Viaje com Segurança: Risco de Trombose Venosa Profunda em Vôos Longos
Trombose venosa profunda em vôos longos: entenda os riscos, quem precisa de mais cuidado, os sintomas de alerta e o que fazer antes, durante e depois da viagem.

Ficar dez, doze ou quinze horas sentado numa poltrona de avião faz mais do que deixar as costas doloridas e as pernas inchadas. Para algumas pessoas, essa imobilidade cria as condições para a formação de um coágulo nas veias profundas da perna, a chamada trombose venosa profunda, conhecida pela sigla TVP. Não é motivo para pânico nem para desistir de viajar. Mas é um assunto que merece mais atenção do que costuma receber.
Quem organiza viagens internacionais com frequência percebe uma coisa curiosa: as pessoas passam semanas pesquisando hotel, comparando preço de passagem e montando roteiro dia por dia. Quase ninguém para cinco minutos para pensar no que acontece com o próprio corpo durante um trajeto de São Paulo a Dubai ou de Guarulhos a Tóquio com conexão. E é justamente aí que mora um risco silencioso.
O que é, afinal, a trombose venosa profunda
As veias das pernas têm uma tarefa complicada. Precisam levar o sangue de volta ao coração, contra a gravidade, subindo desde os pés. Para isso contam com uma ajuda importante: a musculatura da panturrilha. Cada vez que você caminha, a panturrilha contrai, aperta as veias e empurra o sangue para cima. Muitos médicos chamam essa musculatura de “segundo coração” por esse motivo.
Quando você fica sentado por horas sem se mexer, essa bomba praticamente para de funcionar. O sangue anda mais devagar nas veias das pernas. E sangue parado tem mais tendência a coagular.
A trombose venosa profunda é exatamente isso: um coágulo (trombo) que se forma numa veia profunda, quase sempre na panturrilha ou na coxa. Ele pode bloquear parcialmente ou totalmente a circulação daquele vaso.
O problema maior nem é o coágulo na perna em si. É a possibilidade de um pedaço dele se soltar, viajar pela corrente sanguínea e chegar ao pulmão. Isso se chama embolia pulmonar, uma condição grave, que pode ser fatal e exige atendimento de emergência.
Médicos costumam agrupar as duas condições sob o nome de tromboembolismo venoso. Na prática, é tudo parte do mesmo problema.
Por que o avião aumenta o risco
Existe uma ideia popular de que a culpa é da pressão da cabine ou do ar seco. Esses fatores entram na conversa, mas o vilão principal é bem mais simples: a imobilidade prolongada.
A Organização Mundial da Saúde coordenou um grande estudo sobre o tema, chamado projeto WRIGHT (WHO Research Into Global Hazards of Travel). Os resultados, publicados em 2007, mostraram que o risco de tromboembolismo venoso praticamente dobra depois de viagens com mais de quatro horas de duração. E aqui vem um detalhe que muita gente ignora: esse aumento não é exclusivo do avião. Viagens longas de carro, ônibus ou trem também elevaram o risco no estudo. O denominador comum é ficar sentado, parado, por muito tempo.
Ainda assim, o avião tem algumas particularidades que pioram o quadro:
O espaço é apertado. Na classe econômica, a distância entre poltronas limita muito a movimentação das pernas. Os joelhos ficam dobrados, a parte de trás da coxa fica comprimida contra o assento, e isso dificulta ainda mais o retorno do sangue.
A pressão da cabine é mais baixa que a do nível do mar. Os aviões comerciais são pressurizados como se estivessem numa altitude de aproximadamente 1.800 a 2.400 metros. Isso reduz um pouco a oxigenação do sangue. Alguns estudos investigaram se essa condição ativa a coagulação, mas os resultados ainda não são consistentes. Fica como um possível fator, não como a explicação principal.
