de Chokhor sendo o principal, em torno da cidade de Jakar.

Aqui está o Jambay Lhakhang, do século VII, um dos 108 templos que o rei tibetano Songtsen Gampo teria mandado construir num único dia. Em outubro acontece ali o Jambay Lhakhang Drup, festival que inclui o Mewang, uma dança do fogo, e o Tercham, uma dança sagrada noturna executada por monges nus, à luz de fogueira, com restrição de fotografia. É o festival mais intenso do Butão, e não se parece com nada.

Perto está o Kurjey Lhakhang, construído sobre a caverna onde Guru Rinpoche meditou e deixou impressa a marca do corpo na rocha. Três templos em fila, cada um de um século diferente.

E o Tamshing Lhakhang, fundado em 1501, onde existe uma cota de malha de ferro que os peregrinos carregam três vezes em volta do templo como purificação. Pesa uns 25 quilos. Tente.

Bumthang também tem a coisa mais improvável do Himalaia: uma cervejaria, a Red Panda, produzindo cerveja de trigo não filtrada por método suíço. E queijo local. A combinação faz sentido depois de dois dias de estrada.


Haa e o oeste esquecido

O Vale de Haa só abriu para turismo em 2002 e continua sendo o lugar menos visitado do oeste butanês. Chega-se por Paro, atravessando o Chele La, a 3.988 metros, o passo motorizável mais alto do país.

O Chele La é onde eu iria ver o pôr do sol se tivesse uma única chance. Em dia limpo, o Jomolhari, montanha sagrada de 7.326 metros, aparece inteiro. Bandeirinhas de oração por toda parte, vento cortante, silêncio.

Em Haa se vê o Butão rural sem filtro: casas de fazenda, campos de trigo mourisco, os templos Branco e Negro (Lhakhang Karpo e Lhakhang Nagpo). Se você tem mais de dez dias, encaixe.


Comida: prepare-se para a pimenta

A cozinha butanesa não usa pimenta como tempero. Usa como legume.

O prato nacional é o ema datshi: pimenta verde inteira cozida num molho de queijo local. Não é pimenta com queijo, é pimenta em quantidade de prato principal. Existem variações com batata (kewa datshi) e cogumelo (shamu datshi), que são mais suaves e provavelmente onde você vai começar.

Junto vem arroz vermelho butanês, de grão curto e casca avermelhada, cultivado nos vales altos. Tem também o phaksha paa, porco com pimenta seca e rabanete, e o jasha maroo, frango picante. Carne de iaque aparece nas regiões altas. Em Bumthang, o queijo é excelente.

Bebida: suja, chá de manteiga e sal, que é uma coisa que você toma por educação e não por prazer, ao menos no começo. Ara, destilado local de arroz ou cevada, servido morno, às vezes com ovo batido. E a Red Panda, já citada.

A maioria dos hotéis serve buffet mais suave para estrangeiros. Se você quiser comer de verdade, avise o guia que quer comer o que os butaneses comem, e diga se aguenta pimenta ou não. Seja honesto nessa resposta.


Festivais: se der para encaixar, encaixe

Os tsechus são festivais religiosos com danças mascaradas que reencenam eventos budistas, realizados nos pátios dos dzongs. Duram vários dias. As máscaras são pesadas, as danças têm coreografia rígida e séculos de idade, e assistir é considerado ato de mérito religioso pelos locais, não espetáculo.

FestivalLocalÉpoca aproximada
Paro TsechuParo DzongMarço ou abril
Thimphu TsechuTashichho DzongSetembro ou outubro
Punakha Drubchen e TsechuPunakha DzongFevereiro ou março
Jambay Lhakhang DrupBumthangOutubro ou novembro
Festival do GrouGangteyNovembro
Black-Necked Crane / Haa SummerHaaJulho

As datas seguem o calendário lunar butanês e mudam a cada ano. Confirme com a operadora. E saiba: nos grandes tsechus, hotéis e voos esgotam meses antes.