O ar é muito seco. A umidade dentro da cabine costuma ficar bem abaixo do que estamos acostumados. Somado a pouca ingestão de água e, às vezes, ao consumo de álcool, isso pode deixar o corpo levemente desidratado. A relação direta entre desidratação leve e trombose ainda é debatida pela ciência, mas manter-se hidratado é uma recomendação unânime por ser simples e ter benefícios gerais.
E tem o fator humano. Muita gente toma remédio para dormir, encaixa o corpo numa posição torta junto à janela e passa seis, sete horas sem levantar. Esse comportamento, convenhamos, é o cenário perfeito para o sangue ficar estagnado nas pernas.
O tal “síndrome da classe econômica”
Durante anos a imprensa popularizou a expressão “síndrome da classe econômica”. O nome pegou, mas não é muito justo. A trombose pode acontecer em qualquer classe, inclusive na executiva e na primeira. Tem até relatos de casos em pilotos.
O que muda de uma classe para outra é o espaço disponível para se mexer e a facilidade de deitar com as pernas esticadas. Na executiva, com poltrona que vira cama, a pessoa consegue mudar de posição com mais liberdade, o que ajuda. Mas quem dorme oito horas seguidas sem se mexer, mesmo numa cama flat, continua imóvel.
Por isso, em vez de pensar “estou na econômica, logo corro risco”, vale mais pensar “vou ficar muito tempo parado, então preciso me mexer”.
Qual o tamanho real do risco
Aqui cabe uma dose de realismo, porque esse assunto costuma oscilar entre o descaso total e o exagero alarmista.
Segundo os dados do projeto WRIGHT, divulgados pela OMS, o risco absoluto de desenvolver tromboembolismo venoso após um vôo de mais de quatro horas fica em torno de 1 caso para cada 6.000 passageiros saudáveis. É um número baixo. A grande maioria das pessoas faz viagens longas a vida inteira sem nenhum problema.
Mas tem dois pontos importantes nessa história.
O primeiro: o risco cresce conforme aumenta a duração da viagem. Um vôo de quatro horas não é igual a um de catorze. E quem faz vários vôos longos num intervalo curto, como conexões seguidas ou viagens de trabalho frequentes, também acumula risco.
O segundo: esse número vale para a média da população. Quando a pessoa já tem algum fator de risco, a conta muda bastante. Para alguém que passou por uma cirurgia recente ou que já teve trombose antes, a probabilidade é bem maior.
Na minha visão, esse é o ponto que mais precisa de atenção. Não adianta assustar um jovem saudável de 25 anos indo para Lisboa. Mas faz muita diferença orientar bem uma senhora de 70 anos que operou o joelho há um mês e vai visitar a filha no Canadá.
Quem precisa redobrar os cuidados
Os principais fatores que aumentam o risco de trombose em viagens longas são reconhecidos por entidades médicas como a OMS, o American College of Chest Physicians e o CDC, o centro de controle de doenças dos Estados Unidos. Vale conhecer cada um.
Histórico de trombose ou embolia
Quem já teve um episódio de trombose venosa profunda ou embolia pulmonar está no grupo de maior risco. Essa é provavelmente a informação mais importante de todo o texto. Se esse é o seu caso, a conversa com o médico antes de embarcar não é opcional.
Cirurgia ou trauma recente
Cirurgias, principalmente as ortopédicas (quadril, joelho) e as abdominais maiores, aumentam muito a tendência de coagulação nas semanas seguintes. O mesmo vale para fraturas e para quem está com a perna imobilizada em gesso ou bota ortopédica. Muitos médicos recomendam evitar vôos longos nas primeiras semanas depois de um procedimento grande, mas o prazo exato depende de cada caso.
Câncer
Pacientes com câncer ativo, especialmente durante o tratamento, têm um risco maior de trombose no dia a dia. Uma viagem longa soma mais um fator nessa conta.
Gravidez e pós-parto
Durante a gestação o corpo naturalmente fica com o sangue mais propenso a coagular. Isso é uma proteção natural contra hemorragias no parto, mas tem esse efeito colateral. O risco continua elevado nas semanas após o nascimento do bebê.
Anticoncepcional e reposição hormonal
Os anticoncepcionais que contêm estrogênio e a terapia de reposição hormonal aumentam o risco de trombose. No estudo da OMS, mulheres que usavam anticoncepcional oral e fizeram vôos longos tiveram um aumento de risco considerável em comparação com quem não usava. Isso não significa que toda mulher que toma pílula vai ter trombose num avião. Significa que vale reforçar os cuidados.
Obesidade
O excesso de peso dificulta o retorno venoso e está ligado a um estado inflamatório que favorece a coagulação. O estudo WRIGHT apontou risco aumentado em pessoas com índice de massa corporal acima de 30.
Altura fora do padrão
Esse é um dado curioso. O mesmo estudo mostrou que pessoas com menos de 1,60 m e com mais de 1,90 m tiveram maior risco. A explicação provável tem a ver com a poltrona. Quem é muito baixo pode ficar com a borda do assento pressionando a parte de trás do joelho, já que os pés nem sempre alcançam o chão direito. Quem é muito alto fica com as pernas espremidas contra a poltrona da frente.
Idade
O risco de trombose aumenta com a idade, de forma mais clara a partir dos 40 anos e ainda mais depois dos 60.
Trombofilias
Algumas pessoas têm alterações genéticas que deixam o sangue mais propenso a coagular. A mais conhecida é o fator V de Leiden. Muitas vezes a pessoa nem sabe que tem, até ter um episódio de trombose ou ter um parente próximo diagnosticado. Se há histórico de trombose na família, vale mencionar isso ao médico.
Outros fatores
Varizes importantes, insuficiência cardíaca, algumas doenças inflamatórias e mobilidade reduzida também entram na lista. Fumar é outro ponto que piora a saúde vascular de forma geral.
Uma observação prática: os fatores se somam. Uma pessoa com um único fator leve, como usar pílula, tem um risco diferente de alguém que usa pílula, tem obesidade, vai fazer um vôo de catorze horas e ainda pretende tomar um remédio para dormir a viagem inteira.
Janela ou corredor? Parece bobagem, mas não é
Escolher o assento é uma das decisões mais subestimadas numa viagem longa.
Quem senta na janela tende a se levantar menos. Faz sentido: para sair dali, é preciso pedir licença a uma ou duas pessoas, muitas vezes acordá-las. A maioria acaba desistindo e fica horas no mesmo lugar. As diretrizes do American College of Chest Physicians, inclusive, citam o assento na janela como um fator que pode aumentar o risco, justamente por causa dessa imobilidade.
O corredor resolve isso. Você levanta quando quer, sem constrangimento, e ainda consegue esticar uma perna para o lado de vez em quando, quando o carrinho não está passando.
Para quem tem algum fator de risco, eu considero o corredor praticamente obrigatório. E vale pagar a marcação antecipada se a companhia cobrar. Parece um gasto à toa até você estar na nona hora de vôo, preso na janela, com o passageiro do lado dormindo profundamente.
Os assentos de saída de emergência e as primeiras fileiras de cada seção oferecem mais espaço para as pernas, o que também ajuda. Só lembre que nem todo mundo pode ocupar a saída de emergência, por regras de segurança.
Antes de embarcar: o que fazer
A prevenção começa antes de chegar ao aeroporto.
Converse com o médico se você tiver fatores de risco
Se você se encaixa em algum dos grupos de risco mais alto, marque uma consulta algumas semanas antes da viagem. O médico vai avaliar seu caso e decidir se basta usar meia de compressão e seguir os cuidados gerais, ou se é necessário algum medicamento preventivo.
Em casos de risco elevado, alguns médicos prescrevem anticoagulantes, como a heparina de baixo peso molecular aplicada pouco antes do vôo. Essa decisão é estritamente médica. Anticoagulante aumenta o risco de sangramento e não deve ser usado por conta própria em hipótese alguma.
E a aspirina?