No último dia do Paro Tsechu, um enorme thongdrel, tapeçaria religiosa gigante, é desenrolado ao amanhecer e recolhido antes do sol bater nele. Só vê-lo já é considerado suficiente para purificar más ações. Começa por volta das quatro da manhã. Vale acordar.


Quando ir

PeríodoClimaBom para
Março a maioAmeno, floresParo Tsechu, rododendros, trilhas
Junho a agostoMonção, chuvaVerde intenso, preços baixos, menos gente
Setembro a novembroSeco e limpoMelhor visibilidade de montanha, Thimphu Tsechu
Dezembro a fevereiroFrio e secoCéu limpíssimo, grous, poucos turistas

Outubro e novembro são os meses de céu mais limpo com temperatura ainda tolerável. Se a montanha é sua prioridade, é aí. Se orçamento é sua prioridade, monção. Se grou é sua prioridade, dezembro a fevereiro.


Regras não escritas que valem saber

Em templos e dzongs, ombro e joelho cobertos, sapato fora na entrada, chapéu fora, sem foto dentro dos salões sagrados. Circule sempre no sentido do relógio em torno de chortens e rodas de oração.

Nunca aponte o dedo, nem para pessoa nem para imagem religiosa. Use a mão aberta. Não toque na cabeça de ninguém, nem de criança.

Não pise em cima de textos religiosos, e não sente com a sola do pé apontada para altar ou pessoa.

Fumar é fortemente restrito no país, com proibição em espaços públicos, e a importação de tabaco é limitada e taxada. Não é lugar de fumante casual.

Se lhe oferecerem comida, a etiqueta tradicional manda recusar de leve duas vezes antes de aceitar. Ninguém vai se ofender se você aceitar de primeira, mas é bonito notar isso acontecendo.

Ao encontrar um monge sênior, uma leve inclinação de cabeça basta.


Corpo, altitude e ritmo

Paro está a 2.235 metros. Thimphu a 2.320. Phobjikha a 3.000. Os passos passam de 3.900. O Ninho do Tigre a 3.120.

Isso não é altitude extrema, mas é o suficiente para causar dor de cabeça, insônia e falta de ar em quem chega do nível do mar. Beba muito mais água do que costuma. Vá devagar no primeiro dia. Álcool nas primeiras 48 horas é má ideia. Se você tem histórico de problema respiratório ou cardíaco, converse com um médico antes.

As estradas butanesas merecem aviso próprio. Distância no mapa não significa nada. Thimphu a Punakha são 75 quilômetros e três horas. Punakha a Bumthang são cerca de 200 quilômetros e oito a nove horas. É curva contínua, o tempo inteiro. Se você enjoa em carro, resolva isso com remédio antes de sair do hotel, não no meio da subida.

E o remédio mais eficaz é reduzir ambição de roteiro. Sete noites cobrem Paro, Thimphu e Punakha com folga. Dez a doze noites chegam confortavelmente até Bumthang. Menos que isso virando dias inteiros de carro é desperdiçar dinheiro alto em janela de veículo.


O que fica

O Butão não impressiona pelo mesmo mecanismo dos outros destinos. Não é acúmulo de atrações. É a ausência de certas coisas que você nem percebia que estavam te cansando: outdoor, buzina, fila, pressa, gente vendendo algo a cada dez metros.

Você vai passar um dia inteiro numa estrada de montanha por causa de um templo. Vai subir 900 metros a pé para ver um prédio. Vai comer pimenta em quantidade absurda. E em algum momento, provavelmente numa curva com neblina ou num pátio de dzong ouvindo tambor de monge, vai entender por que um país inteiro decidiu que crescer rápido não era o ponto.

Não é destino barato, e não deveria ser confundido com uma viagem de descanso. É uma viagem que exige, do corpo e do orçamento. Mas é uma das poucas que ainda entrega algo genuinamente diferente, e não uma versão mais bonita do que você já viu em outro lugar.

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