Muita gente acredita que tomar uma aspirina antes de viajar protege contra trombose. As diretrizes do American College of Chest Physicians recomendam não usar aspirina com esse objetivo em viajantes de longa distância. A aspirina age mais sobre as plaquetas e tem efeito mais relevante na trombose arterial, como no infarto, do que na trombose venosa da perna. Além disso, ela tem seus próprios riscos, como sangramento gastrointestinal. Se você já usa aspirina por indicação médica, continue normalmente. Só não comece por conta própria pensando em proteger as pernas.
Escolha o vôo com estratégia
Quando possível, avalie se uma conexão com escala de algumas horas não é melhor do que um vôo direto muito longo. Uma escala permite caminhar, alongar e reativar a circulação. Claro que isso tem um preço em tempo e cansaço, e para muita gente o direto continua sendo a melhor escolha. Mas para quem tem risco alto, quebrar a viagem pode ser uma boa ideia.
Compre as meias de compressão com antecedência
Falaremos delas com calma logo abaixo. O importante aqui é não deixar para comprar no aeroporto, onde nem sempre você encontra o tamanho certo.
Contrate um seguro viagem decente
Uma trombose ou embolia no exterior pode significar internação, exames de imagem, medicamentos caros e, em alguns casos, dias de UTI. Nos Estados Unidos, uma internação dessas pode custar dezenas de milhares de dólares. Um seguro com boa cobertura médica é proteção básica. Para destinos do Espaço Schengen, na Europa, o seguro com cobertura mínima de 30 mil euros é exigência para entrada. Leia as condições com atenção, principalmente se você tem doença pré-existente, porque muitos seguros limitam ou excluem a cobertura nesses casos.
Roupas confortáveis
Parece detalhe, mas faz diferença. Calças muito justas, cintos apertados e roupas que comprimem a cintura e a virilha dificultam o retorno do sangue. Para um vôo longo, prefira roupas soltas e sapatos que possam ser tirados ou afrouxados facilmente, já que os pés costumam inchar.
Meias de compressão: funcionam mesmo?
Funcionam, e essa é uma das medidas com melhor respaldo científico.
Uma revisão da Cochrane, organização reconhecida internacionalmente por analisar estudos médicos com rigor, avaliou o uso de meias de compressão em passageiros de vôos com mais de quatro horas. A conclusão dos pesquisadores foi que as meias reduzem de forma importante a ocorrência de trombose assintomática, aquela detectada em exames mesmo sem a pessoa sentir nada, e também diminuem o inchaço nas pernas.
O mecanismo é simples. A meia aplica uma pressão maior no tornozelo e vai diminuindo conforme sobe pela perna. Isso ajuda a empurrar o sangue para cima, imitando parte do trabalho que a panturrilha faria se você estivesse caminhando.
Qual meia escolher
Para viajantes com risco aumentado, as diretrizes médicas costumam indicar meias de compressão graduada até o joelho, com pressão entre 15 e 30 mmHg no tornozelo. Para pessoas sem fator de risco, as meias de compressão mais leve também podem ajudar no conforto e no inchaço.
Meia de compressão não é a mesma coisa que uma meia apertada qualquer. Ela tem uma graduação específica e precisa ter o tamanho correto. A medida geralmente é feita pela circunferência do tornozelo e da panturrilha, de preferência pela manhã, quando a perna está menos inchada. Uma meia muito pequena pode garrotear, criar uma faixa de pressão e piorar a circulação. Uma meia muito grande simplesmente não faz efeito.
Nas farmácias e lojas de produtos ortopédicos no Brasil você encontra várias marcas. Os modelos “3/4”, que vão até abaixo do joelho, costumam ser os mais usados em viagens. Vale experimentar em casa antes da viagem, para não descobrir só no avião que ela enrola, aperta ou incomoda.
Quando colocar e tirar
O ideal é vestir a meia antes do embarque, ainda no aeroporto ou mesmo em casa, e mantê-la durante todo o vôo. Retire depois de chegar ao destino.
Quem não deve usar
Pessoas com doença arterial periférica importante, algumas condições de pele ou feridas nas pernas e certos tipos de neuropatia podem ter contraindicação. Se você tem problema de circulação arterial ou diabetes com alteração de sensibilidade nos pés, pergunte ao médico antes de usar.
Durante o vôo: o que realmente faz diferença
É aqui que a prevenção acontece de verdade. As medidas são simples, quase óbvias, mas a maioria das pessoas não pratica.
Levante e caminhe
A recomendação mais repetida pelos especialistas é caminhar pelo corredor a cada uma ou duas horas, sempre que o aviso de cinto de segurança estiver desligado. Não precisa ser uma caminhada longa. Ir até o fundo do avião, ficar alguns minutos em pé perto da área das comissárias, esticar o corpo e voltar já ajuda bastante.
Um bom momento para isso é logo depois que o serviço de refeição termina e os carrinhos saem do corredor. Outro truque é aproveitar as idas ao banheiro para andar um pouco mais.
Respeite sempre as orientações da tripulação. Em turbulência, o lugar certo é sentado com o cinto afivelado.
Exercícios na própria poltrona
Mesmo sentado dá para ativar a bomba da panturrilha. Algumas companhias aéreas mostram esses exercícios no sistema de entretenimento de bordo, e eles valem a pena.
Os mais eficientes são bem simples. Com os pés apoiados no chão, levante os calcanhares mantendo a ponta dos pés no piso, depois abaixe. Em seguida faça o contrário: levante a ponta dos pés mantendo os calcanhares no chão. Repita várias vezes, alternando.
Outro movimento útil é fazer círculos com os pés, girando os tornozelos em um sentido e no outro. Também ajuda levantar um joelho de cada vez em direção ao peito, contraindo a coxa, e contrair e relaxar a musculatura da panturrilha.
Fazer essas séries por alguns minutos a cada meia hora é uma boa meta. Parece pouco, mas o efeito na circulação é real.
Não cruze as pernas por muito tempo
Cruzar as pernas comprime as veias da região do joelho. De vez em quando não tem problema, mas manter essa posição durante horas atrapalha o fluxo do sangue.
Cuidado com a bagagem debaixo da poltrona
Muita gente coloca a mochila embaixo do assento da frente e perde metade do espaço para os pés. Em vôos longos, se puder, coloque a bagagem de mão no compartimento superior e deixe a área dos pés livre para se mexer.
Beba água
Leve uma garrafa vazia e encha depois do controle de segurança, ou peça água à tripulação com frequência. Beber água regularmente durante o vôo ajuda a evitar a desidratação provocada pelo ar seco da cabine. De quebra, você vai precisar ir ao banheiro mais vezes, o que obriga a levantar e caminhar. É uma prevenção que se reforça sozinha.
Pegue leve no álcool
Vinho e cerveja são servidos gratuitamente em muitos vôos internacionais, e entendo a tentação. O problema é que o álcool contribui para a desidratação e, principalmente, faz a pessoa dormir mais pesado e se mexer menos. Uma taça no jantar não é o fim do mundo. Várias doses ao longo do vôo, combinadas com horas de sono imóvel, é outra história.
Remédio para dormir: atenção redobrada
Muitos viajantes tomam sedativos ou indutores de sono para atravessar o oceano dormindo. O risco aqui é ficar seis, oito horas na mesma posição, sem nenhum movimento, num sono profundo que não permite perceber o desconforto nas pernas. As recomendações de saúde do viajante desaconselham o uso de sedativos em vôos longos justamente por esse motivo, especialmente para quem tem fatores de risco.
Se você realmente precisa dormir, tente cochilos mais curtos, alternados com períodos acordado para caminhar. E nunca tome remédio para dormir sem orientação médica, ainda mais misturado com álcool.
Mude de posição
Mesmo quando estiver descansando, evite ficar travado numa posição só. Ajuste a postura, estique uma perna, depois a outra. Se tiver uma poltrona livre ao lado, aproveite para variar a posição.
Depois do pouso: o risco não termina no desembarque
Esse é um ponto que surpreende muita gente. A trombose relacionada a viagens nem sempre aparece durante o vôo. Na verdade, os sintomas costumam surgir horas ou dias depois do pouso. O risco aumentado permanece por algumas semanas após uma viagem longa; os estudos indicam que ele é maior nas primeiras duas semanas e pode se estender por até cerca de oito semanas.
Isso significa que um inchaço estranho na perna dez dias depois de voltar de uma viagem merece atenção. Muita gente nem associa uma coisa à outra. Acha que foi uma pancada, um mau jeito, cansaço de tanto andar pela cidade. E deixa passar.
Ao chegar ao destino, uma boa prática é caminhar um pouco, mesmo cansado. Em vez de ir direto do aeroporto para a cama do hotel, dar uma volta no quarteirão ajuda a reativar a circulação. Continuar bebendo água nos primeiros dias também é sensato.
Se você vai encarar outro vôo longo em poucos dias, como numa viagem com múltiplos destinos ou num retorno rápido, mantenha os mesmos cuidados em cada trecho. O risco se acumula.
Os sintomas que pedem atenção imediata
Saber reconhecer os sinais é tão importante quanto a prevenção. Muitas tromboses são silenciosas, mas quando dão sinais, eles costumam ser estes.
Sinais de trombose na perna
O mais típico é o inchaço em apenas uma das pernas. Esse detalhe é importante. As duas pernas inchadas depois de um vôo longo é algo comum e geralmente inofensivo, resultado do acúmulo de líquido pela posição sentada, e tende a melhorar com repouso e pernas elevadas. Agora, uma perna claramente mais inchada que a outra é um sinal de alerta.
Outros sintomas incluem dor ou sensibilidade na panturrilha ou na coxa, que muitas vezes piora ao caminhar ou ao dobrar o pé para cima. A pele da região pode ficar quente, avermelhada ou com coloração diferente. Algumas pessoas descrevem uma sensação de peso ou de cãibra que não passa.
Diante desses sinais, procure atendimento médico no mesmo dia. O diagnóstico geralmente é feito com um exame de ultrassom com doppler, rápido e sem dor. Se confirmada a trombose, o tratamento com anticoagulantes é iniciado e tem bons resultados quando começa cedo.
Sinais de embolia pulmonar
Esses são sinais de emergência. Falta de ar que surge de repente, dor no peito que piora ao respirar fundo, batimentos cardíacos acelerados, tosse (às vezes com sangue), tontura ou desmaio.
Nesses casos, não espere. No Brasil, ligue para o SAMU pelo 192. No exterior, use o número de emergência local: 112 funciona em toda a União Europeia e 911 nos Estados Unidos e no Canadá. Se os sintomas surgirem durante o vôo, avise imediatamente a tripulação. As equipes de bordo são treinadas para situações médicas e podem acionar suporte médico em solo ou pedir ajuda de algum profissional de saúde entre os passageiros.
Importante: a embolia pulmonar pode acontecer mesmo sem nenhum sintoma prévio na perna. Por isso, falta de ar súbita depois de uma viagem longa nunca deve ser ignorada.
Algumas rotas longas a partir do Brasil
Para dar uma noção prática, vale lembrar que boa parte dos destinos internacionais mais procurados por brasileiros já exige vôos bem acima das quatro horas que marcam o início do risco aumentado.
Um vôo de São Paulo para Lisboa leva em torno de dez horas. Para Paris, Madri ou Frankfurt, algo entre onze e doze horas. Os vôos diretos de Guarulhos para Doha ou Dubai passam de catorze horas. E quem vai para a Ásia ou para a Oceania geralmente enfrenta a soma de dois trechos longos, que facilmente ultrapassa vinte e quatro horas de viagem total.
Mesmo dentro do continente, uma ida de São Paulo a Miami ou Nova York fica entre oito e dez horas. E para quem sai de cidades como Belo Horizonte, a conexão em São Paulo ou outro hub acrescenta mais algumas horas sentado, contando o tempo de espera no aeroporto, que muitas vezes também é passado sentado.
Ou seja: para a maioria das viagens internacionais saindo do Brasil, as recomendações deste texto se aplicam integralmente.
Mitos que ainda circulam por aí
“Só gente idosa tem trombose em avião”
Não é verdade. A idade aumenta o risco, mas pessoas jovens também podem ter trombose, especialmente se usam anticoncepcional com estrogênio, têm alguma trombofilia ou ficam totalmente imóveis durante a viagem.
“Classe executiva elimina o risco”
Reduz alguns fatores, como o aperto e a dificuldade de mudar de posição, mas não elimina. Imobilidade é imobilidade, em qualquer poltrona.
“Se não sentir nada no vôo, está tudo bem”
Como vimos, os sintomas podem aparecer dias ou semanas depois. Fique atento após o retorno.
“Aspirina previne trombose em viagem”
As diretrizes médicas não recomendam a aspirina com esse objetivo. A prevenção principal é movimento, meia de compressão e, para casos de alto risco, avaliação médica individual.
“Beber muito café ajuda a ficar acordado e se mexer mais”
O café pode até deixar você mais alerta, mas não substitui a água. Mantenha a hidratação com água como base.
Um olhar prático de quem organiza viagens
Depois de tanto falar de risco, vale colocar as coisas em perspectiva. A trombose associada a vôos longos é um problema real, documentado pela OMS e por várias entidades médicas, mas pouco frequente na população saudável. O objetivo aqui não é criar medo de avião. É mudar alguns hábitos que custam quase nada.
Na prática, o que eu considero essencial para qualquer viajante em vôo longo cabe em poucas atitudes: escolher o corredor sempre que possível, levantar a cada uma ou duas horas, fazer os exercícios de panturrilha sentado, beber água, maneirar no álcool e evitar sedativos. Para quem tem algum fator de risco, somam-se a meia de compressão bem ajustada e uma conversa com o médico antes da viagem.
Uma coisa que acho importante dizer: muita gente sente vergonha de levantar várias vezes, de incomodar os vizinhos de poltrona ou de ficar em pé no fundo do avião fazendo alongamento. Pode deixar a vergonha de lado. As tripulações estão acostumadas, e muitas companhias aéreas inclusive incentivam esses movimentos nos vídeos de bordo. Ninguém vai achar estranho.
Para famílias que viajam com pais ou avós idosos, uma sugestão: combine antes quem vai lembrar quem de levantar. Pessoas mais velhas tendem a ficar quietas no assento para não dar trabalho, e esse é justamente o grupo que mais se beneficia da movimentação. Marcar assentos no corredor para eles e fazer as caminhadas juntos torna tudo mais fácil.
E se você faz parte do grupo de alto risco, não encare a consulta médica como burocracia. É ela que define se você precisa de algo além dos cuidados básicos. Um anticoagulante bem indicado, aplicado na hora certa, pode fazer toda a diferença para quem já teve trombose ou acabou de passar por uma cirurgia grande.
Resumo rápido para guardar no celular
Antes da viagem: avalie seus fatores de risco, consulte o médico se tiver algum, compre meias de compressão no tamanho certo, escolha assento no corredor, separe roupas confortáveis e contrate um bom seguro viagem.
Durante o vôo: levante e caminhe a cada uma ou duas horas, faça exercícios de panturrilha e tornozelo sentado, beba água regularmente, evite álcool em excesso e remédios para dormir, não cruze as pernas por longos períodos e deixe espaço livre para os pés.
Depois do pouso: caminhe um pouco ao chegar, continue se hidratando e fique atento a inchaço em uma perna só, dor na panturrilha, falta de ar ou dor no peito nas semanas seguintes. Diante desses sinais, procure atendimento médico sem demora.
Viajar para longe continua sendo uma das melhores experiências que existem. Com esses cuidados simples, o corpo chega ao destino tão bem quanto a mala, e às vezes até melhor.
